Duas histórias sobre basquetebol II

The show must go on, mas não é todos os dias.

Isaiah Thomas é um jogador dos Boston Celtics, uma das trinta equipas da liga norte americana de basquetebol. Foi ao longo deste último ano um dos maiores espetáculos que o desporto teve para oferecer, terminando a temporada regular no terceiro lugar em pontos marcados com uma média pouco abaixo dos 29 pontos por jogo. 
Mas teve um início de carreira pouco promissor. Mede 1,75m o que é manifestamente pouco dentro dos padrões actuais da NBA e que o torna no base titular mais baixo entre todas as equipas da liga.

Quando se declarou elegível para o draft, foi seleccionado na 60ª e última posição. É o equivalente a ser o último escolhido naquele ritual da constituição de equipas nas aulas de educação física. A última pessoa é aquela que ninguém quer, mas têm que ficar com ela porque não pode sobrar gente. É mais ou menos isso, só que pior. É ser escolhido em último lugar para desempenhar uma actividade profissional, o que nao é muito encorajador. É claro que há quem não chegue a ser seleccionado, mas ser o último em sessenta não parece ser grande motivo de satisfação.

As equipas não gostam de arriscar em jogadores muito pequenos com talento ainda por provar. O tamanho é certo, o talento não tanto. Há até uma expressão muito utilizada no meio: “you can’t teach size”. Ou seja, o basquetebol aprende-se, o tamanho não.

Para complicar as coisas foi seleccionado pelos Sacramento Kings, uma equipa cheia de problemas, desportivos e não só, há demasiado tempo, e onde os jogadores não encontram o melhor ambiente para mostrar e desenvolver os seus talentos. Ainda assim deu nas vistas e foi eleito para o All Rookie Second Team, o que o tornou num dos dez melhores rookies daquele ano, provando imediatamente que a 60ª posição no draft tinha sido um erro de todas as equipas da NBA.

Rapidamente se tornou no segundo melhor jogador da equipa, e quando retirou algum do protagonismo a DeMarcus Cousins, este incompatibilizou-se com Isaiah Thomas. Diz-se que Cousins se aborreceu por Isaiah não lhe passar a bola as vezes que queria. Portanto, para agradar à estrela da equipa, foi despachado para os Phoenix Suns em troca dos direitos de uma opção no draft que acabou por ser um jogador que nunca ninguém ouviu falar. Ou seja, por pouco mais que nada. Desta transferência disse mais tarde que era como se os Kings lhe tivessem dado uma prenda de natal.

Nos Suns não chegou a ficar uma temporada completa e foi transferido para os Boston Celtics. Aceitou pacificamente ficar fora do cinco inicial e sair do banco durante os jogos. No final dessa temporada foi eleito Sixth Man of the Year, ou seja, o mais importante dos jogadores não titulares. Na temporada seguinte foi eleito para o All Star Game, em que os melhores jogadores da liga são seleccionados nas conferências Este e Oeste para um jogo entre si.

Esta temporada foi de afirmação para Isaiah Thomas, sendo inquestionavelmente o jogador mais importante da sua equipa, um dos melhores marcadores de toda a liga, e um dos mais espetaculares. Foi mais uma vez seleccionado para o All Star Game e, provavelmente, será eleito para uma das equipas All NBA (All NBA First Team, Second Team e Third team). Mais importante ainda, conduziu a sua equipa ao primeiro lugar da conferência Este durante a temporada regular.

Podia ter sido um ano de sonho para Isaiah Thomas mas antes do início dos playoffs a sua irmã faleceu num acidente de automóvel. Apesar de se ter apresentado para os dois primeiros jogos dos playoffs percebia-se que não era o mesmo jogador. Quer dentro do campo, onde não parecia tão agressivo nas entradas para o cesto nem tão acertado no lançamento exterior como é normal, quer fora do campo, quando chorava ou apresentava uma cara inexpressiva e ausente nos minutos que passava no banco. Os Celtics, primeiros classificados na temporada regular, pareciam ter entrado num luto letárgico e perderam os dois primeiros jogos em casa contra os oitavos classificados e últimos a conseguir lugar nos playoffs. Tudo parecia perdido mas, quer os Celtics como equipa, quer Isiah, deram a volta aos acontecimentos, ganhando quatro jogos de seguida para eliminar os Chicago Bulls. Isiah Thomas foi buscar forças para nesses jogos marcar 16, 33, 24 e 12 pontos (no último jogou pouco pois o jogo ficou decidido muito cedo). 
Mas o melhor estava guardado para a segunda ronda dos playoffs, marcado nos primeiros dois jogos contra os Washington Wizards 33 e depois 53 pontos. No primeiro destes, inclusivamente, perdeu um dente (um dos da frente de cima) numa jogada defensiva. Apanhou o dente, entregou-o a alguém no banco, e nas duas jogadas seguintes marcou dois lançamentos triplos consecutivos. Depois do intervalo, já com dente, continuou uma exibição memorável. No segundo destes jogos, cesto após cesto, quer em entradas para o cesto onde, invariavelmente batia jogadores muito mais altos, quer através de precisos lançamentos exteriores, carregou a equipa até ao prolongamento, onde voltou a ser decisivo para a vitória da sua equipa. No final, contava 53 pontos. Esse era o dia de aniversário da irmã. “Tudo o que eu estou a fazer é pela minha irmã”, disse no final desse jogo.

Durante estas duas semanas tenho a certeza que foi um dos maiores espetáculos desportivos a acontecer, independentemente das modalidades, e uma história incrível de superação. 
Mas há coisas maiores do que o basquetebol. Não há vitórias, pontos, exibições históricas que tragam de volta as pessoas de quem gostamos quando elas desaparecem. Aconteceu também nessa semana uma morte na minha família e vi de perto a dor de pessoas de quem gosto.

Se por momentos parecia que este pequeno jogador tinha atingido um patamar de imortalidade, a verdade é que logo a seguir os Celtics perderam dois jogos consecutivos e Isaiah marcou apenas 13 e 19 pontos, como que para lembrar que não há forma de vencer a tristeza, a ausência e a morte, que temos fraquezas insuperáveis, independentemente de quão bons possamos ser naquilo que fazemos, e que todos os grandes feitos são apenas breves distracções.

Com a eliminatória empatada a dois jogos é impossível saber se os Celtics avançarão para a final de conferência ou se serão derrotados, deixando a Isaiah Thomas um longo e difícil verão pela frente. Mas, seja lá como for, mesmo que os Celtics ganhem a final da NBA, coisa que é pouco provável (ninguém os tem como favoritos), sabemos que esta história acaba mal. Acabará mal todos os dias porque já não há nada que se possa fazer. As vitórias são doces quando temos com quem as partilhar. 
Que os nossos estejam protegidos para nos poderem acompanhar nos nossos falhanços e poderem assistir às nossas vitórias, por mais insignificantes que sejam.