Sobre Impeachment

Tem gente que acha que não pode ser golpe porque primeiro o golpe era a ação da Lava Jato, e depois o golpe virou contra a Lava Jato.

Mas sabido, melhor agora em retrospectiva, o quanto são podres nosso judiciário, nosso legislativo e nosso executivo, peço que compreendam que o processo pode ser (e foi) manipulado em direção a um lado: mas sua explicação se trata de uma história, não de um raciocínio:

A Lava Jato a princípio talvez até investigue todos, denuncie todos, faça toda a propaganda de que vai ser a limpeza completa. Começa então na mídia o alarde quase desesperado das denúncias contra o PT. Estas funcionam, ao mesmo tempo em que outras aparecem e não vão mais pra frente. A mídia alardeia estas que permanecem (do PT e de aliados) e se esquece para sempre das outras (quando as expõe!), que morrem em alguma fase do longo procedimento que exigiria, para ser levado a sério, de longa vigília do público — proporcionado quase exclusivamente pela mídia tradicional. Neste momento, a esquerda aponta as incoerências no tratamento a apenas um lado do julgamento e começa a, de forma errada por questões da circunstância (lembrar que estamos julgando retrospectivamente o ocorrido), dizer que a Lava Jato serve a um golpe: mas pelo forma como se encontra até aqui, parece mesmo. À medida que o processo caminha, vão aparecendo mais e mais sujeiras dos partidos golpistas que não há mais como esconder, apesar de todo esforço, e torna-se óbvio que Dilma vai levar isso até o fim (e se orgulha disso, é sua única cartada), apesar de não controlar um judiciário que continua a, de forma geral, punir quem é do lado de lá e proteger quem é do lado de cá. Neste momento, a esquerda se apercebe e passa a apoiar a Lava Jato: é justo que saiam todos, concordamos nisso. Quando não dá mais, concretiza-se uma força-tarefa imediata, uma conspiração de ratos, atestada por grampos legítimos, para parar a operação. E estão conseguindo. Mesmo Gilmar Mendes já se pronunciou contra a Lava Jato por excessos. Aparentemente, um vazamento de grampos ilegais não foi excesso, condução coercitiva sem necessidade alguma não foi excesso: o que é excesso, agora, e absolutamente inaceitável, é chegar perto dos amiguinhos dele — e sabemos quem são: membros do governo interino e antigos corruptos de sempre.

Um trem, numa linha, com dois grupos de pessoas amarradas. Ele ganha velocidade suficiente para atropelar a primeira leva de pessoas, as que foram colocadas primeiro, sob clamor enfurecido das pessoas e uma farsa montada pela mídia e pelos desonestíssimos movimentos “de rua”, MBL — Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua Brasil, Revoltados Online, todos esses viralizantes “apolíticos” cujos membros são recém-filiados a partidos sem escrúpulos de direita, e cujas postagens abusam do ódio. Em seguida, pára-se o trem. O trem é o mesmo, o que atropelou os primeiros, e atropelaria os próximos se tivesse continuado. Assim pode a Lava Jato atuar apenas em favor de um grupo e arrefecer assim que este objetivo é cumprido, e ainda por cima sair com a aparência retórica de uma purificação da política brasileira!

Do corpo político desmembrado, cada um quer um tequinho. Mesmo o resto da esquerda, despreocupado que está do que significa toda a ação orquestrada da mais retrógrada elite do mundo, a elite ainda escravista brasileira (alô, Caiado!) e que ainda manda nesta bagunça. Este resto da esquerda se aproveita do momento para falar mal de vários aspectos da política de Dilma. Claro que são ruins, claro que são absurdos, claro que são indesculpáveis. Mas por acaso é a presidenta ditadora absoluta, afora nos delírios da extrema direita raivosa? Apontar Dilma como referência única, descolada de congresso, contas, crise, enfim, CONTEXTO, é a maior estratégia da mídia: o simplismo. Lula soube domar as feras, mas Dilma perdeu o controle e fracassou. Isto é culpa da Dilma, das feras, ou de quê? 
(a resposta correta: é do contexto como um todo) 
Agora, achar que defender o mandato da Dilma é dar lastro livre para o que ela quiser fazer é esquecer do que significa qualquer coisa neste sistema político representativo, e com objetivos igualmente escusos: o tequinho do poder futuro em disputa. O jogo não pára mesmo, bobo devo ser eu.

Qualquer pessoa que pode compreender a importância das instituições na vida de um povo percebe que estamos diante de um ponto de virada para pior.

Outros gostam de falar que o certo é “fora todos” — e até concedo que eles queiram um pouco arrogantemente ensinar ao movimento como tocar a si mesmo, trocar pautas, etc. Só que não vejo nenhum desses aí se preocupando com a sensível alteração de políticas públicas já levada a cabo pelo governo interino, e o sombrio futuro que se encontra à nossa frente. Nenhum governo? ENTÃO TENHAM A DECÊNCIA DE EXPLODIR TUDO. Falar “fora todos” para se permitir lavar as mãos e se considerar superior às massas, iluminado, saído da matrix, enquanto padece das mesmas injustiças cotidianamente de agora e do porvir… Isso é só pra quem pode se dar esta desculpa, ou não padece de porra nenhuma.

Enquanto isso, os muito conscientes braços armados da ideologia vigente, a polícia, sabe proteger o que interessa: não deixa a manifestação chegar ao prédio da FIESP. A direita sabe o que é símbolo e significado: verde-amarelo, CBF, patinho, MBL, Sérgio Moro, FIESP. O infortúnio do “fora Temer”, na verdade, foi não ter conseguido se transformar numa plataforma publicitária eficiente: pois a esquerda não é dada a estas coisas, por desconfiada demais, e para sustentar isso apenas como simulacro é preciso, sabemos, de muito, muito, muito poder e dinheiro.

A história e a política exigem um tipo de raciocínio que não é simplesmente lógico-estático, e que é muito pouco exercitado nos debates públicos brasileiros. Essa forma de ter sentido não consegue se sustentar se não levarmos em conta os interesses e as motivações de cada envolvido, assim como a MUDANÇA dessas posições ao longo do tempo, que mudam as circunstâncias, e portanto mudam o que a situação significa para cada um dos atores. Sem isso não dá pra entender o que é história nem o que é política. E só quem é muito ingênuo, talvez por nunca ter estudado essas duas pra valer, poderia esperar que elas não lhes servirão como tribunal.

Entre realidade e aparência, só há um crivo de distinção possível: o contexto. Sem contexto, a diferença entre um processo correto de impeachment e um ritual vazio se torna incompreensível.

Eu acuso: golpistas, por cegueira, por burrice ou por conveniência, são só diferentes setores de uma mesma laia vil e asquerosa.

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