Jacinto Augusto (1981–2026)

Jacinto Augusto era um jovem empresário em 2016. A fábrica de sacolinhas de supermercado herdada do pai, agora aposentado em um sítio em Pindamonhangaba, ia de vento em polpa.

“Tentaram proibir as sacolas com esse papo de meio ambiente, mas nunca vão conseguir!” Dizia entre largos sorrisos.

Estudado nas melhores escolas particulares, Jacinto, na adolescência, não gostava muito de história e geografia, a matemática é que ensinava a contar dinheiro. Mas em 2016 João tinha uma opinião política formadíssima como a maioria dos brasileiros.

“O PT gastou dinheiro com bolsa esmola, mas alguém tinha que pagar a conta neh? Quebrou a economia! Fui na paulista protestar, de camisa do Brasil! Conversei com a PM. Tudo pacífico.” Orgulhava-se.

No dia da aprovação do impeachment, teve festa na casa de Jacinto. Juninho correu na cozinha e voltou com uma garrafa de espumante. Acharam graça, mas decidiram estourar assim mesmo pra comemorar o renascimento da economia. “Depois a gente compra outra.”

O novo presidente havia assumido, em meio a escândalos e das chamadas propostas impopulares, os jornais e a TV ficavam meio lá e cá, mostravam a primeira dama de vez em quando vestida de princesa da Disney pra amenizar. “Isso é que é mulher!” Divertia-se Jacinto no happy hour.

Você acha que ele é honesto, Jacinto?

“Eu acho que agora a gente tem que deixar o homem trabalhar e resolver a situação. Político honesto não existe! Esse pelo menos sabe falar e escrever. Pegou o país quebrado, agora pra consertar vai ter que cortar alguma coisa mesmo, neh? ”

Mas até na saúde e na educação?

“Paciência! Culpa lá a Dilma que quebrou o país!” Dizia, irredutível.

Quando os gastos na saúde e na educação foram congelados por vinte anos, Jacinto comemorou internamente, para que não pensassem que ele era uma pessoa ruim, mas sabia que era o melhor a se fazer para a economia voltar a crescer.


Agora em 2026, a PEC que limitava os gastos continuava firme e forte, o país passava agora seu segundo governo azul e amarelo. O crescimento esperado chegou, não só nas fortunas dos empresários como na quantidade de brasileiros na classe D e E, mas agora a TV já noticiava que a pobreza começaria a diminuir.

Jacinto se sentia satisfeito. Sua empresa havia crescido, graças aos créditos para empresários concedidos pelo governo, somado aos direitos trabalhistas que estavam bem mais ‘flexíveis’. Sua família tinha uma vida boa, o filhão estava em uma universidade federal, cursando direito. “Educação dos filhos a gente tem que priorizar. Paguei um colégio caro, mas não é gasto, neh? É investimento. Logo vai ser advogado bom, vai estar com a vida ganha! A minha parte eu fiz, agora ele vai trabalhar pra se manter como todo mundo.” Contava Jacinto nos churrascos com os vizinhos bancários.

Um dia, saindo da JA Ind. de Sacos Plásticos, já era tarde, umas dez da noite, Jacinto parou para abrir o carro, do ano. Estava distraído pensando na viagem para Bariloche que planejava com a ‘patroa’, quando foi abordado por um menino de no máximo quinze anos.

“Perdeu, tio! Passa esse celular aí, senão tu morre!” A voz esganiçada da pré-adolescência tentava parecer mais grave pra atingir um tom de ameaça.

O jovem enfiou a mão no bolso da calça e alcançou o iPhone 12 que Jacinto havia acabado de comprar por “questão de qualidade, não adianta, não é a mesma coisa que esses mais baratos.”

Percebendo que era um moleque, Jacinto resolveu dar uma cotovelada e escapar. A empresa estava perto, era só correr pra lá que o vigia contratado daria um jeito.

Só que o menino estava armado, ele nunca tinha usado uma dessas. O susto que levou ao tomar a cotovelada e ver umas estrelas fez com que o gatilho ficasse mais macio.

BUM

O estalo ecoou pela rua. O menino correu. Jacinto caiu. Ficou ali.

O vigia estava sonolento, no início do seu segundo expediente, que precisou arrumar para conseguir colocar comida na mesa dos três filhos, demorou a perceber que o som tinha vindo da rua. Quando chegou lá, viu o Seu Jacinto e se desesperou. Ligou chamando uma ambulância, tremendo. Decidiu não fazer nada por conta própria, porque esperar o resgate era o melhor a se fazer, havia aprendido no seu curso técnico de vigilância.

Mas os tempos eram outros, já não havia mais tantas ambulâncias disponíveis, as que haviam estavam cuidando de um acidente na rodovia. O resgate demorou 45 minutos pra chegar. Não deu tempo.

Jacinto morreu ali, com o pulmão direito perfurado, afogado no próprio sangue, ao lado do iPhone, cuja tela de bloqueio era a foto da família sorridente na viagem de férias para a Disney, em 2017.

No velório lotado, principalmente pelos funcionários de uniforme, que pareciam apáticos em um canto, separados dos amigos empresários que trajavam roupas pretas de grife e óculos escuros, Jacinto Augusto Júnior chorava bastante.

“É por isso que faço direito! Vou fazer justiça nesse país! Bandido bom é bandido morto!”