Sobre pequenas vitórias

Desde que começamos a trabalhar no Ventura, nosso veleiro, vivenciamos o caos que é executar um trabalho de conserto ou modificação em partes de um sistema complexo e integrado tal qual um veleiro. Exemplo: o projeto em andamento é a instalação do boiler (uma espécie de aquecedor de água pro banho). A operação deveria ser super simples, inclusive pelo fato das mangueiras já estarem passadas, possivelmente o dono anterior tinha planos de instalá-lo algum dia. Portanto, o que seria o trabalho mais complicado já estava feito. Teríamos apenas que fixar o boiler no local escolhido (dentro da praça de máquinas), conectar as mangueiras ao motor (de onde sai a água quente, que esquenta o boiler, e este esquenta a água do banho) e as mangueiras que ligam o boiler ao chuveiro. SIMPLES! Coisa pra resolver em um dia.

Pra não tornar esse texto muito longo, segue a seqüência de fatos que sucederam: começou que o local de instalação não deu beeem certo, tivemos que repensá-lo, depois o parafuso do motor que deveria ser removido, emperrou. Tentamos usar uma ferramenta tipo saca rolha para removê-lo, que quebrou no meio, e trincou o motor. Removemos a peça trincada do motor para encaminhar para um mecânico, e isso resultou em três partes do motor desmontadas e espalhadas pelo barco. Depois de uns dias, com a trinca resolvida e o parafuso sacado, remontamos o motor. Ao ligá-lo, para ver se funcionava, nada. A bateria tinha descarregado depois de tantos dias sem motor (painéis solares serão nosso próximo projeto). Tiramos a bateria (pensa no peso), trouxemos pra casa, demos carga durante a noite com um carregador normal, levamos de volta no outro dia, conectamos todos os cabos e pronto, o motor pegou. De volta ao projeto do bolier, ligamos as mangueiras ao motor e ao chuveiro. A água quente que deveria sair do motor não tinha pressão suficiente. Chamamos o mecânico a bordo pra ele ajudar com isso. Resolvido, testamos o sistema. Não funcionou, nada de água quente. Depois de um dia é que conseguimos arrancar do fabricante uma informação sobre a montagem que até então ele nos estava dando de forma errada. Aí, entendemos que seria necessário fabricar uma prateleira para instalar o boiler ao invés de fixado só na parede. Fizemos o modelo da prateleira, levei pra marcenaria, em menos de um dia estava feita, resinada e pronta pra ser instalada. Corremos atrás dos parafusos para montá-la. Se nada mais der errado, amanhã conseguiremos FINALMENTE montar o boiler. Uma tarefa de um dia levou quase duas semanas.

Ao longo dessas duas semanas, a frustração por não estarmos conseguindo resolver o problema, bem que tentou se aproximar, mas não se manifestou mais do que em alguns palavrões. Já há um tempo eu e o Zac temos o hábito de perguntar um pro outro “e aí, quais as pequenas vitórias de hoje?” Sempre tem. E durante todos esse projeto, era com essa pergunta que a gente acabava o dia, ou a função. Pelo menos agora eu sei desmontar e montar o motor, pelo menos ele tá funcionando, foi legal entender bem como funciona o boiler, é sempre bom passar tempo no barco, pelo menos foram dois fins de semana de chuva que passamos aqui fazendo isso, uau, temos um veleiro! Esse pequeno momento de otimismo é um tremendo impulso para encarar os desvios de percurso de tudo o que a gente faz. Por isso, essa pergunta pode ser feita quase que diariamente, e sua abrangência pode ser enorme. O sentimento de satisfação é uma delícia, e as pequenas vitórias dão sim um gostinho. Não é deixar de se expressar negativamente sobre algo ruim, mas é não esquecer o que pode ser bom e está na mesma caixa, mesmo que em menor escala, merecendo atenção também! E vamos a dose diária de otimisto!