Loryel Rocha - IMUB
Dec 3, 2018 · 7 min read

O PORTUGAL DE D. AFONSO HENRIQUES INVENTADO POR OLAVO DE CARVALHO NO "O JARDIM DAS AFLIÇÕES"

O Jardim das Aflições se propõe a falar da idéia de Império, especificamente da Translatio Imperii, dentro da história do ocidente e, neste contexto, insere o autor a “história” de Portugal. Vejamos.

No O Jardim das Aflições”, 3 ed. página 284–285 temos a seguinte afirmação: […]“Em Portugal, Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais e criado um reino da noite para o dia- literalmente, já que, não contando com um exército numeroso, recorria ao expediente de saltar pessoalmente pela janela de seus inimigos, enquanto dormiam, e degolá-los na cama: ao despertarem, os servos e cortesãos eram informados de que o castelo tinha um novo senhor. Assim, de janela em janela e de pescoço em pescoço, nascera o reino de Portugal, segundo comentavam os juristas da época, quasi per latrocinium (não entendo o que queriam dizer com esse quasi)[…]”.

Neste curto trecho encontram-se primorosas bizarrices. Cito-as: 1) “Afonso Henriques havia subjugado os outros senhores feudais” [itálico meu]; 2) “criado um reino da noite para o dia- literalmente”; 3) “não contando com um exército numeroso”; 4) “de janela em janela e de pescoço em pescoço, nascera o reino de Portugal”.

Dadas as 4 afirmações acima, o“filósofo” demonstra ignorar por completo fatos mínimos sobre a história de Portugal, tais como: 1) o território, o funcionamento da antiga Lusitânia e dos seus clãs que antecedem e mantém-se independentes do Império Romano; 2) o papel da organização e administração pública romana mantido pelos suevos, visigodos e muçulmanos; 3) a relação entre as unidades administrativas romanas e a expansão do cristianismo; 4) o modelo de “Europa cristã” que emerge com Carlos Magno e se mantém depois da morte dele; 5) a relação e o acordo entre Carlos Magno e os reinos muçulmanos além Pirinéus; 6) a desorganização administrativa decorrente da Reconquista Ibérica; 7) como funcionava, se constituíram e se fracionariam os reinos de taifas (o Califado) em Huelva, Badajoz, Sevilha, Niebla, Faro, Mértola e Silves, todos eles abrangendo durante muito tempo, o espaço português; 8) o projeto piloto criado pela Ordem de Cluny, de Cister e Ordem do Templo para a Península Ibérica; 9) a história do reino de Leão com seus soberanos adotando o título de “Imperador” impondo sua autoridade suserana a todos os soberanos da Espanha, incluso os muçulmanos. Como “Imperadores” poderiam e deviam ter “Reis” como vassalos. E foi exatamente essa relação entre Reis e Imperador que contribuiu para o nascimento de Portugal, como Estado autônomo. O primeiro conde de Portugal -lato sensu- foi Diogo Fernandes antes de 924); 10) as circunstâncias que D. Afonso Henriques foi reconhecido Rei de Portugal antes de adotar o título de Rei de Portugal; 11) as relações estreitas e íntimas entre a Coroa Portuguesa e a Ordem do Templo na criação de Portugal, na expansão urbanística, na Reconquista da Península Ibérica aos mouros e nos Descobrimentos Marítimos; 12) o modelo de “Europa cristã” que emerge na Península Ibérica e se funde com o modelo anterior de Carlos Magno; 13) o papel central na expansão do cristianismo no mundo com os Descobrimentos Marítimos.; 14) a influência da obra de Joaquim de Fiore em Portugal.

Fig. 1- "O Milagre de Ourique". Domingos Sequeira (1793). "O Milagre de Ourique" representa os momentos antecedentes da Batalha de Ourique e explicitamente a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques que, segundo a tradição, lhe assegurou a vitória na peleja contra os mouros e nas futuras batalhas. "O Milagre de Ourique", que havia sido levado para o Brasil pela família real em 1807, foi redescoberto, em 1986, pelo historiador e crítico de arte José-Augusto França, no Palácio d’Eu, na Alta Normandia.

Para corroborar o afirmado sobre Portugal, o “filósofo” lança mão de autores. De quais? A Bibliografia que consta ao final da obra traz somente 2 autores portugueses Alexandre Herculano ( História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, 3 vols.) e Oliveira Martins (História da Civilização Ibérica; História de Portugal).

Um detalhe não dispiciendo sobre ambos, sobejamente conhecido por qualquer historiador em Portugal, passou desapercebido ao “filósofo” brasileiro. Oliveira Martins é considerado um dos introdutores das idéias socialistas em Portugal e Alexandre Herculano um consabido liberal, maçon, anti-monárquico, anti-clerical, célebre criador da polêmica histórica que nega o Milagre de Ourique, tema central da formação cristã da nacionalidade portuguesa. O “filósofo” foi incapaz, mesmo que de modo breve e superficial, de alertar que quanto a D. Afonso Henriques os historiadores portugueses dividem-se nas interpretações, mas não quanto aos fatos. Uma linha admite o gênio e engenho estratégico de D. Afonso, caso recente de Freitas do Amaral. Alexandre Herculano fala da “perfídia” do monarca, e Oliveira Martins da “brutalidade medíocre” de um “chefe de bandidos”. Os autores que vão “ridicularizar” D. Afonso Henriques são tributários da polêmica sistemática criada e encetada no século XIX por Alexandre Herculano desacreditando da Visão de Ourique e o Juramento de Ourique e, no bojo dessa discussão, estava a campanha liberal-esquerdista que visava descredenciar todos os autores monacais sobretudo a historiografia dos monges do Mosteiro de Alcobaça. Portanto, o recorte do “filósofo” da Virgínia sobre a história da formação da nacionalidade portuguesa é extraído exatamente da ótica de 2 pensadores esquerdistas em campanha para destruir a Igreja, a Monarquia e a tradição historiográfica monástica portuguesa.

O recorte do “filósofo” alienou da discussão que a personalidade cristã do monarca, absorvente e carismática, sob os olhos dos historiadores eclesiásticos, foi não só reconhecida, bem como fortalecida com o passar do tempo.

O recorte do “filósofo” igualmente alienou da discussão que a campanha encetada por Alexandre Herculano e Oliveira Martins originou também um movimento de desagravo igualmente robusto em Portugal. Neste quesito, concerne lembrar Mário Jorge Barroca, Alfredo Pimenta, Costa Brochado, Manuel Gonçalves Cerejeira, a postura conciliatória de António Feliciano de Castilho que havia de argumentar que convinha distinguir “entre tradição” e “documento”. Na defesa do Milagre e do Juramento de Ourique merece ser invocado António Cabreira, Júlio de Matos, general Vitoriano José César, Manuel J. Gandra, José Eduardo Franco… Na defesa da relação Mitologema e Cultura, o filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva e Adolpho Cripa tem obra fundamental, e embora Ferreira seja um dos brasileiros citados na Bibliografia de Carvalho, o “filósofo” ou desconsiderou a relação Mitologema e Cultura feita por Ferreira ou sequer a entendeu.

Alexandre Herculano e Oliveira Martins, embora liberais e de verve ácida, são intelectuais sérios, e trataram D. Afonso Henriques com alguma dignidade e não ousaram subtrair a Portugal seu papel na história da cristandade, salvaguarda honesta presente naqueles que conhecem a história de Portugal.

Na nota de rodapé n. 146 (pág. 271) o autor do O Jardim das Aflições — obra que se propõe a falar da idéia de Império, especificamente da translatio Imperii, dentro da história do ocidente e, neste contexto, inserindo a “história” de Portugal- afirma: “o termo translatio imperii é usado normalmente para designar a transferência do Império de Roma para Bizâncio. Aqui emprego-o em sentido lato, para designar todas as mudanças do eixo do poder imperial do Ocidente”.

No trecho “Aqui emprego-o em sentido lato, para designar todas as mudanças do eixo do poder imperial do Ocidente” transparece o primarismo de nivelar todas as concepções de Império e poder Imperial confundindo-as com a translatio Imperii desaguando na concepção horizontal de poder político, desmembrando-a ou sequer citando, a relação da translatio sapientiae com a translatio studiorum e a translatio Imperii.

Com honestidade crua, o autor assume que está escrevendo e interpretando a história do Ocidente “à sua moda” . De saída, o termo translatio imperii nunca designou de pronto a mera transferência do Império de Roma para Bizâncio. E tal temática caminha paralela a translatio sapientiae e a translatio studiorum, um vasto processo de transferência de saberes e cultivos, de uma época para outra e de um lugar para outro, entre impérios do Oriente e (para) do (o) Ocidente, entre diferentes culturas e religiões, impactando, inclusivamente na própria história da maçonaria. À guisa de exemplo, a translatio studiorum de modo algum reduz-se ao fato de poderoso instrumento da propaganda ocidental cristã de Carlos Magno retomada ao longo dos séculos em vários países ocidentais constituindo uma clássica discussão dos hierocratas durante a última querela medieval entre o Império e o Papado. Em Portugal vide, por exemplo, Fernão Lopes (século XIV-XV), e Rui de Pina (século XV). O autor amplia o caos ao afirmar que os Descobrimentos Marítimos levaram para as conquistas Atlânticas as guerras intestinas da “luta pelo Império” (op. cit., pág. 285). Ao equiparar o significado da expansão da e do Império da Coroa Portuguesa decantada por Camões com a idéia de Império de Carlos Magno ou mesmo da Rainha Vitória da Inglaterra sobressai a categórica confirmação da plena ignorância do autor no que diz respeito a história de Portugal, para quem o termo Império jamais designou algo concreto, material, objeto de conquista dos monarcas, mas sim referente ao Império do culto do Divino Espírito Santo, devoção exclusivamente lusíada extraída da concepção trinitária da teoria das Três Idades do Mundo do abade calabrês Joaquim de Fiore.

Fig. 2- "Três Idades do Mundo". Joaquim de Fiore. Centro Internazionale di Studi Gioachimiti

Como nota da tradição da translatio imperii em Portugal, em 1571, Francisco de Holanda, compõe a obra Da fabrica que falece à cidade de Lisboa, onde propõe a D. Sebastião, em desenho, um conjunto de edificações que, para além de denunciarem a sua sempre reclamada faceta de “arquitecto”, procuravam oferecer a Lisboa um perfil monumental mais consentâneo com a grandeza imperial sonhada para a cidade, bem à imagem de uma nova Roma, quando não mesmo de uma Jerusalém mítica — patenteada na figuração ou personificação alegórica de Lisboa, inspirada em motivos vitruvianos.

Toda essa tradição portuguesa do Quinto Império ou da Terceira Roma ou da Nova Roma deita raízes na fundação da nacionalidade portuguesa, no Milagre de Ourique e no Juramento de Ourique tendo como nó górdio a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques. Tal fato histórico, que é também um fato cultural, legitimou a reinvindicação de que o Reino de Portugal havia sido confiado por Deus a D. Afonso Henriques, um Reino Cristão, por excelência e missionado para expandir a e o Império de Deus sobre a face da Terra.

É contra a assunção do caráter divino da Monarquia Portuguesa, largamente documentada ao longo de séculos, inclusivamente por autores eclesiásticos, que Carvalho toscamente apresenta um D. Afonso Henriques como um malfeitor criando Portugal de “degola em degola”, em suma, um país fundado por assassinos, anti-cristão.

O Jardim das Aflições” de fato é uma “obra prima”. Somente um brasileiro afirmaria desinibidamente que “os ingleses tinham sido o primeiro povo cristão da Europa” e concluiria "mas a Terceira Roma que deu certo foram os EUA".

No que diz respeito a história de Portugal, Olavo de Carvalho não pode sequer ser considerado “errado” pois, nem chegou lá.

    Loryel Rocha - IMUB

    Written by

    Filósofo, pesquisador em Cultura Oral e Simbólica Tradicional Luso-Afro-Brasileira. Presidente do IMUB www.imub.org

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade