Sense8 – 2ª Temporada

Lorenzo Piovan
Aug 24, 2017 · 6 min read

Distanciamento da trama principal com a trama individual dos personagens, prejudicam a narrativa do segundo ano de Sense8

Muitos já não acreditavam mais nas irmãs Wachowski. Desde o primeiro Matrix elas não conseguiam repetir o mesmo feito ou alcançar um mesmo patamar de qualidade daquele que foi responsável pelo sucesso das diretoras. Muitos longas com visuais estupendos, mas com uma certa complexidade desnecessária na trama, que analisada friamente, não havia tanta complexidade e ás vezes mostravam-se infantis. Eis que Sense8 surgiu em 2015 e foi o retorno triunfal das irmãs. Uma ficção científica onde oito pessoas estão conectadas mentalmente e podem ver, pensar, “atuar” no lugar dela e principalmente sentir o que os outros estão sentindo. A série foi um sucesso de público, principalmente entre aqueles considerados na nossa sociedade como “minorias”, por serem tão bem representados e a série carregar uma mensagem social muito forte. Eu diria até mais forte que a própria trama da série. Quase dois anos se passaram esperando a segunda temporada e depois de um gostinho do especial de natal apresentado no final de 2016, eles estão de volta!

Após a sua homossexualidade ser divulgada, Lito, junto com Hernando e Daniela, enfrenta as consequências dessa decisão, que podem prejudicar de vez com a sua carreira de ator; cada vez mais vulnerável na cadeia, Sun precisa dar um jeito de sair de lá o mais rápido possível para que possa se vingar de seu irmão; a popularidade de Capheus aumenta entre os cidadães e isso pode levá-lo à uma carreira inesperada na política; Kala vive o conflito de estar casada com Rajan, o homem que ela não ama, enquanto cada vez mais fortalece sua conexão com Wolfgang, que terá que lidar com mais de uma mulher na sua vida no momento que Lila aparece para provocá-lo; Nomi continua foragida e junto com sua namorada Amanita e seu amigo Bug, usará do seu conhecimento para ajudar Will e Riley, que não só estão fugindo de Sussurros, mas também querem caçá-lo e descobrir mais sobre a corporação OPB, que quer acabar com todos os “sensates”!

Como dito anteriormente, as irmãs Wachowski têm um histórico de filmes com um belíssimo visual e em Sense8 não é diferente. O cuidado técnico que ambas tomaram com essa série é de tirar o chapéu. Planos abertos, com cores muito frias e quentes em determinadas locações para ambientar melhor onde os personagens estão, dando personalidades diferentes para cada país e o uso acertado da montagem entre um país e outro e principalmente em sequências de ação ou mais frenéticas como de lutas, continuam sendo marca registradas de Lilly e Lana e um dos grandes atrativos de Sense8. A perseguição que acontece no início do episódio 11 é um grande exemplo do cuidado que ambas tem nesse quesito!

O especial de natal de Sense8 acertou perfeitamente em ser quase que um episódio “fanservice”. Sem avançar com a trama, o especial se preocupa com os personagens e seus devidos conflitos emocionais e o quanto eles estão juntos nos momentos difíceis e felizes (rendendo até mais um momento de orgia entre os sensates). Mesmo sendo longo mais do que o necessário, foi certeiro ao focar no que acabou sendo a grande questão que atraiu o público que se encantou e se emocionou. A empatia e o afeto humano existente ali entre os espectadores e os personagens. Infelizmente, o que acontece nessa segunda temporada é a consequência das irmãs Wachowski terem enaltecido na primeira temporada seus personagens e seus conflitos, enquanto descartou quase que totalmente a trama principal. No momento que a trama da série toma o primeiro plano, não só ela não conversa com outros núcleos de personagens, parecendo inserida meio que no desespero, como também acaba prejudicando o lado emocional do espectador com os personagens nos seus momentos mais tocantes!

O mistério envolto no conceito de “sensate” no aspecto ficção científica finalmente é revelado. Em um primeiro momento, a revelação de ser uma evolução da humanidade, os “homo sensorium” faz todo sentido com a premissa de conexão da série, junto com a questão de empatia social trazida pelos personagens e como os seres humanos, temendo essa “minoria”, iria querer exterminá-los. Sendo que aqui ainda há uma expansão de “sensates” e que já são vários espalhados pelo mundo. É como a ideia dos X-Men, de serem odiados pela sociedade e como os Mutantes são uma metáfora ao preconceito racial, sexual, religioso etc. No entanto, o atraso nessa informação tão relevante para a série distanciou a fusão narrativa entre ficção científica com o apelo social que ali estava implícito, pois as subtramas com apelo social dos personagens já haviam tomado o primeiro plano na temporada anterior e o coração dos fãs também!

Alguns dos protagonistas são totalmente deixados de lado nessa temporada, com uma trama totalmente individual e que alguns casos — Capheus e Kala — prejudicam o ritmo da trama principal, como os momentos emocionais vão ficando cada vez mais batidos. Antes tínhamos momentos claros de reflexão dentro dos episódios, sobre preconceito, intolerância, ódio, que tornava a identificação emocional muito forte. Nessa temporada, até o sétimo episódio, o roteiro usa o mesmo artifício todas as vezes para tentar trazer de volta essa ligação dos personagens com o público! O único caso em que uma trama separada é bem executada e não prejudica a trama principal é a trama do Lito. Não só dos personagens é a mais envolvente, como a única que permanece emocionalmente conectada com o público. Trazendo ainda o momento mais tocante dessa temporada que se passa na Parada LGBT, que foi filmada em São Paulo. A outra que consegue da melhor forma possível juntar a sua narrativa com a trama principal de forma orgânica é a Nomi, que continua tendo uma excelente química cômica e romântica com Amanita!

Pelos protagonistas serem pessoas com algum conflito em suas vidas, seja social, racial, sexual, familiar, eles sempre estão sofrendo, pra baixo, ou passando por algum momento difícil. O roteiro então usa o artifício de inserir um dos “sensates” para que eles dialoguem e a situação volte a ficar boa e termos uma cena com todos os “sensates” juntos confraternizando. No início esses momentos são tocantes, mas a temporada repete eles, ás vezes em mais do que um episódio, e os diálogos ficam cada vez mais expositivos e a mensagem cada vez mais piegas. O momento coletivo, que antes era emocional, agora carinhosamente nomeei de “momento Teletubbies”. Caso vocês não lembram, os Teletubbies viviam se abraçando sem significado nenhum e aí eles repetiam “de novo de novo” e novamente um abraço. Quanto mais você repete um mesmo recurso querendo de alguma maneira passar a sua mensagem, o próximo caminho é aos poucos o seu significado ir perdendo a força, já que o impacto não foi fortalecido. Ao se repetir para tentar socialmente se identificar com todo mundo, a série passa a se identificar com ninguém. Os momentos de conexão emocional, trunfo da primeira temporada, ficam batidos!

Mesmo Sense8 sendo o retorno das irmãs Wachowski (no caso da segunda temporada apenas Lana), o grande problema delas continua sendo o mesmo. O roteiro. Ele é inconsistente ao querer balancear vários focos narrativos, um que não liga com o outro, alguns elementos que estão muito para frente da temporada, quando já devia ter sido resolvido antes — como a relação do Will e do seu pai, que deveria ser emocional, mas o seu pai não aparecia desde o especial de natal, então eles usam e abusam de flashbacks para tocar o espectador — e em outros casos como a Sun, por exemplo, que tem mais de vinte minutos de uma cena de luta que não avança em nada e depois toda a resolução do seu arco toma boa parte do último episódio da temporada, enquanto Wolfgang, que tem em sua narrativa a misteriosa “sensate” Lila, aparecendo desde o terceiro episódio, deixam para os últimos vinte minutos de série para resolverem e ainda deixarem um gancho para a próxima temporada, que acaba da forma mais atropelada possível, ligando todos os personagens, independente daquele mais distante da trama principal. Tudo para que no final Sense8 se resuma em uma futura luta contra uma corporação que renderá excelentes sequências de ação, quando tivermos centenas de “sensates” lutando um no lugar do outro!

Por mais que possa parecer um texto muito negativo, a segunda temporada de Sense8 é visualmente e tecnicamente excepcional, do oitavo episódio em diante ela dá uma melhorada muito considerável e uma divisão narrativa bem mais equilibrada. Os personagens continuam envolventes, temos, por mais que poucos, ótimos momentos tocantes, mesmo com o lado emocional da mensagem social sendo aqui prejudicada. Agora eles “consertaram” a questão principal da primeira temporada, torcemos para que a próxima consiga botar em prática a ideia real sobre o conceito de “sensate” revelada aqui e que os momentos e ligações afetivas entre o público e o grupo sejam reestruturadas a partir daí de forma mais simples e até objetiva. Pelo menos tudo isso é o que o episódio final deixa aparente!

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