Um esboço de teoria da história por M. Serres

Encontrei esta teoria da história numa nota anormalmente longa no meio de um artigo do Michel Serres, “Analyse symbolique et méthode structurale”, Revue Philosophique de la France et de l’Étranger, 1967, pp.437–452. A nota começa na p. 445, a tradução é minha. Trata-se de um paralelo com a teoria da informação.

“Subir à montante de uma cadeia de informação para evitar as perdas sucessivas desta define também o que se poderia chamar de a dúvida histórica. Ir à fonte, ideal do historiador e do crítico, implica uma recíproca à qual, em meu conhecimento, ninguém deu atenção suficiente: é que um conteúdo histórico, por exemplo uma ideia (para o que diz respeito à história da filosofia) se perde, se enfraquece, decai e se mistura. O vetor cronológico da história é portador da desagregação progressiva da ideia. Esta desagregação não é um esquecimento puro e simples (como definir este esquecimento?), mas simplesmente um enfraquecimento continuado da ideia por comunicações sucessivas. A história das ideias é este jogo do telefone que fornece na saída uma informação tão mais deformada quanto é longa a cadeia de comunicação. (A partir de então a noção bachelardiana de recorrência histórica pode ser concebida em termos de teoria das comunicações. Mostraremos alhures que a noção bergsoniana do movimento retrógrado do verdadeiro é concebível em termos de processos aleatórios, indo a história da probabilidade à determinação). Desde então o ideal histórico de retornar às fontes só pode ser rigorosamente compreendido como uma subida à montante recorrente sobre a cadeia das comunicações se se admite:
1) que há efetivamente uma perda de informação ao longo da história sobre uma ideia filosófica dada, que há uma lei de entropia agindo sobre esta ideia e que assim uma verdade pode se perder. Isso dá conta de problemas famosos: como as ideias de Nietzsche puderam se deformar politicamente, etc…
2) e portanto que a história não transporta as ideias como invariantes. Por conseguinte, elas comportam essencialmente potências de interferência, ou de ruído, que deformam a transmissão de uma mensagem filosófica dada. Determinar este ruído é uma das funções mais importantes dos métodos históricos recorrentes que buscam subir o rio entrópico. Há um ruído cultural, sobre isso nossa civilização atual sabe alguma coisa.

Donde se segue — e, desde então, rigorosamente — que a história das ciências, na medida que é puramente uma história da verdade (e que ela é apenas isso) só pode ser uma história recorrente, e que um estado dado desta história se encontra sempre na cadeia da comunicação, na mais próxima vizinhança de sua origem. É uma história cerrada, sem parasita. Se Péricles está infinitamente distanciado de Clemenceau, Tales é um dos mais próximos vizinhos de Poincaré: é isto que significa a história do Mênon.

Tudo isto faz compreender as noções qualitativas de envelhecimento, desuso, perda de uma ideia. Estas noções não significam necessariamente que uma ideia morre porque ela era, por si, incompleta ou não rigorosa, ou então porque ela estava entranhada demais em circunstâncias eventuais submetidas à desagregação; estas noções não julgam a ideia como tal ou sua inserção no quadro da moda ou do ar do tempo. De fato, elas aproximam esta ideia precisa (que é ela mesma o índice da articulação histórica do pensamento) segundo a qual a história das ideias é a história da difusão, da propagação, da comunicação das ideias (cf. Canguilhem, Revue de l’enseignement supérieur, 1961, nº3, p. 6–15). Ora, difundir, propagar, etc… é submeter-se às leis de bronze da comunicação e da perda na cadeia. Borel demonstrava que, em n gerações de distância, a probabilidade de que um cromossomo de um genitor dado seja reencontrado na descendência tende muito rapidamente a zero; esta demonstração é a mesma que a da ruína do jogador. O pensador é ao mesmo tempo este jogador ou este genitor que transmite à cadeia histórica elementos cuja perda seria absolutamente certa num termo dado se o historiador não interviesse. E, por conseguinte, parece matematicamente verdadeiro dizer que a filosofia não existiria sem sua própria história. Mais geralmente, o historiador é aquele que faz da cultura uma criação continuada, a história é o bolsão de neguentropia na entropia cultural. Analogamente, saber é lembrar-se. Sócrates põe o pequeno escravo do Mênon em comunicação direta com a origem. Mais geralmente ainda, a história não pode ser então concebida senão sob o modelo da mistura aleatória: Clio embaralha indefinidamente as cartas em que o pensador distinguira trincas e fulls. O historiador busca no jogo em desordem as trincas misturadas. O historiador busca a ordem na distribuição aleatória atual; o pensador a busca na distribuição futura.

Assim, um pensador pode ocultar outro. Newton fez o papel do ruído que impediu a transmissão da mensagem leibniziana, por exemplo, e Descartes daquele que nos oculta a Idade Média, etc…. Um pensamento pode portanto ser apreendido pelo historiador quer como uma ordem quer como um ruído.

Assim, o pensador só pode ter uma visão trágica da história: a confusão do esquecimento, a mistura aleatória da ideia; e o historiador, uma visão corajosa: reorganizar as rupturas de uma ideia dispersa em mil pedaços recobertos dos aluviões do dilúvio.”

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