Quem quer ser prostituta?

Vender o corpo para ser explorado por desconhecidos: quem quer?

Há tempos temos visto grupos de esquerda e feministas priorizando a escolha individual como pauta, acima de qualquer outra. A quebra do sistema opressor deixou de ser objetivo, para dar lugar à libertação dos indivíduos dentro do sistema, como se houvesse tal coisa. Segundo tais pensamentos, a mulher tem o direito de prostituir-se (e o homem, direito de pagar pelo usufruto do corpo alheio, como se bem disponível fosse).

Agora, fica a pergunta: quem quer ser prostituta?

Eu, certamente, não quero. E nenhuma mulher que eu conheço.

Uma das bases do feminismo é o questionamento das normas sociais e a quebra desses padrões, para fins de libertação feminina. Questiona-se tudo, menos a prostituição, pois, aparentemente, é a profissão mais antiga do mundo, então não podemos questioná-la e reconhecer a opressão existente nela.

O feminismo questiona os papeis de gênero, questiona as normas dos relacionamentos, o comportamento da mulher, o casamento, a maternidade, gosto pessoal e, no entanto, deixa de questionar a escolha de uma mulher que se prostitui. Isso nas raras vezes em que há escolha.

A questão não é acerca das mulheres que se prostituem, mas perguntar-se honestamente quem, livre e espontaneamente, tendo tido acesso à educação e oportunidades, acesso básico à saúde e moradia: quantas mulheres nessa situação querem — têm vontade, desejam — se prostituir?

É evidente que as mulheres não caem na prostituição por escolha, mas por desespero, por necessidade.

Acreditar que pessoas têm direito de vender seus corpos é como afirmar que temos direito a estar em situação de rua, que temos direito a viver em miserabilidade. É ilógico um movimento social que, em vez de atuar para tirar as pessoas da situação de risco, luta para regularizar o risco.

Por que manter mulheres em situação de risco?

Não podemos continuar achando normal que mulheres sejam exploradas sexualmente, deixando-as expostas aos seus clientes/algozes, sob o crivo pós-moderno da liberdade sexual — dos homens — numa sociedade em que as mulheres não são livres.

E já que tem tanta gente deixando de questionar, em nome da liberdade, eu o faço:

Consentimento em troca de dinheiro (no melhor dos casos): quem quer?

Deixar estranhos tocarem seu corpo: quem quer?

Transar com quem não se tem vontade: quem quer?

Transar quando não se tem vontade: quem quer?

A venda de corpos para satisfação sexual alheia é a venda da dignidade da pessoa humana. E a dignidade da pessoa humana não é direito disponível.

Nossos corpos são nossos. Não podemos dispor do único bem que nos mantém vivos.

Nossos corpos não são bens disponíveis.