No outro dia os gatos estavam vivos.

Ansiedade não é apenas sobre não conseguir esperar por um evento. Ansiedade é sobre ter sua saúde e qualidade de vida totalmente afetada por questões que independem da sua vontade.

Por exemplo, uma noite completamente insone pensando sobre os sintomas veterinários dos seus gatos que já estão em tratamento e precisam de tempo para se recuperar, mas você martela aquilo na sua cabeça ao invés de ser positivo e enxergar todos os sinais de que eles estão bem.

“Tão novinha já com isso. Meu Deus. Os dois gatos vão ficar doentes *pesquisa na internet sobre remédios caseiros*. Eu tô tão apegada, se eles morrerem eu não sei o que vou fazer. Ai meu Deus. E se eles piorarem, como eu vou fazer para pagar o tratamento.”

Uma noite inteira assim.

E o pior da insônia (e do looping de pensamentos obsessivos), acreditem, é o day after. É o sono incontrolável quando você deveria estar fazendo qualquer outra coisa. São os distúrbios de fome porque seu relógio biológico está uma bagunça. Ou a dor de cabeça que não passa com absolutamente nenhum remédio que você tem ao alcance.

O exemplo do gato foi real, mas não é esse fato que te deixa ansioso, isso é apenas o que a sua mente agarra. Quando você mergulha no poço de uma crise de ansiedade (por menor que seja), sua mente se agarra a uma única coisa e acredita que precisa resolver essa situação, por vezes irrelevante, e o resto da sua vida fica turva.

Existem algumas coisas que efetivamente me ajuda a manter um pouco de regularidade emocional: terapia e atividade física. Na falta desses, não estando no meio de uma crise, minha mente se aquieta com música, com café/chá e com rotina.

Quando eu penso objetivamente em todo sistema de organização que me auto-inflinjo (e infrinjo), só consigo lembrar de um trecho do Gabriel García Marquez em Memórias de minhas putas tristes:

“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza.”

Vivo cercada de etiquetas, planos, planilhas, apps e cronogramas, os quais não consigo cumprir nem metade, mas sem eles minha mente parece dançar em caos. E eu não raciocínio com clareza sobre nada.

Eu tenho, inclusive, um fluxograma sobre as coisas que eu devo fazer ao longo do dia. É pratico, considerando meu mau humor matinal e a falta concentração antes de uma xícara de café, mas quando estou à beira do abismo de uma crise, basta pular uma etapa do planejado que o mundo parece se acabar.

Meus gatos estão bem. Existem muitas questões que eu preciso resolver na vida, mas estou bem.

Crises assim começam e terminam sem avisar e acho que o principal é falar sobre o que aconteceu também me parece um bom exercício para passar por tudo e sair do poço.

A ansiedade ainda me parece um tabu entre as pessoas que eu convivo. Fiz terapia por algum tempo, mas quase ninguém sabe disso. Muitas pessoas já me disseram que cuidar da minha saúde mental é “besteira, que “você precisa de Jesus”, ou “terapia é coisa de gente fraca”.

É caro, é custoso e o universo te desencoraja, mas eu prefiro passar uma hora por semana no Divã (ou escrevendo um pouco) do que continuar perdendo noites.

A gente continua tentando.

No dia seguinte o mundo não acabou.

Você está meio zumbi, mas o mundo não acabou.

* Imagem: my anxious heart — Katie Joy Crawford

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.