Sobre Genes e Comportamento

As discussões sobre questões relacionadas ao gênero frequentemente se apoiam em fatos científicos. É comum que se chame a opinião de um biólogo ou médico, normalmente de um geneticista, para explicar comportamentos sexuais que teriam sido determinados pela própria natureza. Reconhecemos, desde o começo, a orientação sexual de uma pessoa como algo derivado de seus genes, portanto completamente dependente de relações biológicas que fazem do organismo uma máquina complexa. Daí imaginamos que uma pessoa é hetero ou homossexual pelo mesmo motivo que um relógio badala ou não nas horas cheias: porque foi feito assim.

Mas quem decidiu que os genes são completamente responsáveis por tudo o que se passa a uma pessoa? Poderíamos pensar: os próprios cientistas. Mas não. Na verdade, nem mesmo os próprios cientistas pensam assim, pelo menos não em consenso. Antes, eles nos dizem, uma pessoa é resultado da interação do resultado de seus genes com o meio em que ela vive. Pensemos sobre “o meio”: para os humanos, isso não diz respeito apenas à composição do ar, à temperatura, à pressão. Depende também do que comemos, por exemplo, mas o que comemos depende tanto da nossa dieta própria quanto de como está organizada a produção de comida: se a tiramos do nosso quintal ou do mercado da esquina. E, se a tiramos do mercado, depende também das condições em que cada um dos tipos de comida foi produzido, armazenado, transportado e finalmente cozinhado por nós (ou por outras pessoas). O “meio”, quando se trata de humanos, é o meio social. São as formas como interagimos uns com os outros, e a forma como essas interações interferem nos elementos do nosso dia-a-dia: na nossa comida, na nossa casa, na nossa cidade, etc.

A própria ciência realizada pelos humanos depende, também, de elementos sociais. A própria prática científica e os estudos mesmos estão subordinados a uma série de determinações, por exemplo, de políticas sobre educação, de constituição dos laboratórios, dos instrumentos de medida, da hierarquia dentro da academia; e o resultado final é produto de todas as condições em conjunto, as listadas e inumeráveis outras. Mais que isso: ela depende dos próprios cientistas, e da forma como eles encaram sua própria atividade. Pois quem decide, afinal, qual o próximo experimento que será feito, senão o próprio pesquisador, isto é, uma pessoa que é responsável por um projeto científico? Isso significa que a própria motivação das pesquisas depende das do pesquisador, o que pode contaminar, e contamina, o projeto, a execução e o resultado de várias delas.

Poderíamos pensar, ainda, que a ciência ainda guarda algum nível de imparcialidade, e quando ela diz que as coisas funcionam de um jeito tal, é porque elas de fato o fazem. Isso é bem verdade, mas é preciso lembrar que os próprios fatos foram interpretados por alguém. De nada adianta um gráfico se não houver quem possa extrair dele uma informação relevante (na verdade a apresentação do gráfico depende de alguém que julgou ver nele algo de relevante). E a forma como os cientistas compreendem os dados que são obtidos por experimentos não é única, pelo contrário. Há muitas divergências e contraposições nas posições científicas exatamente porque o mesmo fato pode ser interpretado de muitas formas diferentes. Assim, podemos encarar um indivíduo como simples conseqüência de sua composição genética, mas também podemos encará-lo como fruto da interação de seus genes com o meio em que vive. Podemos, ainda, encarar um indivíduo como um resultado entre gene e meio que consegue eventualmente determinar por si mesmo os próprios valores. Nenhuma dessas três posições ofende por princípio a biologia, pois todas levam a sério os mesmos fatos biológicos. Isso significa que decidir entre uma dessas três posições não compete à biologia, porque ela não abarca todos os elementos necessários para a solução do problema.

Se o meio é, ao menos para os seres humanos, tão variável quanto foi mostrado, isso significa que a forma como nos comportamos não depende exclusivamente de nossa composição biológica, mas varia muito mais profundamente de acordo com o tipo de sociedade em que vivemos e de acordo com a posição que assumimos dentro dela. Em resumo, há uma questão social mais ampla (como funciona a sociedade em geral?) e uma questão sobre os reflexos da sociedade numa pessoa, isto é, da resposta própria e única de cada indivíduo a tudo isso. Somos determinados ao mesmo tempo pela composição do nosso corpo, cujas regras são biológicas, pela composição de nossa sociedade, cujas regras são sociais, e pela composição de nossa própria vida, cujas regras são internas a cada um de nós.

Dessa forma, é preciso afastar todo discurso científico que pretende limitar a discussão sobre papéis de gênero a uma questão puramente biológica ou fisiológica, como por exemplo quando atribuímos facilidade com números ao cérebro masculino e facilidade com emoções ao cérebro feminino. É preciso uma análise mais ampla. A pesquisa diz apenas isto: “esta diferença existe no grupo analisado” — “nesta época e nesta sociedade”, acrescentaríamos sem alterá-lo. Isso significa apenas que a diferença existe, não que a causa da diferença seja exclusivamente fisiológica. E tenha-se em mente que a própria hipótese da pesquisa já havia sido moldada por expectativas de cientistas que se encontram já enredados nas mesmas regras que eles podem vir a avaliar do ponto de vista científico. Há vários aspectos sociais mais importantes a serem levados em conta numa diferença dessa natureza, porque “facilidade com números” e “facilidade com emoções” não são, no caso, termos objetivamente definidos pela fisiologia (o que significa, a rigor do ponto de vista fisiológico, “facilidade com emoções”, que critérios podem resumi-la, e por quais experimentos ela poderia ser medida?). Portanto, esta ciência não pode lidar sozinha com tais noções da forma rigorosa que uma investigação científica requer; ela precisaria antes buscar a explicação e precisão da definição desses termos comportamentais nos ramos de conhecimento que efetivamente lidam com eles: a antropologia, a sociologia, a psicologia, mesmo a etologia.

Assim, seria de desejar que afastássemos todo discurso que pretende reduzir os comportamentos sociais a simples relações entre genes ou a qualquer outra coisa que perca de vista a parte fundamental que a sociedade e a própria singularidade do indivíduo jogam nessa dinâmica da construção do comportamento humano. É preciso não deixar nenhuma aspecto de lado se quisermos ter uma visão adequada de quem nós somos.

[Texto escrito para a Revista Maçaneta em setembro/2014. Fiz minúsculas alterações para repostá-lo aqui. O objetivo era dar uma afastada pelo viés do método científico nas lendas e raciocínios toscos que o discurso biologicóide deixa legitimar pela ignorância dos que a usam (e que não é próprio dessa ciência, só de alguns usos que se fazem dela).]