Laranja Mecânica

A Clockwork Orange
“Each man kills the things he loves.” Oscar Wilde

Ora, ora, ora, meus irmãos e únicos amigos.

Tragam-me um pouco de moloko, preciso recarregar.

O mal retorna ao mal, e o bem não tem lugar?

Vamos, vamos, vamos.

Preciso de uma dose de coragem pra recomeçar.

Não sinto pena da sua pobre inocência, você me convidou a entrar por vontade própria.

Agora te vejo sofrendo sóbria, a epiderme arrepiada pela exposição.

O seu amor no chão, vivenciando seu futuro motivo de vingança.

E eu só pareço mais uma criança.

Canto e danço como Gene Kelly, embora a paixão por Ludwig van ainda seja meu combustível.

Se me tentam tirar o dom da liderança…

Bem, bem, bem, bem, bem…

Não podem tirar o que nasceu comigo e me reconhece como um soldado nazista ao Führer.

Diga-me seus planos como líder, eu os executo.

A mulher-gato me parece uma vítima difícil. Mas não impossível

(…)

Vítima EU me torno. Um vidro de moloko me cega, e inicia-se a pré-vingança de minha própria existência.

Anos encarcerado pela palavra de Deus.

Descobri uma saída! Podes me dar outra chance?

A saída é o governo, e mal sei que a chance é uma droga.

Ah, irmão. O que fizeram comigo não tem pequena dimensão.

Me reviraram o organismo, me tornei vítima novamente, mas dessa vez de minhas atitudes.

As vi em uma tela, os olhos regados e nunca fechados.

Este humilde narrador sofreu, irmão.

“Provei” à sociedade que estava curado, não podia imaginar que meu fim poderia estar próximo.

Mais uma vez em vítima me transformo, me perseguiram os perseguidos, e dessa vez também a sociedade.

Ahh, irmão, mas eu saí dessa ainda que muito ferido. Mas só um pacto, um acordo com o senhor que me deu a chance depois do cárcere bíblico pôde me curar.

Aplaudem-me sob a neve clara, assistem a minha célebre vitória, e apreciam a bela melodia, meu querido Ludwig van.

Roberta Scheer
(inspirado no filme Laranja Mecânica, 1971)