DE PASSAGEM PELA RUA

“Não somos moradores de rua, só estamos na rua. Isso aqui é de passagem”

por Lorraine Paixão e Luiza Marcondes | foto: Rafaela Laiola*

Dentro do Transcol vazio voltamos para casa com o peito inquieto e a sensação de que vimos o que não devweria ser visto. Humanos negligenciados habitam as marquises das grandes cidades. Eles são os sem teto, os sem rosto, os sem história. São pessoas que se encontram temporariamente e por motivos particulares na rua. São aqueles que a cidade finge não ver. Estão ali, diante dos olhos de todos: sob marquises e pontes, com mochilas, cobertores e colchonetes, mas não são vistos. Estão no entre. No vai e vem da cidade. Estão no meio. Sem casa e sem família só lhes restam as ruas. Nos aproximamos, eram três: Jorge, Josias e a cadela Branquinha, atropelada há pouco.

“Boa noite.”

Os três pares de olhos negros nos fitaram desconfiados. Nos apresentamos como estudantes de jornalismo e sentamos juntas a eles no chão, em suas residências passageiras. “Vocês podem entrevistar, mas primeiro vou entrevistar vocês”, disse Jorge com olhar firme e constante sorriso no rosto. Ele sabia o roteiro de cor de uma entrevista, então deixamos que fosse o entrevistador. Nós recebemos dele o apelido carinhoso de “repórter por um dia”.

Jorge, constantemente, nos perguntava o que daríamos a eles como retorno: “O que a gente vai ganhar com isso? O que eu ganho com vocês sugando minha história?”, nos mostrando o quanto somos impotentes a um problema social, que mesmo quando estampa as capas dos jornais reforça a marginalidade. Os dois são o que o senso comum nomeia como moradores de rua. “Não somos moradores de rua, só estamos na rua. Isso aqui é de passagem”, sentencia Jorge, 45, que está nas ruas há quatro meses: “Eu sou é eletricista mecânico e tô numa situação difícil, numa situação de rua”, completa.

Em 2009 foi instituído o decreto de Política Nacional para a População em Situação de Rua. De acordo com o texto, população em situação de rua, constitui-se como um “grupo populacional heterogêneo que tem em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexiwstência de moradia convencional regular”. Para a psicóloga e mestre em Psicologia Institucional pela UFES, Rafaela Amorim, o termo adequado para se referir a esse grupo de pessoas nessas condições é “população em situação de rua”. “Isso porque literalmente essas pessoas estão numa situação de rua. Elas não escolheram estar nas ruas, elas não são moradoras de rua”, analisa a psicóloga.


Jorge se barbeou e escolheu a melhor camisa para ser fotografado: “a gente é invisível, as pessoas passam e nem olham. As crianças olham, elas ainda reparam”

A história de quem vive no meio

Jorge veio de Teixeira de Freitas, Bahia, em 2011, depois de conflitos familiares. Deixou lá casa, duas filhas e a ex-esposa. Morou por três anos no distrito de Guaraná, Aracruz, norte do Espírito Santo. Lá, exerceu a profissão de eletricista mecânico até que foi demitido após falência da oficina onde trabalhava. Desempregado, foi morar com a irmã e o cunhado na Serra, município da Grande Vitória.

No entanto, Jorge e o cunhado não se deram bem e assim começa a história dele nas ruas, onde o homem deixou de ser cidadão. Nas andanças, perdeu os documentos. “Tô tirando os documentos de novo. Assim que eu tiver eles já vou procurar um emprego pra fichar. Quero sair da rua, mas pra sair mesmo, só com um serviço. Ô menina, coloca aí na matéria: arrumem um serviço pra Jorge porque Jorge já está ficando maluco”, disse com os olhos grandes e o sorriso largo. “Pode colocar aí na matéria: a gente é invisível. As pessoas passam e nem olham. As crianças olham, elas ainda reparam”, o grande motivo de incômodo é também de riso. Eles contam entre risadas do dia, que após uma chuva, a rua ficou cheia de poças e veio vindo um passante, que para não dividir a calçada com os três, preferiu passar ao lado da poça da BR. Para a infelicidade do passante, um ônibus vinha naquele exato momento fazendo com que tomasse um banho e garantisse a diversão da noite.

“Acham que somos todos bandidos, drogados. Mas tem um monte de gente de coração bom tentando sair da rua.”

Josias, 40, é de fala curta. Ao contrário de Jorge, todo extrovertido e brincalhão, é mais calado. Deitado sobre um colchonete cinza e coberto por uma manta lilás e amarela, se adianta dizendo que não dará entrevistas. “Prefiro ouvir as histórias do que contar a minha. Não tenho uma história boa pra contar”, disse ele antes de se calar por mais meia hora durante a conversa. Depois de um tempo, Josias se levantou e entrou na roda compartilhando, por vontade própria, parte da sua história.

Natural de Linhares, norte do estado, saiu de sua cidade natal em 1992 para morar com uma irmã em José de Anchieta, também no município da Serra. “Eu queria arrumar trabalho aqui na cidade, por isso que vim”. Josias ficou com a irmã por pouco tempo, pois logo encontrou uma companheira com quem foi morar. “A gente não deu certo. Eu ainda gosto muito dela, mas preferi sair de casa pra evitar briga sabe?!”, lembra Josias com os olhos brilhando e conta do telefonema que fez a ela nos últimos dias: “o coração ainda dispara”, diz ele, com a mão no peito e o olhar longe. Eles se separaram em 2004. Nesse meio tempo, ele se envolveu com drogas e, em 2011, desempregado, foi para as ruas. “É uma lembrança de que me arrependo e muito, viu? Mas graças a Deus consegui sair desse mundo do vício”. Josias é pedreiro e pintor. E quase todo fim de semana consegue um “bico”. Lembra que é difícil para uma pessoa em situação de rua conseguir um trabalho com carteira assinada: “As pessoas têm muito preconceito com a gente. Acham que somos todos bandidos, drogados. Mas tem um monte de gente aqui que é de coração bom e tá tentando sair da rua. Se tem gente ruim? Tem, mas tem em todo lugar, não é mesmo?”


Nesse tempo de rua, Josias já chegou a alugar casa com o dinheiro que junta do seu ofício, porém ele diz que não sabe conviver bem com a solidão e isso fez com que voltasse para a rua, onde sempre tem companhia. Josias é um exemplo de como a dinâmica das ruas faz com que as pessoas estabeleçam novos laços afetivos e construam com “estranhos” uma rede familiar, como analisa a psicóloga Rafaela Amorim. “Algumas pessoas preferem ficar sozinhas, há outras que preferem ficar em grupos. As relações afetivas, os vínculos de amizade e amorosos, a ajuda mútua para a sobrevivência e a proteção entre si cooperam para a formação familiar”, aponta ela.

“Eu queria arrumar trabalho aqui na cidade, por isso que vim”

Jorge e Josias, nesse tempo juntos formaram uma pequena família. No seu atual “bico” como pedreiro, Josias está construindo uma casa, por ironia do destino, em José de Anchieta, na Serra. Ele conta que pretende juntar um dinheiro para alugar uma casa para ele e o amigo Jorge. “Tô fazendo esse bico aí pra alugar um barraco pra mim e esse doido”.

Os dois passam o dia no Centro Pop da Serra — Centro Especializado para População em Situação de Rua — onde se alimentam e tomam banho; e à noite dormem sob a marquise de uma loja de material de construção na BR 101 norte km 03, próximo ao viaduto que liga os municípios de Serra e Cariacica. Na Grande Vitória há uma média de 600 pessoas em situação de rua, de acordo com as próprias prefeituras, e apenas três Centro Pop: um em Vila Velha, Vitória e um na Serra.

“Acham que estamos assim porque a gente quer. Não é verdade. Quem quer dormir assim no relento?”

O Centro Pop é uma instituição mantida pela Prefeitura Municipal da Serra vinculada à Secretaria de Assistência Social. Funciona como uma casa de acolhimento diurno, de segunda a sexta de 8h às 17 horas. “É assim, a gente acorda umas 6 horas, porque o dono da lojinha aí onde a gente dorme na calçada abre o comércio 7 horas. Aí, a gente levanta, arruma tudo, varre e lava a calçada, deixa tudo bonitinho e esperamos até às 8 horas pra tomar café lá no Pop”, conta Josias. “Aí, quando dá a noitinha, a gente vem pra cá pra dormir. Aqui é tranquilo. O rapaz aí da loja conhece a gente e disse que podemos ficar. É só deixarmos tudo arrumado. Somos gente de bem”, completa.

Localizado no bairro Rosário de Fátima, na Serra, o Centro Pop atende cerca de 70 pessoas. Lá, as pessoas em situação de rua recebem alimentação — café da manhã, almoço e janta -, higienização, acompanhamento psicossocial e encaminhamento para vagas de emprego. “Mas quem quer contratar morador de rua? Nossa ficha chega na mão do patrão e quando ele vê nosso endereço como Centro Pop, já descarta”, lembra Jorge, que presenciou muitos colegas em situação de rua passarem por isso. Para ele isso acontece porque as pessoas ainda têm muito preconceito com quem está nas ruas. “Acham que estamos assim porque a gente quer. Não é verdade. Quem quer dormir assim no relento? Quem quer passar fome desse jeito? Pode até ter um ou outro que sim, mas não são todos não”, pondera Jorge.


*reportagem produzida para a edição n° 143 da revista Primeira Mão, revista laboratório do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo, em outubro de 2015.


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