Não tenha medo de comprar uma geladeira

Saí do banheiro e dei uma olhada nos móveis brancos. Ritualizar o apartamento começa a fazer parte da rotina: acender velas noturnas, abrir a janela de manhã, lavar os copos de vinho, sacudir os lençóis. Escutar o tempo oculto por baixo das coisas: acender as velas é relaxar e se desculpar pelo dia tenso; abrir a janela, renascer; lavar os copos de vinho significa lembrar de quem o bebeu com você, e das risadas, e das piadas feitas com o mesmo dia tenso que se transformou em nada; e sacudir os lençóis levanta também o cheiro das pessoas que dormiram ali. Na noite passada, e na seguinte, e nas futuras.
As casas são transitórias, meu pai contou antes de eu me mudar. Estava ansiosa com tanto investimento, de dinheiro também, mas de energia mais, porque construir coisas, fazer mudanças pré-definitivas não me apetece, ou me deixa preocupada. Eu, a doida do caos, fraquejo quando algo estável se atravessa: e se eu enlouquecer?
“Não tenha medo de comprar uma geladeira, uma cama que você gosta. E não tenha a pretensão de fazê-las suas para sempre. Você vai perder essa cama, vai se livrar dessa geladeira quando precisar enlouquecer e tudo bem”, ele me disse.
Entendi. Agora, as marcas da casa me interessam mais. Adoro o fato de que o armarinho do lado da janela tem as marcas dos cafés que eu tomei enquanto olhava pra fora e Belchior dizia que a vida é ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro quente tipo “tá ali, pára um pouco e respira, acalma o desejo que tudo vai rolar conforme o mundo, conforme a vida, conforme o cosmos ou sei lá”. Adoro a ideia de que as armações da minha cama foram montadas por uma pessoa que eu amei e teve de ir embora sem se despedir, sem rastro e até com um pouco de raiva. Adoro as manchas de caneta no edredom branco, versos que escrevi e não deram certo, e do resto de areia acumulado na entrada, sinal das praias de domingo.
Saí do banheiro e dei uma olhada nos móveis brancos. É lindo que eles não existam: o que existem são as pessoas, as trocas que eles presenciaram, a vida em ciclos sendo redescoberta.