Fotografia autoral. 2020.

Nasci em noventa e um, junto com ela
mas, naquela cabecinha recém-chegada ao mundo,
eu ainda era quase imperceptível.

Dei as caras mesmo, alguns meses depois:
pretinho, regularmente adornado com enfeites
diversos.

Eu sempre fui espaçoso, sabe?!
Gosto de me mostrar,
volumoso.

Com dez anos,
sofri a primeira agressão.
Ela ouvia piadas na escola e,
a culpa era minha, né?!
Então,
fui “relaxado”.

Naquele momento,
ela estava mais sorridente.
Me lançava ao vento,
me tocava,
me exibia.

Na adolescência,
me elogiavam tanto.
Para o resultado final,
ela investia duas horas sentada,
enquanto eu era esticado,
esquentado,
alisado.

Foi mesmo em…


Foto autoral (Lorena Ribeiro). Outubro de 2019.

É meio de outubro
Cores tomam as ruas de Belém.
Flores, fitas
Uma multidão movida à fé.

Ela está lá, quase invisível
imersa em sentimentos.

Do alto, posso vê-la
em meio à procissão.

A lente capta o momento
E sinto dessa mulher, emoção crua.

Olhos marejados, que logo inundam
Gratidão pela graça alcançada.

Na mão, um boneco de cera
Seguro, valioso
A devoção a conduz
Firme, em seu caminhar.

Com o olhar fixo em minha direção,
não me enxerga.

Mas, sua adoração me arrebata
e já compartilho a agonia
fervor e alegria por estar(mos) aqui
após longa espera.

Eternizo o instante num click.
E queria guardar seu nome.


Fotografia autoral (Lorena Ribeiro, julho de 2019, Lisboa)

Te busquei em diversos lugares
em cada um,
descobri algo sobre você.
Embora,
desencontradas.

Aos sete anos, te procurei em filmes, novelas, desenhos…
nada!

Nos esbarrávamos nos relatos em seu diário que,
após violado,
foi deixado de lado.

Desarranjo.

Aos quatorze, caçava em revistas uma identificação. Nada!
Nessa época, senti a sua angústia,
o medo de nunca se encaixar, de não ser a escolhida,
de estar sempre à margem.
A vergonha do cabelo cheio,
mantido estirado,
a custa de horas de trabalho árduo.

Duas décadas levei
para ter um pequeno vislumbre,
pra visualizar um indício de você.

Uma venda tecida…


Fotografia de Lorena Ribeiro, em junho de 2019.

Metáfora, garota alegre, sempre levou a vida sem rodeios. Tinha como sonho, desde a sua metonímia, encontrar alguém a quem pudesse remocar. Passou a adolescência escrevendo poemas e cartas a palíndromos imaginários, acreditando que um dia esses textos encontrariam a sua zeugma. Aos vinte e poucos bíbolos, Metáfora conheceu o Anacoluto. Rapaz romântico, cheio de solecismo. Ela acreditou, enfim, que tinha encontrado a sua fronha. Mas o que a garota não sabia é que a assonância do amor é muito mais babosa do que se pode imaginar. Prosopopeia, sua amica de metonímia, reapareceu depois de bíbolos distante. E depois de…


Fotografia de Lorena Ribeiro, registrada em julho de 2019.

Ela vem, sorrateira
me rouba o ar
arranca lágrimas
concede angústias.

Conheço-a bem.

Deixei que me tomasse
os primeiros dias
isoladas.

Contudo,

Desatei em palavras
escritas
gritadas.

Expeli seu fel
em respirações ritmadas
conscientes
constantes.

E enfim,
escondeu-se de mim.

Por Lorena Ribeiro.

Esse texto foi publicado no projeto [poemas de auto cuidado e sobrevivência], no perfil Literatura Negra Feminina, no Instagram, em 22 de junho de 2020.


Poesia, pra mim
é cheirinho de café recém-coado
ligação de voinha no meio da tarde
só para saber como estou.

É beijo no nariz
cheiro de alho no azeite quente
o frescor de terra molhada
melodia de mar
fragrância de livro novo.

Poesia
pra mim
é acordar contigo
todo dia.

À noite,
puxar a coberta, sorrateiramente.
E rir dos protestos contra meu grude,
em dias de calor.

Poesia é beleza oculta,
detalhes.

A minha vida é poesia(r).

Lorena Ribeiro.
11.12.2019


Autorretrato, outubro de 2019.

Carta para mim

Oi, Lorena. Tudo bem?

É, sei que não. Mas, te peço para ter calma! Tranquilidade, para digerir o que estou prestes a te revelar e principalmente, paciência e cuidado consigo e com o que você pede em suas orações. Rezar todas as noites para não acordar no dia seguinte não é saudável, não te faz bem ou te tranquiliza, de verdade.

Como eu seu disso? Eu sou você no futuro! 2019, para ser precisa. Pois é! Graças a Deus, os seus pedidos para não mais existir não foram atendidos.

Então, querida, eu quero te dizer que você é linda, e…

Lorena Ribeiro

Professora, escritora e idealizadora do @passosentrelinhas. Publico na Revista Mormaço. Saiba mais sobre meus trabalhos: http://eulorenaribeiro.com

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