Os Defensores — 1ª Temporada
Mesmo com os problemas já existentes de roteiro e ação, o primeiro crossover do heróis urbanos da Marvel acerta na essência, a interação dos heróis

Em 2013, a Marvel anunciou que havia firmado uma parceria com a Netflix para produzir quatro séries, Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro e no final esses quatro heróis iriam se juntar na minissérie Os Defensores. Foi um caminho de dois anos desde que Demolidor estreou em 2015, com uma nova abordagem ao trabalhar séries de heróis com uma brutalidade inédita no gênero; Jessica Jones com um clima noir e um thriller psicológico; Luke Cage com o estilo das ruas e embalado por músicas sensacionais; e Punho de Ferro com uma ausência de personalidade, mas para o bem ou para o mal, introduziu o último defensor!
Com certeza os problemas narrativos, de atuação, de ação em Punho de Ferro e a ausência dos elementos visuais e místicos correspondentes ao herói, acabaram por ser um balde de água fria na grande espera pelos Defensores, principalmente por Luke Cage também já aparentar problemas de ritmo na condução da sua temporada. O lançamento do crossover acabou sendo mais um alívio do que uma espera recompensada, mas afinal de contas Os Defensores vale a espera?
Ao lado de Collen Wing, Danny Rand está caçando as facções do Tentáculo ao redor do mundo e ao encontrar uma figura misteriosa, ele fica ciente de que o núcleo principal do grupo criminoso era em Nova York; em Hell’s Kitchen, Jessica Jones esbarra em mais um caso misterioso sobre um arquiteto que desapareceu e poderia estar envolvido em algo maior; Luke Cage finalmente sai da prisão e querendo voltar a cuidar das ruas e do povo do Harlem, o “Power Man” acaba encontrando uma nova figura criminosa, o “Chapéu Branco”, que contrata os garotos do bairro para limpar o trabalho sujo; após revelar a Karen Page sua identidade de Demolidor, Matt Murdock abandona a vida de herói do bairro e ainda em luto pela morte de Elektra, foca completamente na sua carreira de advogado, mas após um terremoto nas ruas de Nova York, causado pelo Tentáculo, o Demônio de Hell’s Kitchen estará mais perto de voltar a ativa e dessa vez com companhia. Contudo o que Matt não espera é que Alexandra, cabeça do Tentáculo, tem a arma definitiva, o Céu Negro, a Elektra!
De cara Os Defensores acerta mais que as outras séries ao diminuir o número de episódios de treze para oito. O ritmo ficou mais dinâmico, principalmente nos primeiros quatro episódios, na preparação de juntar esses heróis. Mesmo que seja desnecessário demorar mais de um episódio para eles começarem a se encontrar, no início cada um atua no seu universo e a série é feliz na decisão de manter a personalidade de cada série quando os personagens estão sozinhos, principalmente no uso das cores. O Demolidor sempre envolto de tons vermelhos; Jessica Jones tem cores mais frias e azuladas, às vezes beirando ao roxo; Luke Cage com um amarelo muito vivo, e claro, com a presença da música; e até Punho de Ferro, que aqui conseguiu criar, mesmo que pouco, um estilo ambientado em tons esverdeados. Mais interessante ainda é após esses heróis se encontrarem, o restaurante chinês onde eles irão se conhecer melhor, é iluminado em cada canto diferente por uma das cores de cada herói, sendo o grande ponto dessa união!
Essas séries, diferente dos filmes da Marvel, são muito mais sérias e até exageradamente dramáticas e era um receio que no final das contas fosse um encontro sem nenhum pingo de entretenimento. Por mais traumatizados, imaturos, explosivos, mais calados que eles sejam, é por serem exatamente assim que a interação dos personagens foi a melhor coisa de Defensores. A química entre os atores funciona e por cada um ter uma personalidade distinta, por mais séria que possa ser, acaba virando motivo de piada entre os outros, principalmente a Jessica Jones, por ser a menos paciente de todas, acaba por tirar onda com os outros e na maioria das vezes o alvo é o Punho de Ferro, por toda a sua origem mística!
Mesmo quando o grupo está dividido, as interações continuam excelentes. Luke Cage e Danny Rand passam boa parte do tempo juntos e criam uma interação muito interessante e esperada por muitos fãs de quadrinhos que sempre sonharam em ver os Heróis de Aluguel. Mike Colter finalmente parece estar a vontade no papel de Luke Cage, parecendo mais malandro e tirando uma com Danny Rand e Finn Jones, mesmo com seu personagem ainda sendo de um jovem com crise temperamental, junto desses personagens que nos importamos, ele fica bem mais aceitável! Da mesma forma quando Jessica Jones e Matt Murdock estão juntos, seus diálogos são mais profundos em relação ao drama de ambos. Mas qualquer que seja a formação das duplas, trio ou o conjunto funcionou e era a essência para que essa série caminhasse até o fim em um caminho fértil!
Os problemas maiores de Os Defensores começam a ficar mais visíveis a partir da segunda metade, quando a formação dos heróis já aconteceu e agora eles precisam lidar com a ameaça do Tentáculo. O Punho de Ferro está caçando o grupo e já vimos eles na série do herói e em Demolidor, mas eles nunca pareceram tão vulneráveis quanto aqui. Em vários momentos você se pergunta onde está a infinidade de ninjas que apareceram anteriormente para enfrentar esses heróis e destruir a cidade como o objetivo principal do Tentáculo?! Ao invés disso, eles vão construindo a personagem da Sigourney Wheaver e a atriz conseguiu encarar bem o papel pela presença natural dela, mas novamente, pela terceira vez consecutiva nessas séries da Marvel e Netflix, eles utilizam do mesmo artifício para que o que se esperava ser a grande vilã da série em sua construção, nunca atinja o seu auge. Ao invés disso, a grande ameaça está totalmente concentrada na figura da Elektra.
Diferente da segunda temporada de Demolidor, a Elektra está muito mais fiel a personagem que conhecemos nos quadrinhos, e o seu visual também. Muito mais calada e apenas uma ninja assassina, pareceu um trabalho muito mais fácil para a completamente limitada Élodie Yung, que não conseguiu transparecer nenhum carisma para a personagem anteriormente. A construção dela aqui é muito condizente com a jornada dela de se descobrir e conseguir juntar em uma só a personalidade de Elektra Natchios e do Céu Negro e assim definir seus próprios objetivos dentro das intenções do Tentáculo!
Mesmo com um ritmo bom dentro de oito episódios, a série ainda se prende em momentos muito desnecessários. Da mesma forma que nas séries individuais, há muitos momentos apenas dos personagens discutindo os mesmos fatos que sempre são discutidos e nesse ponto entram os coadjuvantes das outras séries para fortalecer o mesmo discurso e o roteiro teve a solução mais simples e boba de colocá-los todos juntos, como se fossem a turma da detenção, para que cada um ficasse no seu clubinho. Se pelo menos isso viesse a ser uma forma daqueles personagens interagirem e posteriormente crescerem, o roteiro cria diálogos expositivos apenas para que os coadjuvantes fiquem enaltecendo o quão incrível o personagem da sua própria série é. Nós já sabemos disso! Estamos vendo eles em tela!
Pra piorar, uma coadjuvante que apareceu em todas as séries, em algumas de forma mais forçada que em outras, foi a Claire Temple. Era para ela, na teoria, ter sido o fio condutor para o encontro desses heróis, mas só não foi como também foi esquecida dentro da série e jogada na salinha do castigo com os outros!
A série também vive repetindo momentos entre os defensores em que cada um dúvida de um fato do universo do outro. É o Demolidor ser cego, a Jessica Jones com sua força, o Luke Cage a prova de balas e o Punho de Ferro com o seu chi. Nos primeiros episódios, enquanto eles estão se conhecendo é mais compreensível até para tornar o momento divertido, mas quando a série já está avançando e eles interrompem os acontecimentos para ficarem duvidando se aquela coisa fantástica é real, começa a ficar irritante. Ainda mais se pararmos para analisar que mesmo que eles nunca façam um crossover, esse universo das séries é o mesmo que o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). Com Vingadores, Thor, Hulk e eles já foram citados nas séries. Então a ambientação das séries pode ser realista, mas ficar o tempo todo enaltecendo o “impossível” de um universo de quadrinhos e não abraçar esse lado, parece muita vergonha do material que eles tem em mãos. Isso fica visualmente destacado quando de quatro heróis, apenas um está com uniforme, destoando dos outros. Quando na verdade deveria haver um equilíbrio!
Além dos problemas de roteiros e muitos já estavam presentes anteriormente, algo muito importante numa série de herói continua sendo problemático aqui. São as cenas de ação! Na primeira temporada de Demolidor e até no início da segunda, a série prezava por uma violência mais brutal, com menos coreografias e mais socos, mas mais do que isso, as sequências eram bem dirigidas. Quando entraram os ninjas, deram mais enfoque a coreografia de artes marciais e acrobacias e pro personagem funcionou muito bem; Jessica Jones não sabe lutar e Luke Cage é invulnerável o que limitava a ação de ambas as séries, mas mesmo assim com uma boa direção daria para fazer sequências mais empolgantes que não aconteceram; já Punho de Ferro sofreu de uma direção fraca de sequências de ação e uma coreografia mais pobre ainda!
Em Os Defensores a ação sobe de nível comparado à Punho de Ferro, até porque agora temos quatro personagens em tela, mas ainda assim a direção não acertou. Continuam sendo planos muito fechados, muitas sequências em locações escuras, cortes brutos de um movimento ao outro e sempre a repetição de um mesmo movimento. No final das contas a cena mais “memorável”, o que não quer dizer que seja excelente, é a nonagésima cena de luta no corredor (que já estava no trailer) e parece ter virado uma piada interna dentro dessas produções!
Em um balanço geral, Os Defensores não é a série que muitos esperavam quando foi anunciada em 2013! Entretanto nesse caminho desde a primeira temporada de Demolidor, a ambientação apresentada aqui, é totalmente plausível ao que foi construído entre as quatro séries. Claro que dessa maneira levantou problemas existentes, como um roteiro problemático na condução da narrativa, um vilão novamente desperdiçado, o problema nas sequências de ação etc. Mas no final das contas, o primeiro crossover dos heróis urbanos da Marvel acerta na essência de todo crossover, a interação entre os quatro heróis! Que a Marvel e Netflix agora observem bem e tirem de lição o que funcionou muito bem nesse primeiro arco do universo “televisivo” deles e descartem o que deu errado e sigam em frente com essas histórias, pois as sementes plantadas pro futuro de cada personagem, podem render bons frutos!
