Ego & âncora

Ele esticava os braços, pois realmente acreditava que conseguia tocar os céus. Tinha feito coisas que iam além da capacidade humana, o que lhe dava esperança de fazer tudo o que queria. Repetia vezes e vezes uma frase comum, “nada é impossível àquele que crê”, uma voz rouca sussurrava dentro de seus ouvidos. O eco enchia-lhe o ego, orgulho lhe dava forças fracas. Seus braços tremiam diante de todos, os quatros cantos da terra assistiriam o seu fracasso. Sua dourada confiança em si mesmo lhe tentava negar a verdade.

Uma pessoa se aproximou, carregava um colar de cruz, e disse-lhe a frase que ele já sabia melhor que ninguém. Nada é impossível àquele que crê. Repetiu quatro vezes, na última sorriu amargamente e saiu, arrastando os pés com ódio e amor, equilibrando o peso dos céus e a gravidade da terra. A imagem das suas costas sumindo enquanto se distanciava era vermelha de sangue, deixando um caminho de morte, uma trilha para quem quisesse segui-lo. O jovem continuava a tentar tocar os céus, tolamente encorajado por ouvir isso, e esticou-se ainda mais.

Eu me aproximei então, cheguei perto a ponto de ouvir seu coração pulsar nervoso e desconfiado. Ele estava cansado, mal podia aguentar os próprios ombros, pois pesavam como as toneladas de estrelas e cometas do universo fossem por ele sustentados. Eu então lhe contei poesias suaves e amarelas, azuis, verdes e brancas. Ele sentiu o colorido invadir e tingir cada canto de sua alma antes negra; sentiu-se plumar tanto a ponto de crer que poderia voar. Seus pés começaram a ascender, logo o corpo todo pairava no ar. Tomou impulso depois de me agradecer com um sorriso brilhante, profundo e sincero. Partiu em direção aos céus, enquanto os braços descansavam tremulando com o vento forte. Parecia uma águia. Voou tão alto que enfim alcançou os céus, e nunca mais voltou à terra. Nunca mais precisou esticar os braços ou usar de forças que não possuía. O ego gigantesco era sua âncora ao chão, minha poesia destroçou a velha e enferrujada corrente. Livre como sempre era, enfim ele pode voar e seguir seu destino de tocar os céus. Agora lá é sua habitação, onde sempre desejou estar.

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