(Cap. 7) 10/02 _ Twyfelfontein e Brandberg

Acordamos às 6h da manhã antes do nascer do sol. Tínhamos combinado esse horário com o Harold, embora o sítio de Twyfelfontein só abrisse para visitação às 8h da manhã, porque era o horário que ele precisava sair. Arrumamos nossas coisas, e umas 7:30 já estávamos no estacionamento do sítio esperando.

Nascer do sol na vila Damara
Nascer do sol na vila Damara

Fizemos a primeira visita guiada do dia e, como de costume, devido às perguntas curiosíssimas, a visita guiada que deveria durar 45 minutos durou 1:30h com a gente, rs.

Twyfelfontein, como eu acho que já disse anteriormente, é um sítio arqueológico com uma das maiores concentrações de gravuras rupestres da África, e foi tombado em 2007 como Patrimônio Mundial pela UNESCO. São gravuras em baixo relevo feitas com quartzo em ocre vermelho e datam de aproximadamente 2 mil anos atrás, embora a área seja habitada há mais ou menos 6 mil anos. O nome “twyfelfontein” significa “nascente incerta/duvidosa” e se refere à uma nascente de água natural que é encontrada no vale, que atraiu os Damaras para essa região árida, pedregosa e quase inóspita.

As gravuras são de girafas, elefantes, rinocerontes, oryx, kudus, springboks, zebras, avestruz e até focas e pinguins! Muitos desses animais não são encontrados em Damaraland, e são indícios de que as tribos nômades que se assentaram na área já tinham estado na costa e no norte do país.

A figura mais famosa é um leão com uma presa na boca, que é o único naquela área. Não existem outras gravuras de leões nas proximidades. Na verdade, o leão representa o Shaman, e essa interpretação decorre da looonga cauda com dedos na ponta e das patas que possuem 5 dedos, e não 4. Além, o guia nos disse que nos rituais shamânicos, o líder espiritual se via na pele de um leão, o que representava não só a sua liderança mas sua força.

Muitas gravuras também tinham fins educativos. Existem gravuras das pegadas diferentes de cada animal, e círculos que representam a existência de nascentes de água (perenes e temporárias) nas redondezas. Existem muitas gravuras de pés humanos também, que se supõe que seriam a “assinatura” do artista.

Fim da visita, encontramos com o Harold no estacionamento. Havíamos combinado que dariamos carona a eles até Khorixas, uma cidade que fica no caminho do nosso próximo destino: o Monte Brandberg e a pintura rupestre da White Lady. Não tínhamos como recusar carona ao cara que nos salvou e nos recebeu tão bem, maaaas verdade seja dita: acabamos enrolando mais ainda o nosso roteiro ai, rs. Não me entendam mal, eu faria tudo de novo sem nem pensar 1 segundo.

E passamos a manhã assim: Levamos o Harold de volta a casa dele e pegamos o carro dele para levar no posto/oficina para encher os galões de água da vila (lembra que não tinha torneira e água encanada mas sim galões?!) e demos carona para um pessoal no caminho. Voltamos para a vila, pegamos a Suriee e fomos para a fazenda do pai dele. Eu nem desci do carro porque estava um calor absuuuurdo, nível Rio de Janeiro, rs. O Harold deixou o carro dele lá, ficou um teeeempo resolvendo algumas coisas e enfim partimos para Khorixas. Nesse momento o Harold sugeriu, na verdade pediu, para ir para o volante. Claaaaro que aceitamos, ele tem muito mais experiência naquelas estradas e de quebra a Marília ainda ganha um tempinho de descanso para poder cochilar no caminho!

Chegando em Khorixas fomos deixar as coisas do Harold e da Suriee na casa da irmã dela e aí entramos pela primeira, e única vez, em uma favela da África (lá eles chamam de township). Lá as casas são beeeem mais precárias do que aqui, e bem menores. São construídas com tapume e pedaços de madeira e metal em geral, com só uma ou nenhuma janela. As casas das nossas favelas, de tijolo e cimento, com azulejo e acabamento são luuuuxo perto dessas. Eu tirei só 4 fotos, de dentro do carro. Não queria transformar a pobreza e vida difícil daquelas pessoas em uma “atração turística”.

Já passava de 12:30h e estávamos morrendo de fome! Então o Harold nos levou em algum lugar para almoçar. Era bem simples, frequentado pelos locais e funcionava assim: eles tinham as travessas de comida no balcão e cada porção custava NAD 10. Comemos arroz, legumes com molho (chakalaka) e frango pela bagatela de NAD 30.

Dali a uma hora nos despedimos do Harold e da Suriee (passamos o whatsapp e o facebook, rs) e pegamos a estrada de novo. Mais um dia de sol, céu azul e nuvens cênicas branquinhas. Ahhh, mas não tão rápido assim. Caaaaaalma Louise, caaaaalma, não se precipite! O dia é uma criança e tudo pode acontecer. Ainda falta um pouco de emoção para animar essa viagem!

A paisagem vai mudando aos poucos. As nuvens vão se juntando e se concentrando e escurecendo. A luz do sol diminui. São 14h da tarde, mas parece que são 18h… No horizonte dá para ver pancadas de chuva onde parece que tá caindo o mundo. Está ventando tanto lá fora que a areia do solo começa a levantar e a formar redemoinhos de poeira. Passamos por meio de uma “nuvem” de areia no meio da estrada, rezando para ela não virar uma tempestade de areia.

Lembra daquelas nuvens negras de chuva no horizonte onde estava caindo o mundo? Pois é, estávamos entrando nelas agora. Lá vamos nós! Tava caindo muuuuita chuva e o solo não dava vazão: um monte de poça começou a se formar e a tomar uma parte considerável da pista. Logo chegamos a uma poça enooorme tomando a pista toda, e de longe uma van turística parada e um cara em pé, do lado de fora, absolutamente encharcado da cabeça aos pés, fazendo sinal para a gente parar.

Chegamos devagar e baixamos o vidro. E o cara “Boa tardeeee! O meu carro não passa, mas o de vocês é tranquilo! Pode ir sem problema, sem medo! É só ir aqui pela direita bem devagar que tá tranquilo! Eu sou namibiano e estou AMANDO esse tempo! Fazem 3 anos que não chove por aqui!”. E realmente o cara estava radiante de alegria. Tava felizão se divertindo horrores encharcado tomando aquele banho de chuva. Ahh, as pequenas felicidades da vida…

Brandberg antes e depois da neblina

Eram 16:15, a chuva tinha dado uma trégua e enfim estávamos chegando ao Brandberg! Quase podíamos ver a maior montanha da Namíbia erguendo imponente seus 2.606 metros em direção ao céu, quase… Não fosse a neblina que tapava a visão toda, rs. Mas ela foi se dissipando conforme chegavamos mais perto eeeee PARA TUDO! AQUILO ALI É UM RIO? É UM RIO NO MEIO DO DESERTO É ISSO MESMO? Pooooooo, bora descer do carro! Eu PRECISO ver isso de perto!

Criança feliz vendo um rio no deserto!

Esse foi o momento mais incrível e empolgante para mim na viagem toda! A chuva tinha trazido aquele rio (e muitos outros) de volta à vida e a paisagem era absolutamente INCRÍVEL. Eu fiquei muuuuito animada. E o cheiro! Noooossa, tava um cheiro maravilhoso que lembrava canela! Thiago! Marília! Vem cá ver! Isso é lindo demaaaaaais!

Mas a diversão não pôde durar muito. Tínhamos que chegar no centro de visitação de Brandberg antes que ele fechasse às 17h. De volta ao carro, 4 pessoas de uniforme vinham caminhando na direção contrária. “Boa tarde! O centro de visitação para ver a pintura White Lady está aberto?” E a resposta: “Ihhh, com toda essa chuva ele tá fechado já. Tem que fazer uma caminhada de 30 minutos para chegar até a pintura e a trilha passa pelo meio de um rio seco. Mas com essa chuva, ele provavelmente voltou a correr de novo, então…”. Poouts, mas amanhã abre às 8h né? “Então, depende do rio, se ele estiver correndo amanhã não vai ter visitação. Você pode ficar com meu número e me ligar amanhã de manhã e eu te aviso”.

Mais um imprevisto para enrolar o roteiro. Mas tudo bem, ver aquele rio correndo no meio do deserto já valeu muuuito a pena! Vamos ficar nesse camping aqui do lado que aí a gente evita a chuva e amanhã de manhã já acordamos cedo e voltamos para ver a pintura? E o Thiago e a Marília: “Nããão, vamos para Uis, a cidade aqui perto, que lá deve ter mercado, mais opção de lugar para dormir e tals”. Mas o cara acabou de dizer que naquela direção também tem um rio, e que dependendo da chuva ele pode estar correndo de novo. Inclusive, o cara mesmo que recomendou esse camping aqui do lado. “Nããão, mas deve ser aquele que a gente passou, tava tranquilo, vamos para Uis!”. Bom, já que eu sou minoria…

Não, não tava tranquilo. Ahhh mas não estava tranquilo meeeeesmo. Veja bem, a chuva voltou a apertar e o que eram só poças na estrada viraram rios! E rios largos! Para você ver o nível da chuva que pegamos… Chegamos no primeiro obstáculo: Dois carros 4x4 do outro lado e do nosso mais uma van e dois 4x4.Eu desci do carro (debaixo da chuva mesmo) para ver essa coisa linda bem de pertinho e tirar fotos, enquanto o Thiago e a Marília esperavam. Ao mesmo tempo os gringos dos outros carros desceram também para pôr os pés no rio e avaliar se dava para atravessar ou não.

E então um namibiano, que era da outra van, começou a insistir (acho que ele estava bêbado): “Vocês podem atravessar o rio, sem problemas! Qualquer coisa a gente ajuda a empurrar! Vai lá, pode ir! A gente ajuda! Vai! Vai! Vai!”. Só que é aquilo né, embora inglês seja a língua oficial do país, não é a primeira língua da maioria da população, que é pobre e descendente das tribos nativas locais. Então eles tem um sotaque puxadinho. E o cara bêbado e falando rápido então, pouts…E foi nessa que o gringo (acho que era alemão) soltou: “Fala pra fora, seu animal, não dá para te entender” (Speak out, you’re animal, I can’t understand you).

Sério… Eu fiquei me sentindo TÃO mal com aquilo, mas tão mal… Até perdi a graça e voltei para o carro. Sério, o gringo tá ali visitando o país de outras pessoas, e o local chega super parceiro, sendo legal e querendo ajudar e o insensível do gringo faz isso. Tá, o inglês dele era carregado, mas mesmo assim cara, vamos ser mais humildes? Vamos ter um pouco de empatia, talvez? O cara não teve e nunca vai ter as mesmas oportunidades que você, mas mesmo assim ele tá aqui sendo legal e te oferecendo ajuda e você vai lá e xinga e despreza o cara? Europeu é foda, tem complexo de superioridade em todo o canto do mundo mesmo, pqp.

Enfim, ficamos uns 40 minutos ali, o nível da água baixou bastante, o primeiro carro passou e logo nós passamos também. Deu uma atoladinha de leve no meio do rio, mas nem precisamos descer para empurrar, um pouco de perseverança no volante nos tirou dali. Mais umas poças e riozinhos menores no caminho e conseguimos passar por todos, até que….

Chegamos no chefão da fase: um riozão, com uma “correntezazinha” até, correndo felizão. E do outro lado uns 15 carros esperando para passar. Todos os gringos dentro dos seus carros, e todos os namibianos do lado de fora pegando chuva e com os pés no rio. E ai, quem vai ser o primeiro louco a tentar atravessar?!

Esperamos uns 40 minutos, o nível do rio começou a baixar e alguns motoristas criaram a coragem para atravessar. E logo mais a Marília me vira e fala: “Vamos! Vamos atravessar! Eu quero tentar!”. Marília, o carro que não é 4x4 acabou de passar e ficar atolado. Você tem certeza que quer fazer isso? “Quero.” Ohh céus, lá vamos nós mais uma vez.

E não deu outra: atolamos. Logo no início: atolamos. E não é só isso: atolamos bonito. A Marília tentou e tentou, mas só atolavamos mais e mais. A água estava começando a querer entrar no carro. E aí um mooonte de namibiano veio ajudar. Sério, devia ter uns 30. Entraram no rio, se sujaram todos de água suja e lama, mas não pensaram nem duas vezes. Sério, eles são muito parceiros mesmo, pqp. A Marília até desceu do carro e deixou um cara assumir o volante. Confesso que eu fui a única que fiquei quietinha dentro do carro. Até peguei chuva antes de boa, mas afundar meus pés até a canela ali naquela lama, perder a havaiana e quiçá cortar os pés em alguma pedra?! Naaah, to passando, deixa para a próxima… Sim, fui fresca assim. D=

Os caras falavam na língua Khoekhoe (aquela dos estalos), todo mundo ao mesmo tempo e nem eles se entendiam direito… Depois de uns 10 minutos naquela labuta os caras conseguiram tirar nosso carro dali. A Marília e o Thiago contam que foi a maior festa. Todo mundo feliz, aplaudindo, se abraçando, chamando para tomar cerveja…Disseram que eu tinha que ter saído do carro, estava muito mais legal e mais bonito do lado de fora! rs

E aí foram mais uns 20 minutos de estrada com algumas poças e rios menores até a cidade. Paramos no mercado para encher nossa garrafa d’água, demos uma volta pelas 5 ruazinhas da cidade para ver as opções de hospedagem e ficamos no Brandberg Rest Camp mesmo, que custou NAD 150 por pessoa para acampar. Só fomos fazer check-in depois das 20h, para vocês terem ideia. O trajeto que deveria levar uns 30 minutos nos tomou 3 horas!

Tomamos um looongo banho quente merecido, comemos um hambúrguer no restaurante (que era bem mais barato do que todos os outros que tinhamos estado até agora) e fomos montar a barraca debaixo daquela chuvinha fina chata que não queria parar nunca. Como sempre fomos dormir cedo porque amanhã teríamos que compensar o atraso do roteiro.