O Salvador dos porcos e o Salvador do festival.

O Salvador dos porcos.

Quando eu era criança vivi muito tempo num equívoco muito grande. Esse equívoco tinha um nome: Salvador.
Nos anos 80 Salvador não era um nome da moda. Não conhecia ninguém que se chamasse Salvador. Eu nem sequer sabia que Salvador era um nome. Para mim, Salvador era uma outra forma de referir Jesus Cristo ou Deus, ou alguém que salvasse pessoas. Ou animais. Ou coisas. Como um nadador-salvador. Era lógico que assim fosse.
Mas havia um problema nesta lógica: um homem que matava porcos lá na aldeia. Sempre que que os porcos estavam grandes e gordos as pessoas chamavam o salvador dos porcos e aquilo não me encaixava na cabeça. Então o homem matava e desfazia os porcos em partes e era salvador? Era estúpido, mas como já antes tinha identificado algumas deficiências lógicas na linguagem, aceitei a estupidez com resignação ainda que com estranheza. 
O salvador dos porcos era um homem que tinha a cara vermelha, mau corte de cabelo, que falava alto e dizia asneiras. Na minha família não se diziam asneiras e tudo aquilo me impressionava um bocado. Além disso o salvador dos porcos tinha um truque que resultava todas as vezes com quem quer que fosse. Quando estava a talhar o porco, pendurado num gancho no tecto, já em duas partes, cortava um bocado e virava-se para alguém que estivesse a passar e dizia “cheira aqui esta carne”. Quando a pessoa se aproximava ele metia o bife ou o chispe, ou ainda pior, na cara da pessoa e achava muita graça. Era nojento. Eu tinha até medo daquele homem. 
Isto aconteceu durante alguns anos. Continuaram a criar-se porcos na aldeia, continuaram a matar-se porcos quando grandes e gordos e continuou a vir o mesmo salvador fazer aquele serviço. 
Um dia, já eu era mais crescido, alguém teve que matar um porco também já crescido e veio um homem para tratar disso. Outro homem. Eu perguntei o que é que tinha acontecido ao outro salvador. Outro Salvador? Qual outro? Este senhor chama-se António. Quando eu vi que se riam de mim depois de perguntar se o senhor António não era salvador dos porcos como o outro, comecei a perceber o equívoco. O homem chamava-se, não António ou José ou Vítor, mas Salvador. E “dos porcos” era alcunha, por motivos óbvios.

O Salvador do festival.

Gosto da canção do Salvador e da Luísa Sobral. Acho bonita. E agrada-me o regresso a uma matriz de canção mais clássica como as que levámos ao festival quando eu nem era nascido. Por isso percebo o que o Salvador quis dizer no discurso de vitória. Mas, não só não me parece que deva ser ele a dizer que caminho é que o festival deve tomar, como me parece muito precipitado interpretar da vitória que o público está sedento de um certo tipo de música, ou de canções “com significado”. O significado é uma treta, não significa nada se não se gostar do que se ouve. O sentimento é uma treta. Quem ouve é que sente. Há quem sinta música considerada boa e há quem sinta música considerada má. O que aconteceu é que a canção era boa, muito boa, e a interpretação muito genuína. Era melhor que as outras e destacou-se também pela diferença, beneficiando de uma grande quantidade de canções electropop (fireworks, disse ele numa referencia que eu acho pouco elegante), umas boas e outras não, nun conjunto um bocado indistinto.
No entanto, as pessoas vão continuar a ouvir merda com mais, menos ou nenhum significado e a dizer que gostos não se discutem. E com todo o direito, mesmo que os gostos se discutam como tudo o mais.
Para o ano o festival eurovisão pode ter mais três ou quatro canções com piano e orquestra, mas podem ser tão ou mais pirosas, patetas, intragáveis do que uma canção electropop ao jeito das que têm sido a norma. 
Parabéns ao Salvador, Luísa, orquestrador (muito importante também) e demais envolvidos, mas já aprendi há anos que um Salvador não é uma pessoa que salva pessoas, animais ou coisas. Coisas como a música ou mesmo só como a eurovisão.