Quando, em 2014, via Twitter, Richard Dawkins afirmou ser imoral não abortar um bebê com síndrome de Down, foi um escândalo. Mesmo pessoas sem relação direta com a síndrome expressaram seu asco diante da declaração, obrigando o escritor a explicar-se:

“Se a sua moralidade baseia-se, como a minha, no desejo de aumentar a felicidade geral e reduzir o sofrimento, a decisão deliberada de dar à luz um bebê com Down, quando existe a possibilidade de abortá-lo no início da gestação, pode ser considerada imoral do ponto de vista do bem-estar da própria criança.” (Fonte: https://www.theguardian.com/science/2014/aug/21/richard-dawkins-apologises-downs-syndrome-tweet)

Ou seja, pessoas com SD sofrem; é melhor poupá-las das vidas miseráveis que estão fadadas a ter nesse mundo.

O curioso é que, provavelmente, muitas das pessoas que se escandalizaram com a frase curta e grossa do autor no Twitter (“Aborte e tente de novo”) devem ter achado razoável sua explicação posterior. A premissa do raciocínio de Dawkins (“pessoas com SD sofrem muito”)está por trás de muitos comentários que ouvimos sobre a SD, alguns até bem intencionados.

Como eu posso dizer que minha filha com SD é feliz, e que eu sou feliz por ser mãe dela, se antes de completar seu primeiro ano de vida ela teve de passar por uma cirurgia cardíaca de alto risco? Se ela não come doces por ter tendência a desenvolver diabetes? Se ela tem de fazer exame de sangue a cada seis meses para controle da tireóide? Se ela teve de fazer fisioterapia para começar a andar?

Menos de dois anos, e uma vida já tão rodeada de senões e dificuldades.

No entanto, ontem, 29 de setembro, a Igreja Católica celebrou o dia dos Arcanjos, o que me fez perguntar por onde andará Miguel Arcanjo, um dos bebês minúsculos e gravíssimos que dividiram a UTI cardiológica com a Maria, durante o pós-operatório dela. Miguel Arcanjo, recém-nascido, havia feito a primeira das quatro cirurgias cardíacas de que precisava para reparar seu coração. Quatro. Sua mãe era pobre, morava longe e tinha outros filhos, por isso o visitava bem rapidinho todos os dias — mas sem falta o visitava. Miguel Arcanjo, que não tinha síndrome de Down e mal chegara ao mundo, já sofria mais do que muitos de nós ao longo de nossas vidas inteiras.

Curioso: cardiopatias congênitas são muito comuns em bebês com SD, mas naquele hospital, durante aquele período, a Maria era a única bebê com a síndrome. Todas as outras crianças tinham os cromossomos perfeitamente no lugar e coraçõezinhos que precisavam de reparos.

Conheci muitos casos. Nunca vou esquecer da menininha que nascera com apenas metade do coração, e que aos seis anos também se preparava para sua quarta — e última! — cirurgia. A mãe, orgulhosa por tantas vitórias passadas e pela derradeira vitória, iminente, me contou da saga para encontrar um médico que não desenganasse a criança. Desde o ventre, ambas lutaram. E agora menina estava ali, a um passo da plena saúde.

E, o mais dramático de todos, o caso da menininha na sala de espera da clínica de cardiologia pediátrica. Fizemos os exames pré-operatórios da Maria numa das melhores clínicas de São Paulo. Um dia, havia uma princesinha: cabelos dourados, olhos azuis. Perfeita. Estava com a babá, que contou para toda a rodinha de pessoas da sala de espera sobre como fora ela, a babá, quem primeiro notara os sintomas da cardiopatia da menina; fora ela, a babá, quem correra para o hospital com a criança roxa, e fora ela, a babá, quem dormira abraçada com a menina durante sua primeira internação. A menina, filha de dois médicos (POIS É), estava ali, em sua consulta pré-operatória, com a babá. E quem a via, com seus seis ou sete aninhos, sentada no colo da cuidadora, enquanto os dramas de sua vida eram narrados numa sala de espera — a própria cena atestava a veracidade de tudo o que a babá estava contando.

Eis um tipo de sofrimento que pré-natal nenhum é capaz de antever. Sem síndrome de Down. Com uma cardiopatia semelhante à da minha filha. Sem mãe.

Quem sofre mais?
 
É tentador perguntar isso, mas na verdade é uma pergunta absurda. Sofrimento e felicidade não são coisas quantificáveis. Não são coisas. Não se podem ver a olho nu. Não se podem aumentar ou diminuir mediante políticas eugenistas ou engenharias sociais.
 
Talvez a menininha da sala de espera encontre a felicidade a despeito das ausências de sua vida. Quem sou eu para saber?

Pessoas com Down são infelizes, é melhor nem nascerem. Pessoas com microcefalia são infelizes, é melhor nem nascerem. Pessoas nascidas de relacionamentos passageiros serão infelizes, é melhor nem nascerem. Não vou poder dar do bom e do melhor a esse filho que carrego no ventre, é melhor ele nem nascer.

Convenhamos: sofrimento “do filho”, uma ova; as pessoas têm medo é do seu próprio sofrimento, do pé no saco que é ser pai ou mãe daquela criança “doente”. Richard Dawkins não quer poupar a vida de pessoas potencialmente infelizes, quer, sim, livrar-se da inconveniência de cruzar com elas na rua. O mundo bom é habitado exclusivamente por pessoas saudáveis, fortes, desejadas, planejadas, calculadas — um mundo que não existe, nem jamais existirá, pois significaria a anulação da vida.

Ou seja, a moralidade que tem por base o desejo de anulação do sofrimento, se levada às últimas consequências, torna-se assassina ou mesmo genocida, e seu propósito é inalcançável, pois 1) nenhum indivíduo ou grupo de indivíduos é capaz de determinar quais as fontes de “sofrimento” que, se eliminadas, levam à plena “felicidade”; essa é uma utopia de raiz antiquíssima, fruto de um reducionismo estúpido e antinatural; e 2) a vida é sempre mais. Vai ter doença, sim; vai ter dificuldade, sim; vai ter deformidade, sim; vai ter catástrofe natural, sim; vai ter linha torta pela qual Deus escrever certo, sim; e não interessa a sua opinião sobre o assunto, nem a minha, nem a do Dawkins: não é nossa a última palavra.

Quem fala por último é o Miguel Arcanjo, lá em meio aos tubos daquela UTI, e sua mãe que irradiava uma tranquilidade imprevista. Enquanto nascerem Migueis Arcanjos, não desaprenderemos a viver.