Take Me As I Am, Whoever I Am
Há spoiler sobre a série Modern Love nesse texto, siga se quiser.
Ontem tive um dia ótimo, tanto que nem lembro a última vez que me senti leve daquele jeito. Saí com uma amiga pra ver filme, exposições de arte e comer em food truck (é legal ser cult bacaninha fora da internet), encontrei outras duas amizades sem ter combinado antes. Cheguei em casa, duas coisas que eu estava há dias esperando entrar em promoção entraram e pude comprar na hora. Dormi cedo. Acordei hoje bem cedo também.
Mas não levantei, só peguei o celular pra curiar rede social e dormi de novo. Acordei, curiei rede social e dormi de novo. Esse ciclo rodou até 15h30. Eu estava tentando regular o sono essa semana, plano que agora foi por água abaixo. E comecei a pensar em como eu não queria fazer nada, nunca, se pudesse. Pensei também no quê poderia ser esse sentimento de invalidade; não cheguei a nenhuma conclusão. Esse é o ponto mais estável da minha vida que eu já estive. Viajei, curti um romance, entrei pra faculdade que eu queria no curso que eu queria, estou bem financeiramente, tenho boas pessoas ao meu redor. Por que eu sinto que não mereço nada disso? Não é justo. Eu me esforcei. (me esforcei, não foi?)
Enquanto pensava se merecia ou não, lembrei do episódio que teve um baita impacto pra mim de Modern Love, o que a Anne Hathaway estrela. O início do episódio a exibe como uma mulher desenrolada (expressão pra extrovertida, dicionário aí pra você, não-nordestino), bem sucedida, bonita e muito inteligente. Nada poderia dar errado pra alguém assim. Né?
E então o curso do episódio segue mostrando sua colossal mudança de humor. Era um fardo e desânimo tão grande que ela sentia que ela mal conseguia se mover para atender uma chamada no celular. E passava dias daquela forma. Deitada, se alimentando de porcaria, sem contato com ninguém. Completamente imersa naquele estado de marasmo. Irreconhecível da personalidade apresentada nos primeiros minutos do episódio.
E ela só esperava ir embora. Não adiantava se forçar a sair daquilo, ‘aquilo’ ia embora apenas quando quisesse. Algum dia ela acordaria bem de novo, e seria a mulher forte e desenrolada que mostrava aos outros.
Em que ponto nós simplesmente aceitamos -e quase abraçamos- uma condição psicológica que nos paralisa? Em que ponto se torna parte de mim? E quem eu seria sem esse detalhe? Acredito que tudo na vida é porque é; tomei aquela decisão ruim porque foi o que pareceu vantajoso no momento, escolhi aquela pessoa pra amar porque parecia ser a certa em meio a paixão etcetera. É porque é, porque é só o que podia ser.
Dessa forma, eu não poderia ser eu mesma se não fossem pelos meus tormentos. (Deixando a romantização de lado, até porque não há nenhuma, terapia e medicação são essenciais para tirar algum proveito da sua dor.)
Ainda assim, eu sou muito mais do que esse detalhe.

