Romantismo, ciência e o reencantamento do mundo
ade scandolara
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Gostei do texto, até por interesse no século XIX, que conheço pouco. Mas conheço bem o XVIII, e tenho alguns problemas a apontar. Você muito bem desmonta “mitos” em torno do romantismo e do XIX, mas parece que acaba comprando vários outros criados por eles, e em particular aqueles sobre o iluminismo. Todo o cuidado que você tem para analisar um século é abandonado quando você fala do anterior. Não dá pra esquecer que o próprio Newton é alquimista, e que embora isso tenha sido ocultado já na imagem que se tem dele no XVIII, ele foi entendido não só como uma ameaça à racionalidade cartesiana, como serviu de fortalecedor para um rejuvenescimento importante da alquimia (via admissão de forças não-mecânicas, isto é, atrativas = de afinidade), o que culminaria no surgimento da química em sua forma moderna no fim do século. O Newton símbolo do “mecanicismo” é uma imagem que surge só no fim do XVIII, e exatamente depois que os grandes matemáticos do século (Euler, Lagrange, Laplace p. ex.) organizaram de forma mais ou menos satisfatória a matemática necessária pra operar no quadro newtoniano (enquanto que na disputa com Leibniz no começo do XVIII, os newtonianos têm que se defender da acusação de criarem um sistema de mundo que implica um eventual cessar dos movimentos celestes, e portanto de um Deus imperfeito; aquela matemática incipiente não permitia entender ainda o newtonismo como determinismo…), e é só depois dessa conquista matemática que ganha força a moda determinista, que existia sem dúvida desde o XVII mas não tinha, no XVIII, força hegemônica. A imagem do demônio de Laplace — imagem do mundo mecânico completamente determinado — é do fim do XVIII, e feita exatamente por um matemático. Por outro lado, mesmo um LaMettrie, símbolo de um materialismo exagerado no meio do século, não é tão levado a sério por seus contemporâneos, e não é de forma alguma “mecanicista” no sentido que se gostaria de dar aqui, logo ele que diz ter percebido que tudo era físico depois de um delírio de febre…

No mais, essa intuição do Sagan de que o cosmos é único e que todas as coisas estão ligadas a todas as outras é típica do estoicismo grego, que influi na tradição hermética durante o helenismo em Alexandria, onde se mistura com tradições babilônicas, egípcias, judaicas etc, permanece na tradição alquímia árabe, que também dialoga com outras tradições e é a origem dos tratados alquímicos medievais — e algumas dessas tendências permanecem em diferentes intensidades para vários dos protagonistas da tal “revolução científica”: Kepler, Bacon, Boyle, Newton, Leibniz. O XVIII é importante para a recuperação do estoicismo no campo da política, particularmente das tradições romanas, porque os próprios latinos são estoicos (Sêneca, Cícero, Marco Aurélio…). Esse tema passa e perpassa toda a história do ocidente, e supôr então que há algum século em que essas ideias (de que o mundo é um “grande animal” e tudo nele existe para todas as outras coisas em harmonia) não circulavam não funciona muito, é mais de se ver quando é que elas foram mais ou menos facilmente admitidas pelas posições mais hegemônicas (e correspondentemente quando elas foram mais ou menos admitidas em outros setores que não o do poder direto, por exemplo na arte). Textos sobre o assunto nessa pegada mística você sempre vai achar, e a periodização histórica deve ser levada a sério então como tendência, não como regra absoluta :)

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