2 de Setembro de 2018, o incêndio de um dos maiores museus do país.

O ano era 2007, quando tive a oportunidade de visitar meu primeiro grande museu. Aos 13 anos de idade, estava eu dentro do Museu de História Natural de Nova York. Eu nunca tinha visto nada parecido, eu estava embasbacada e a palavra mais próxima que consigo achar para descrever o que eu via, era : mágica.
O meu sentimento ao andar por corredores repletos de dinossauros, múmias, obras de arte, artefatos de culturas antigas e civilizações remotas era de puro encantamento e choque. Me lembro bem de ver, os corredores cheios de crianças e jovens como eu, em excursões do colégio, tendo aula. Tudo que eu só vi nos livros, ali ao vivo. Estudantes de arte sentados nos degraus e bancos, desenhando ali aquele acervo inacreditável.
Lembro que senti uma certa inveja. Comentei com meus pais, como seria incrível ter aulas no museu assim, no Brasil. Ao passo que com um sorriso amarelo e sem graça, meus pais disseram que achavam “que beirava o impossível, mas seria legal mesmo”.
11 anos depois, aos 24 anos de idade, no dia 2 de Setembro de 2018, eu finalmente entendi o sentimento e o que meus pais queriam dizer.
Eu tenho noção dos privilégios que eu tenho, como uma mulher branca de condição social-financeira boa em um país como o Brasil. Sou grata pelas oportunidades que minha família me proporcionou, tanto em poder conhecer grandes museus pelo mundo, quanto ao incentivo que sempre tive para a arte e seguir uma carreira relacionada.
Esses privilégios e oportunidades, junto com uma consciência moral de que eu tenho ferramentas e poder para fazer a mudanças substanciais no país, me fazem sentir responsável.
Me dói profundamente saber que o mais próximo do maravilhamento que tive aquele dia, é um sonho tão distante para tantas outras pessoas brasileiras. Como eu queria que cada criança do brasil tivesse acesso aquilo, ao sentimento mágico que tive e o direito se sentir daquele jeito pelo menos uma vez.
Enquanto via a notícia do maior museu do país pegar fogo, cada obra que queimava, queima em mim também.Um dos maiores museus da América Latina sucumbe à anos de negligência da gestão pública.

O Museu Nacional foi criado por D. João 6º em 1818, completando 200 anos nesse ano. Instalado em um palácio imperial na Quinta da Boa Vista, o museu faz parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O próprio prédio já é parte do acervo, tendo sido lar da família real e local de assinatura da Independência. A necessidade de reforma da estrutura do museu já havia sido notificada diversas vezes previamente. Na comemoração do bicentenário, nenhum ministro apareceu.
São 200 anos de história e acervo sendo engolidos por fumaça. Arte, botânica, itens das mais diversas culturas e civilizações, textos antigos, mobiliário do império, fósseis… Tudo sendo devastado pelas chamas. Nosso passado e sua preservação, ruindo diante dos olhos. Inevitavelmente, nosso futuro também.
O incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro, é um retrato sombrio do país que vivemos. Um país sem preocupação com a preservação da própria memória, do próprio patrimônio. Um país que congela orçamentos para a educação, que acha que arte é coisa de “vagabundo”, que corta verba de pesquisa.
A manutenção do Museu Nacional, custava o valor de 520 mil reais e ainda sim, não recebia toda a verba desde 2014. Esse valor é menor do que recebe por ano um juiz do supremo, 0,000045% o custo da Intervenção Federal no Rio, o custo da troca de carpete do Senado 3 anos atrás.
Eram mais de 20 milhões de itens catalogados no museu. Não existe preço que meça o prejuízo histórico e cultural do incêndio. Muito menos alguma previsão de termos um acervo semelhante novamente. Anos de pesquisa perdidos. Uma perda de 200 anos. De absolutamente qualquer campo da historia, artes, ciências e antropologia no país. É de partir o coração. É de chorar de raiva.
Um país que não preserva a própria cultura, nunca, e eu digo tranquilamente, nunca vai atingir um grande nível de crescimento social. Nunca. Só se vence a desigualdade com educação. Vejo as notícias na televisão e meu coração sente que estamos fadados ao fracasso. O acesso à arte e conhecimento acadêmico no brasil é elitista, racista e precário. É importante pensarmos à quem interessa que ele se mantenha assim. Alguém ganha com isso. A ignorância, no sentido mais puro da falta de conhecimento, é uma benção. Mas não para o ignorante.
O brasil não tem nem interesse na própria memória. É um país jovem e já senil, com governantes que pouco ligam que o país de fato avance. A população segue entorpecida, sem sequer saber do que é seu por direito, comprando o discurso de candidatos ignorantes que dizem que tudo isso é supérfluo; que “bandido bom é bandido morto”, enquanto os maiores bandidos são os que nos governam, do alto de seus cargos. Nos pilham a educação, a saúde, a cultura, até deixar-nos sem senso crítico e perdidos.
Hoje, 2 de setembro de 2018, é um dia de imensa tristeza, de imensa vergonha. Não é acaso, é negligência em sua mais pura e escancarada forma. É uma tragédia cultural sem precedentes. É o dia que morre um pouquinho daquele meu sonho, com mais um centro de cultura, memória e história brasileiro em ruínas. Um povo sem memória não reconhece nada, não muda, não evolui.
Não me lembro quem disse, mas em algum momento ouvi que “ o brasil não é para principiantes”. E vou ter que concordar. É preciso de muita força diante de tanta injustiça, despreparo e desigualdade para se seguir sonhando com algo melhor. E é assim que os sonhos morrem aqui. Numa gigantesca fogueira de descaso.