Precisamos falar sobre a síndrome de heroísmo no mundo coorporativo

Nossa vontade de salvar o mundo e revolucionar processos está prejudicando as empresas — e a nossa saúde

foto retirada do Google imagens, não me processe.

Você provavelmente já deve ter se deparado com situações que eu venho chamando de “síndrome de heroísmo”. Indo além, digo que são altas as chances de você ter protagonizado uns atos se achando o novo super herói da Marvel, obviamente não com aquelas fantasias ridículas, mas certamente com o sentimento de que estava fazendo realmente algo de positivo para melhorar o mundo.

Viver em mundo digital, tecnológico e globalizado certamente tem lá suas vantagens, todavia a midiatização das informações nos faz sofrer ao saber da dona de casa que foi assassinada pelo marido no bairro vizinho ao nosso, ao mesmo tempo em que a foto de um menino sírio morto numa praia da Turquia dói profundamente em nós. As informações em tempo real e globalizadas nos fazem sofrer não apenas pelas nossas mazelas, mas pelas dores dos outros, pelas dores do mundo.

Talvez esse seja o ponto de partida para a criação do sentimento que todos nós temos em menor ou maior medida de querer mudar o mundo, melhorar, evoluir. Converse com seus familiares e amigos, aborde um desconhecido na rua. Todos vão dizer que querem melhorar o mundo em que vivemos, que querem deixar algo melhor para nossas crianças que estão aqui e as que estão por vir e, provavelmente, todos te dirão que estão dispostos a correr riscos pra isso.

Eis que este sentimento é o que levamos conosco todos os dias para o ambiente coorporativo e para qualquer trabalho que desenvolvemos. Seja um designer, médico, engenheiro, faxineiro ou contador: todos compartilham da síndrome do heroísmo.

Repare bem, todos nós queremos revolucionar aquele processo, aumentar o lucro, gerar mais empregos, ser reconhecido, ser promovido. Quantos de nós já não criamos um projeto incrível e nos orgulhamos dele como se tivéssemos feito a descoberta de uma doença grave, mas na verdade era só um projeto bacana? Quantos médicos querem descobrir um meio de curar aquele paciente terminal, mas não tem a menor paciência de orientar a senhora a tomar corretamente seus medicamentos, fazer um novo curativo ou explicar cuidadosamente o resultado de seus exames?

Empresas novas, líderes muito jovens, funcionários que estão iniciando a carreira… Todos estão começando suas vidas profissionais de maneira invertida. Sonhando com aquilo que queremos ser estamos atropelando os processos e construindo a cobertura antes de fazer o alicerce. Estamos atropelando processos que são fundamentais para nossa formação.

Caso você esteja no time daqueles que tem autocrítica e queira entender melhor como construir alicerces e, só depois, pesquisar o acabamento da sua cobertura, vai algumas dicas de quem aprendeu na marra, dando murro em ponta de faca, o quanto a gestão de uma empresa e a liderança são processos de aprendizado constantes:

1. Não tente reinventar a roda: A roda está ai desde 3.500 a.C., e vai muito bem, obrigada. Não tente inventar uma roda mais oval, mais bonita, mais eficiente ergonomicamente. O foco não tem que estar em reinventar a roda e sim em como usá-la melhor em seu projeto — em como o seu projeto pode fazer o melhor uso possível da roda. Adapte esta metáfora ao seu dia a dia e veja se você não tem tentado reinventar umas rodas por ai.

2. O melhor ensino é o exemplo: Não tente liderar exigindo aquilo que você não faz. Mesmo se você não for um líder oficialmente, sua presença pode impactar o ambiente positivamente, sendo um exemplo aos seus colegas.

3. Entenda os valores da organização: foque nos valores, aprenda, internalize. Depois, veja quais são as metas a serem alcançadas e se faça aquela pergunta básica: como alcançar a meta sem esquecer os valores?

4. Esqueça as firulas: 99% dos termos em inglês, dos ensinamentos rasos dos palestrantes e das teorias dos livros podem ser descartadas na maior parte das rotinas. Foque em fazer o essencial e o faça com primor.

5. Perfeição se alcança com repetição: quando alcançar uma forma boa de executar uma tarefa, não parta para próxima porque esta já está boa o suficiente. Continue fazendo, fazendo de novo e de novo. Isso traz a perfeição, que é aquele momento que você enxerga que não há mais nada que possa fazer para melhorar aquele processo. E se dá conta que sabe fazê-lo de frente pra trás e de trás pra frente com uma mão nas costas, assoviando e chupando cana. É assim que você se torna um especialista.

Quando você for um especialista em absolutamente todos os processos de base é que você vai se dar conta que você revolucionou o funcionamento da organização, que fez um bom trabalho e que está pronto para o próximo passo. A base é o que mais importa, é ela que gira as engrenagens, que faz as coisas andarem e permitem as melhorias futuras.

Saiba como atender o cliente com primor, como funciona aquela planilha, como o preço do produto é calculado, quanto tempo leva para cada parafuso ser apertado, quais as necessidades de seus clientes e a queixa dos fornecedores. Aprenda a redigir um bom e-mail, melhore seu vocabulário, aprenda a dinâmica de trabalhar em equipe. Depois, só depois, dê o próximo passo.

Rompa o ciclo de querer ser o cara foda, o herói que chega para revolucionar os processos, dobrar o lucro da empresa e aumentar o salário da galera. Você não é um super herói, desculpa te dar esta notícia. Provavelmente, você não é o novo Einstein e nem o novo Bill Gates, mas relaxa porque a verdade é nenhum de nós é! O profissional que as empresas estão procurando é aquele que faz a rotina acontecer primorosamente, este sim é um profissional de valor!

Antes de sair pela porta de casa com sede de mudar o mundo, lave a própria louça, arrume sua cama, lave seu banheiro. Comece debaixo, comece pequeno. Os processos pequenos dão aprendizados enormes e são a base do seu crescimento. Se você moldar toda sua carreira com uma base ruim, mal construída e planejada, uma hora ela vai desmoronar. Antes de fazer um MBA e se candidatar àquela vaga sensacional, se certifique que está pronto para o próximo passo. Todos nós queremos chegar à cobertura, sentar confortavelmente sob o sol do fim de tarde e abrir uma bebida, mas sua base está sólida o suficiente para suportar o peso da cobertura que você quer construir?

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