Os meus heróis

Sempre gosto de escrever nos dias ruins, aqueles dias em que é preciso uma coragem sobre-humana para silenciar o despertador, sair da cama e vestir a roupa de encarar o mundo: quase uma rotina de um super herói.

Coincidência ou não, os dias ruins parecem ser propícios para acontecer fatos ruins. Ou talvez os fatos ruins ficam maiores nos dias ruins. Não sei ao certo. A questão é que tem muita coisa acontecendo no mundo que contribui para a piora dos dias, já com aparelhos respiratórios ligados. Ontem teve a notícia do abuso sofrido por uma jornalista famosa por defender suas posições e seu feminismo desafiador. Teve a galera que desacreditou nas palavras da jornalista, teve também os que hackearam o canal de uma artista apenas por ela ser quem é. Por fim, ainda muito se ouve sobre o salário do Neymar.

É interessante observar como todos ali são e têm heróis a sua maneira: a jornalista que tem o histórico de luta pelos direitos das mulheres, que inspirou outras várias a lutarem por respeito e igualdade; a galera que a ataca constantemente e tem um político como herói — mito, é assim que o chamam. Tem a artista que tinha tudo para dar errado, mas vem vencendo o ódio e o preconceito com o seu talento, certamente, é um fio de esperança de muitas pessoas que são agredidas, ofendidas e até mortas por apenas serem quem são. E tem o Neymar, que é o herói de muitos fãs do futebol, um dos melhores jogadores do mundo, o “craque do Brasil” que inspira a meninada toda. E seu merecido salário, mas surreal.

Ao pensar nisso, desejei ter um super herói ou uma super heroína pra mim também. Ele ou ela teria o poder de melhorar o meus dias de merda, me explicar o que não consigo entender, e me faria crème brûlée no final das tardes frias, apenas isso. Uma missão não muito louvável, mas ainda assim, uma missão. Dandara, Elza soares e Viola Davis não podem ser citadas aqui, pois God is a black woman.

Sempre gostei de pessoas, dessas que são de carne e alma, gente de verdade que ri, sofre, chora, ama, sente. Gente que escorre suor, pois coloca intensidade e calor em tudo o que faz. Deus me dibre (gíria do twitter) dessa gente que não transpira, que não descabela, de aperto de mão e abraço frouxo e que cheira a perfume comprado na última viagem a Europa. Eu gosto é de gente que abraça apertado, gargalha alto e me chama pra entrar, tomar café e contar caso, mesmo tendo todos os problemas do mundo. Acho que é a descrição mais próxima que tenho de um herói.

Me lembrei da Dona Maria da Graça, uma senhora linda, de sorriso largo e de uma fé admirável. Dona Maria é catadora de material reciclável. Todas as manhãs de segunda, quarta e sexta, encontro ela e seu filho, Adriano, recolhendo os materiais pela vizinhança, antes que o caminhão de lixo passe. Eu adoro quando conversamos, ela me ensina coisas e fala sobre os destemperos do mundo. Com o dinheiro que recebe da venda dos materiais recicláveis, ela ajuda em casa e ainda viaja o país afora em excursões e romarias, como disse, é uma mulher de muita fé. “Fia, não se preocupe com luxo não. Ter carro e um bom celular é importante, mas não precisa ser dos mais caros, não. Viaje o quanto cê puder, nessa vida a gente não vai levar nada quando morrer, nem a roupa do corpo”. Gosto muito da Dona Maria.

O Adriano, filho da Dona Maria, tem algum problema cognitivo, mas mesmo assim, é mais interessante conversar com ele do que com os outros meninos do meu bairro. Sempre quando me vê, ele pergunta duas coisas: Sobre o meu irmão — talvez seja a pessoa que mais gosta do meu irmão na face da terra — e se eu conheço o celular GALAXY SWTYWRW 1325464, pois ele quer comprar um. Depois me diz que eu preciso ter cuidado, pois tem muito ladrão à toa pelas redondezas. Concluído o roteiro pré-estabelecido do nosso diálogo, ele me conta algum caso de alguém que não conheço e se despede quase sempre no meio da história, nunca sei o final dos casos que ele conta. Talvez seja por isso que goste tanto de conversar com o Adriano: a não-obrigatoriedade de se ter uma lógica nas conversas para se fazer entender.

Falei sobre a Dona Maria e do Adriano, pois além de fazer maravilhas para o meio-ambiente — e convencerem a vizinhança (e minha mãe) a separar o lixo seco do molhado, graças a seus carismas — são capazes de tratarem os outros com gentileza e sempre com um sorriso no rosto, mesmo com quilos e mais quilos de materiais recicláveis sobre as suas costas e cabeças, e mais todo o peso de uma vida dura nos ombros. Heróis que são.

Tem também uma senhora de 93 anos que já passou e aguentou coisas nessa vida, que eu jamais aguentaria em dez vidas que eu tivesse. Casada com um marido bem de vida, mas uma pessoa não tão do bem assim, ela teve que catar papelão para sobreviver, e depois, trabalhar em casa de família e ser humilhada por patrões diversas vezes. Violência em casa, no trabalho, alguns acidentes de trabalho negligenciados e que deixaram sequelas, tratada como bicho nos hospitais públicos da época. Hoje, apesar da idade avançada e das doenças da velhice, ela me ensina todos os dias que o mundo não para até que você cure as suas dores, ele continua girando e você precisa seguir em frente. Ela tem o super poder da coragem e da resiliência.

O mundo é tão grande e tem tanta gente nele. Tanta gente maravilhosa que não tem salário astronômico, pretensão política ou milhões de views no youtube. Gente que não quer ser chamada de mito ou rainha. Há apenas pessoas boas que assim o são: boas. Boas nas palavras, boas em se fazer rir, boas em ajudar, boas em inspirar. São capazes de salvar diversas vidas. Que bom que elas ainda são a maioria.

Quanto aos dias ruins, eles também fazem parte. São ótimos para se fazer pensar, e também passam, como tudo passa. O que fica das pessoas são os seus feitos. Os feitos da Dona Maria, do Adriano, da senhora de 93 anos, da jornalista que expõe e denuncia, do cara que faz mágica com a bola nos pés, da artista que enfrenta todo o ódio que recebeu com música e alegria, os meus, os seus, os nossos feitos…porque não?. Como disse Julie Andrews uma vez — e claro que eu não poderia terminar este texto sem uma citação: “Use seu conhecimento e coração para se levantar por quem não pode ficar de pé, fale por aqueles que não podem falar”. Então, bora sair da cama, vestir a roupa de encarar o mundo e sermos heróis de nós mesmos?.

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