Associação livre em torno do trauma do incêndio do Museu Nacional
Há alguns meses, li um texto que começava mencionando uma expedição do século XVIII no rio Jurubatuba, na atual cidade de São Paulo, o que seria algo ali por perto de Santo Amaro, e que era mata fechada na época. O texto comparava essa expedição com uma outra, rio acima no Amazonas, também de época parecida, por Alexandre Rodrigues Ferreira. Eram coisas em que nunca tinha pensado seriamente: imagine uma expedição de mata virgem-virgem, não-mapeada, com um ou outro guia nativo, nessa imensidão sem fim de Brasilzão.
Fiquei impressionado com o que se mostrou vagamente a mim em devaneios, e fui até tomado de algum remorso por ter passado toda adolescência em outros, de Sakura Card Captors, Harry Potter, Senhor dos Anéis ou animes de toda espécie, e de nunca ter pensado em como seria isso no mundo e nas fantasias do meu próprio país, do meu território, do que sempre foi, sob qualquer visão mais realista, o meu lar. Foi com o tempo, num processo de fato estimulado só dentro da FFLCH (“malditos esquerdistas!”), que fui compreendendo aos poucos a importância de me reapropriar da imagem do que eu considerava meu próprio país, de situar-me dentro dele, e de começar a explorá-lo sempre que podia, em viagens, ao longo dos anos, para variados destinos. Embora tenha visitado alguns lugares, sei que há muito para errar e que o Brasil, “país de dimensões continentais”, tem e teve por isso mil mundos paralelos inexplorados pelo brasileiro comum.
Entendo acima por “brasileiro comum” uma caricatura: aquele cara que anda de camiseta da seleção em manifestação pelo impeachment. A pergunta é muito séria: esse cara pode se considerar brasileiro? Eu, que fui próximo de algo como aquilo por tanto de minha história e educação, apesar de resistências e dissonâncias a isso ao longo da vida, e que só vim a valorizá-las depois, gradativamente mais e mais por escolha própria, eu era brasileiro? Sei hoje que não sabia o que era o Brasil. Talvez não saiba ainda. Mas tenho buscado. E não posso deixar de comparar isso com os discursos políticos de gente que quer “salvar o Brasil”. Qual Brasil? Estão falando do território, dos seres vivos, da população, da cultura, dos recursos, do PIB, do Estado, de alguma combinação desses, ou do quê? Pro brasileiro comum, talvez se compreenda só o PIB, ou só o estado de cada um, ou quem sabe só sua família, sua empresa, seu setor comercial, sua casta. Mas — exercício fundante — o que deveria ser a imagem que nós, como população e povo, fazemos pra nós mesmos do que é “Brasil”, e como salvá-lo, construí-lo, recuperá-lo?
Sem dúvida que grande parte de nossos recursos para começar a imaginar uma resposta para isso estava no nosso museu, o museu que era justamente o Museu Nacional. Como vi num outro texto, me parece que um museu é inesgotável naquilo que ele tem de parecido com texto e símbolo, quer dizer, que ele se presta a inúmeras interpretações, reinterpretações, glosas. É possível encarar o mesmo objeto de mil pontos de vista diferentes, de perto e de longe, ao lado de outras coisas ou separado delas, de todos os ângulos. E, como tal, um museu, um acervo de documentos e objetos, se torna um poço inesgotável de material para a construção de uma identidade nacional. Não pelo bem do nacionalismo, pela pátria como desculpa para a guerra, seja contra os outros ou contra os seus. Mas para um posicionamento sobre o mundo, sobre o que somos, o que fomos, e também sobre o que podemos e devemos ser.
“O brasileiro precisa ser estudado”. Ele foi, é, e continuará sendo apesar dos golpes que sofremos e das perdas irreparáveis que sofremos. Mas, justamente, isso pouco importa para a construção da imagem do país se não se olha para este trabalho. O fogo chamou, de forma trágica, a atenção para esses trabalhadores de décadas, em suma para os pesquisadores brasileiros: biólogos, arqueólogos, paleontólogos, etnólogos, linguistas. Os que perderam seu local de trabalho e fontes de pesquisa na mesma tragédia e desde sempre brigam contra a posição subalterna que nossos governantes insistem em colocá-los, e colocar-nos. As pessoas que de alguma forma trabalharam silenciosamente por todo esse tempo em juntar algum material que poderia servir, em sonhos quase utópicos, à possível construção de uma nação-Brasil. E que dedicam esse esforço heroicamente, já que contra todas as adversidades e jamais (ou raramente?) por fama e fortuna, pois se trata de ocupação que não provê nem um nem outro, e se consegue admiração de alguém é normalmente só dos pares que, de alguma forma como defesa, se reconhecem como os que fazem um trabalho inestimável e tão pouco valorizado, de alguma forma parecido para além das divisões disciplinares.
Correu pelas minhas bandas posts que procuravam responsabilizar a própria UFRJ pela miséria em que se encontrava o museu e, como sempre, veio algum especialista em economia ou administração ensinar aos bárbaros como se deve viver a vida e algumas noções básicas de bom-senso, previdência e moralidade. Além da imensa crueldade por parte de centenas de pessoas que literalmente perderam seus projetos de vida no acontecimento — pois uma carreira acadêmica já se dá numa temporalidade raramente compreendida por quem quer fechar o bimestre em superávit, imagine-se então a temporalidade em jogo num museu — um apontamento desse tipo ainda comete a desumanidade de desclassificar toda a produção de uma instituição em função de um desequilíbrio de poder interno a ela. Como se a iniciativa privada tivesse um pouco mais de parcimônia quando entrega seus bilhões aos CEOs e acionistas exatamente para deixar a função da empresa em segundo plano. Como se todas as esferas da vida pública nacional não reproduzissem de novo e de novo a mesma desigualdade e autoritarismo, seja nas repartições públicas, nas administrações governamentais, nas empresas privadas, na academia, ou onde quer que seja. E como se a desigualdade interna à estrutura hierárquica da instituição tirasse o valor do trabalho dos que estão por baixo numa tal estrutura e são responsáveis por tudo o que ela gera — o que também é o caso em todos os tipos de organização mencionados…
Mas o problema é ainda pior, quando uma crítica dessas pretende defender que a “racionalidade” econômica (que quando usada nesse sentido invariavelmente tem um sabor inconfessável profundo de sadismo e crueldade) seria capaz de sustentar um museu que tem valor eminentemente simbólico. Quando todos sabemos que o único símbolo que os caras compreendem é o dinheiro. Quando sabemos que ninguém liga para as funções sociais da educação, da cultura, da saúde porque elas não dão dinheiro e não têm por função dar dinheiro. Ora, concorrer com o valor simbólico do dinheiro, e que só ele se arroga o direito de ter, é impensável para esse tipo de gente, e é por isso que um museu jamais seria viável a não ser com altíssimos preços na entrada e terceirização galopante, o que imediatamente compromete qualquer valor que ele pudesse sonhar em ter como patrimônio cultural comum. É exatamente porque tudo o que existe deve ser primeira e principalmente convertido em dinheiro que não se pode pensar o que esses mesmos objetos significam quando convertidos para qualquer outra coisa qualitativamente diferente: só se é capaz de pensar na platitude unidimensional da quantificação da moeda, contra todos os outros tipos de valorização que a cultura possui e produz, muito a contragosto daqueles mesmos guardiões da racionalidade nacional. É bom lembrar ainda que este tipo de exigência de racionalidade econômica existe desde muito antes do desgoverno do Temer, o que não impede, parece-me, que possamos dividir os governos entre os que resistem com mais ou menos vontade/eficácia a essa tendência e os que a aceleram cegamente.
Ora, mas o Louvre e o Museu de História Natural de NY não são caros, e os brasileiros não pagam pra entrar neles sorrindo? Jogar isso sem qualquer tipo de acréscimo é também falsear a questão, quando não leva em conta que quem tem dinheiro para passear no exterior já teria o luxo de gastar a mais num passeio, que além de tudo essa memória e essas fotos contam como capital cultural se postadas no instagram (seria essa talvez uma outra forma de dar valor aos acontecimentos da vida comum? ou o único possível é ainda o preço do ingresso?), e sobretudo de que a situação geral desses países é de uma população bem mais abastada que pode, estatisticamente, se dar mais ao luxo de pagar tais ingressos, enquanto que o mesmo museu no Brasil teria um valor de caráter mais formativo (num plano histórico, de gerações) para uma população infinitamente mais desigual e muito menos formalmente educada, de modo que ela não seria capaz de sustentá-lo economicamente. Fica como se o ambiente social para além das grades do museu não interferisse nas formas como ele pode funcionar.
Mas tudo isso não seria muito mais que outra forma da nossa tão conhecida “síndrome de vira-lata”, como chamamos por aqui. Porque o Brasil de alguma forma gosta de ser visto como inferior ao Norte, ou é vendido e pintado assim preferencialmente. E talvez isso tenha algo a ver com aquilo que deveríamos imaginar, reformular, transformar sobre nós mesmos. O padrão-Europa-EUA e o fato de que nunca chegamos a esse patamar (nem poderíamos: somos outros, em outro lugar, com outra história, tomando outra função na lógica global) me parece desculpa eterna para oprimir mais e mais os pobres e ditos vagabundos (o que significa “quem não faz o que eu acho importante”), e que se parece muito com as desculpas para justificar uma escravidão: de preguiça, incompetência, burrice… E diante disso não se pode ter nada bom, não é mesmo? Somos inferiores, o que há de fazer? Nossos rios são mais poluídos, nossas tragédias passam batido, nosso povo é meio mole mesmo.
Isso que me faz pensar nos rios da Europa, sempre exaltados, navegáveis, limpos. O Sena em Paris era um esgoto a céu aberto, sempre foi, mas numa época em que a pressão populacional sobre o ambiente era muito menor do que o que há hoje em São Paulo, por exemplo. O mesmo com o Tâmisa em Londres, onde a população morria de cólera como moscas até o século XX. Esses países passaram por processos que duraram séculos, mas nós parecemos não ter o direito de esperar que o tempo corra, e que nós construamos nossos próprios monumentos, nossas próprias conquistas. Por outro lado, já existe tecnologia suficiente para resolver esses problemas de forma mais rápida, mas não temos tanta iniciativa por parte do poder público, nem de pesquisa, nem de execução… Estamos sempre abaixo, mas se pensa pouco no que é a construção dessa imagem. Por que só o Brasil tem essa crise de identidade? É, afinal, só o Brasil? Eu, que às vezes leio sobre algumas brigas teóricas literárias no XVIII, vejo nessa época uma preocupação imensa pelos autores em construírem suas próprias identidades nacionais, da Alemanha, da Inglaterra, da Escócia, da França, da Itália, da Espanha, como nós hoje no Sul. Mas nosso processo só teve o direito de começar um tanto depois do deles, depois de séculos-extra de extermínio e barbárie. Estamos no caminho. Isso leva tempo, e depende de agregar produções de muitas pessoas, de muitas gerações, de muitos lugares, mas também de manter essa memória para que haja alguma noção do caminho percorrido. Estamos sempre com medo de não chegar lá, duvidando de nós mesmos. O Brasil é um país meio adolescente, com pais (papai-EUA, mamãe-Europa) superprotetores que entendem que ele não pode fazer o que quiser porque é irresponsável e incompetente, e usam isso de desculpa para postergar a independência do filho por mais uma década pelo menos. Talvez a mãe queira que ele estude, mas o pai sabe que ele não presta, e por isso o obriga a trabalhar desde cedo sem tempo livre: para poder virar gente.
Essa versão que acabei de dar dos fatos, também caricatural, será ela… verdadeira? Existe verdade em história? Não acho que haja a versão definitiva de nada, em história. Até porque cada época tem seu próprio ponto de vista para tratar de todas as outras, e as próximas cruzam olhares com o que resta das passadas para rever, recontar o tempo todo onde está o que interessa e o que pode ser esquecido. Um eterno jogo do mostra-esconde que pode se tornar definitivo se os próprios objetos se perderem para sempre. Se o objeto perdura, cada nova geração tem o direito de olhá-lo por si e não depender dos relatos do passado para renovar, rever, retocar pontos, e mesmo inverter tudo se assim julgar necessário. O objeto serve como a raiz. Creio que em nosso mundo amplamente digital, perdeu-se a noção desse enraizamento que o objeto concreto tem para a produção das interpretações, o que sem dúvida se reflete em falas grotescas como a do prefeito do RJ, aquele que surfa em ondas de grana obtidas a partir da fama de uma posição que, exatamente, torna a grana o parâmetro de tudo, sobretudo da bênção divina. E como ele não é capaz de pensar em algo que não seja plenamente traduzível em dinheiro, seria fácil reconstruir mesmo o que é insubstituível, a coisa mesma que, muda, testemunha do passado que compartilhamos.
Que não se pense em ingenuidade metafísica pelo meu uso contínuo do contato com o objeto e a presença da coisa mesma, vinda provavelmente da parte de quem já se perdeu no labirinto dos reenvios signos e não é mais capaz de encontrar referência fixa. O trabalho e a importância da história é nos dar essa referência, esse enraizamento nas coisas e nos registros que não permite que os discursos do poder digam o que quiserem, já que têm contas a prestar aos mesmos testemunhos mudos dos documentos, dos monumentos, dos registros, tanto quanto aos testemunhos vivos dos governados. Quando é tudo digital, o enraizamento desaparece, e o próximo incêndio será o fim derradeiro de uma floresta que se permanecesse com raízes profundas renasceria quantas vezes fosse preciso.
É preciso a nós, seres cada vez mais digitais (desincorporados), reaprendermos a importância desse enraizamento (no corpo) e nos preocuparmos com ele. A urgência que eu percebia de reencontrar o tato deixa tanto mais desesperador ver a quantidade de gente incapaz de compreender qual a importância do museu, não só porque ele não se converte em superávit, mas sobretudo por não compreender esse jogo da construção (simbólica) de si mesmo, dos próprios projetos, dos próprios desejos, e como eles se fazem em face e em jogo com as pessoas com quem convivemos, com nossas memórias, com as histórias que contamos para nós mesmos. Incêndio que varre os registros é coisa que acontece: a flecha do tempo, a erosão contínua da entropia física. É para isso que serve a história, como memória encarnada. O fogo virá em tantos níveis simbólicos e concretos, de novo e de novo, e contra ele só se pode responder deitando raízes mais profundas. Como sugeriu Graeber, toda escravidão começa com uma descontextualização.
Mas esse mesmo fogo na Semana da Pátria poderia ser, em outros contextos, um processo de purificação. Perguntava no começo quem é o Brasil, quem é o brasileiro. É muito fácil responder essa pergunta cagando regra (o homem é um animal que caga regra) e dizendo, a partir dos próprios parâmetros, a que regras todos os outros seres do mundo deveriam se dobrar para os meus caprichos. É mais importante perceber, entretanto, que a elaboração desse Brasil e desse brasileiro não ocorre só pra fora, para os outros, para o mundo, mas justamente se vale disso que está aí fora e nos enraíza nas coisas para construir e elaborar o que deve existir dentro de cada um. É preciso descartar partes do mundo externo, mas também e sobretudo do mundo interno. O acordo entre o que sou e o que quero ser não pode se dar de forma unilateral, ele é uma eterna negociação comigo mesmo e com os outros. O brasileiro que se acha o correto e corre a apontar o dedo na cara daquele brasileiro “que é assim mesmo”, quer dizer, os mal-educados, bárbaros, idiotas, esses que são sempre os outros, ele deve apontar pra si, rever em si, adaptar-se a um novo acordo de um novo país que pode não ser só o espelho distorcido de uma utopia de espírito inconfessavelmente racista da produção a todo custo (i.e., escravagista), mas tenha autenticamente uma identidade mais leve, mais tranquila. Quem sabe, depois de todo um incêndio traumático, nos sobre alguma pedrinha ainda de onde tirar algum leite.

O Brasil é um poço. Talvez sem fundo, mas de onde brota água inesgotável. Talvez para sempre envenenada de metais pesados, mas sempre maior que tudo isso, e permanece, nós permanecemos como parte dessa fonte inesgotável, jorrando. Mesmo depois de tantas marcas e cicatrizes que nos deixaram, como povo, por séculos, dos quais o incêndio do Museu Nacional poderia se desenhar como um triunfo final, nós retornaremos, mais uma vez, para apanhar de novo e de novo em todo o espectro de sentidos, do mais literal ao mais figurado, espetáculo terrível para quem vê de fora, também para quem o vive, mas que precisa continuar porque essa dor um dia há de passar, nem que finalmente desafiando o peito à própria morte, o que já tanto se fez em vão em tantos tempos e lugares, e a todo momento nos obrigam a repeti-lo, como a todos os condenados a ignorar — e repetir — a própria história.
