(Cap. 8) 11/02 _ Indo a Swakopmund

Na estrada para Cape Cross com Brandberg ao fundo

Acordamos cedo em Uis e eu já ia ligar para o funcionário de ontem para saber se a trilha estava aberta para visitar a pintura rupestre White Lady, maaas o Thiago e a Marília estavam preocupados com o tempo, com o roteiro ter ficado apertado por causa do contratempo da chuva e decidiram que era melhor cortar a pintura do roteiro e partir logo para a próxima parada. Meeh, eu super queria ver a pintura de mais de 2 mil anos de idade, e até daria tempo de boa (nossos próximos dois dias estavam praticamente vazios de programação), mas fui voto vencido (de novo!) então partimos para a estrada em direção a Cape Cross Seal Reserve, uma colônia de focas que fica na costa do país.

Chegamos lá umas 10h da manhã e acabamos não entrando. Por quê? Bom, a moça da recepção disse que nessa época do ano, não tem tantas focas assim + a entrada custava NAD 20 a mais do que tínhamos nos programado. Aí, depois de pensarmos, achamos que poderíamos deixar esse ponto turístico de lado e partir para o próximo.

Demos O MAIOR mole da viagem aí. Pensando bem: o que são 5 reais a mais ou 5 reais a menos no final do dia, quando você já está em outro continente NA PORTA de uma das maiores colônias de focas do mundo? (lobos-marinhos, para ser precisa). Baita estupidez. Excesso de orçamento atrapalha as vezes. Maldito pensamento de mochileiro mão de vaca uhaeuhae.

Bom, pegamos a estrada para nossa próxima parada: Swakopmund. No meio do caminho avistamos umas mesinhas estranhas no acostamento da estrada. Paramos o carro para dar uma olhada: eram “vendinhas” de sal. A mesa tinha um pote de vidro para você colocar seu dinheiro, e uma “tabelinha” com os preços das pedras de sal. E elas eram enoormes, tipo quartzos de sal, com uma coloração rosada.

Andando por ali perto das mesinhas de sal encontramos a fonte delas: um lagozinho (na verdade uma salinhazinha) com a água com uma coloração verdiinha verdiiinha, com sal rosinha acumulando nas bordas. Achei esse lugar lindo DEMAIS, adorei, me lembrou as lagunas altiplânicas do Atacama

Depois de muito andar com calma e tirar fotos pelo lugar, voltamos para o carro. Ainda tinhamos mais uma parada antes de Swakop: um navio naufragado abandonado. A costa da Namíbia é banhada ela corrente de Banguela, que vem do sul e por isso é muuuuito fria. O choque térmico entre a corrente fria e o continente quente faz com que a maior parte das chuvas caiam no mar e toda a costa vira um grande deserto. Além, ela também causa nevoeiros, muuuito vento e torna as águas traiçoeiras paras as embarcações, o que, combinado com a costa desértica e desolada de difícil acesso para carros, selava o destino dos marinheiros que eventualmente encalhassem nessa região.

Ahh, a corrente também é responsável pela queda considerável de temperatura nas cidades costeiras em relação com as outras cidades mais para dentro do continente, então finalmente tivemos uma trégua do calor! Na verdade, até mais que isso: fez friooo! Pela manhã então, impossível ficar sem casaco e calça comprida. Acho que é por isso que os alemães gostam TANTO de Swakopmund. Sério, lá parece o quintal da Alemanha. A galera nem se dá ao trabalho de falar inglês direito.

Avistamos o navio naufragado ao longe e ficamos atentos para alguma entrada no acostamento para parar o carro e descer. Na primeira que vimos entramos, mas logo descobrimos que não foi uma boa ideia. Seguindo a estradinha de terra para estacionar o mais perto possível e andar menos, quando nos tocamos do que estávamos fazendo já era tarde demais: estávamos atolados nas areias fofas da praia.

SIM! DE NOVO! Maaaaais uma vez! Atolamos pela 4ª vez nessa viagem! Yeeeeey! E lá vamos nós mais uma vez! Mas claro né, os turistas “jenius” querem entrar na praia com o carrinho comum 2x4 urbano, não podia dar em outra! Oh céus…Descemos do carro e lá vamos nós, dois magrelinhos, tentar empurrá-lo. Não, não deu em nada. Neeeeem se mexeu. Se bobear atolou até mais.

Então surgem ao longe alguns caras vindo na nossa direção. Vamos esperá-los, eles vão nos ajudar! E sim, eles nos ajudaram! Acho que se não fossem aqueles 10 caras não conseguiríamos tirar o carro de lá. Bom, não tiramos exatamente. A Marília achou melhor só puxar um pouquinho o carro para trás para tirar ele do atoleiro, mas deixá-lo ali mesmo e ir ver o navio abandonado.

Mas então os caras começaram a querer nos vender coisas insistentemente, contando as histórias de vida mais sofridas possíveis. Nós três demos todos os trocados que tínhamos para eles: “Não queremos comprar nada, mas queremos ajudar”. Mas ainda assim insistiam e insistiam. Olha, a gente vai ali ver o navio e depois a gente volta. “Tudo bem, tudo bem, a gente espera vocês aqui”.

E partimos a pé na direção do navio. Ele parecia estar perto, mas andávamos andávamos e andávamos e ele não chegava nunca! A Marília e o Thiago desistiram e ficaram sentados na areia e eu continuei. Ahhhhh, mas eu não atolei o carro à toa, eu vou chegar nesse maldito navio! E como eu andei, andei e andei. Nossa, ele estava muuuuuito longe de onde a gente parou o carro. Depois que voltamos para a rodovia, passamos por um estacionamento organizado e uma placa que apontava um “mirantezinho” para observar o navio, e cara, tava beeeem longezinho de onde a gente atolou hein. Maldito deserto e suas ilusões de ótica!

Skeleton Coast 2017

Uns 30 minutos depois estávamos de volta ao carro, e os caras realmente nos esperaram. E eles continuavam querendo nos vender coisas. “Cara, não queremos comprar nada e já demos todo o dinheiro que tínhamos, sinto muito”. E insistiam e insistiam. Ai meio que perdemos a paciência, ignoramos e fomos para o carro.

Lembra que o carro ainda tinha ficado na areia, mas fora do atoleiro? Pois é. A Marília foi dar ré eeeee ele atolou de novo! OH CÉUS. E agora mesmo que os caras não iriam querer nos ajudar, já que nós não “ajudamos” eles comprando coisas. E não deu outra. O carro ficou lá afundando ainda mais na areia conforme acelerávamos e os caras ficaram só parados olhando para a gente.

Eu e o Thiago descemos mais uma vez e começamos a empurrar o carro, e aí vieram uns 3 caras ajudar. Dissemos que não precisava (até porque não teríamos como pagar ou dar nada em troca), mas eles insistiram e continuaram lá empurrando. Finalmente tiramos o carro da areia fofa, e dessa vez nos certificamos de que tínhamos REALMENTE desatolado, de verdade verdadeira, para valer mesmo mesmo mesmo.

Voltamos para o carro e os caras nos seguiram. Não só os 3 que ajudaram; todos os 10. E eles ficaram pedindo coisas e cercando o carro. Eu dei uma nota de 20 perdida para um deles e o Thiago arrumou outra de 10. Mas eles continuavam lá. “Cara, não temos mais nada!”. E eles começaram a apontar para os biscoitos e garrafas d’água dentro do carro e pedir. Demos tudo e “Chega! Não temos mais nada!”.

Finalmente voltamos para a rodovia e aí eu estava puta. Pois é. Levou 4 atolamentos e o estresse de ter um monte de caras te cercando e insistindo e pedindo e insistindo e pedindo e insistindo para eu perder a paciência. Pegar chuva no deserto estava de boa, eu estava amando ver aquele acontecimento único. Atolar no rio também, eu estava tranquila, sabia que eventualmente iríamos sair de lá de boa com todos aqueles outros carros em volta. Mas foi a insistência em cometer os mesmos erros e o estresse de um monte de gente se amontoando em volta de você e te pressionando e insistindo que finalmente quebraram minha vibe.

PQP. Vamos NÃO atolar mais? Por favor? Vamos NÃO forçar o carro em terrenos que SABEMOS que ele não aguenta? Vamos parar com essa de tomar decisões por voto da maioria e tomar decisões por voto unânime nas questões de onde entrar com o carro? (pois é, eu perdi todas as votações sobre onde deveríamos ou não meter o carro). CÉUS. Felizmente essa foi a primeira e última vez que eu me estressei nessa viagem, e logo passou…

Enfim, chegamos em Swakopmund mais ou menos 13:30. Fizemos o check-in no Skeleton Beach Backpackers (que custou NAD 170 a noite em um quarto compartilhado com 4 camas) e partimos para o centro para procurar algum lugar para comer. Mas só tinha fast-food e a gente acabou indo comer no KFC mesmo, embora estivéssemos de saco cheio de fast-food.

O almoço foi super tranquilo e sem pressa. Ficamos batendo um papo profundo sobre religião, sexualidade e escolhas de vida. E foi aí que eu soltei: “Cara, acho que há 6 meses atrás nenhum de nós NUNCA teria imaginado que estaria na África, comendo KFC e conversando sobre religião, sexualidade e a vida”. Foi um daqueles momentos que “cai a ficha” e foi bem engraçado, rs.

Depois saímos para dar uma volta no centro da cidade enquanto esperávamos o centro de informações turísticas abrir pós-almoço para pegarmos recomendações de empresas que fazem o passeio de quad-bike nas dunas da costa. E aí nas andanças conhecemos a Raquel e o Cláudio, um casal do Paraná suuuuper gente boa! Foram muito legais e simpáticos! Começamos a conversar sobre o país e a viagem, nos empolgamos, fomos levá-los para almoçar e trocar dicas de roteiro e continuar a conversa boa.

A gente e a Raquel!

Passamos a tarde com eles, depois demos mais uma volta pela cidade e voltamos para o hostel para tirar as malas do carro, tomar um banho e tentar reservar o quad bike para amanhã pela recepção.

Umas 21:30h eu e a Marília saímos para procurar um lugar para comer e nossa, foi difícil hein! Estava tuuudo fechado e a cidade toda apagada. O primeiro lugar que vimos aberto entramos! E acabou que era um lugar meio chiquezinho, daqueles com maître na porta e tudo, rs. Mas surpreendentemente os preços estavam bem tranquilos, beeem mais barato que no Etosha (sempre, rs). Sentamos para comer e pedimos uma comida para viagem para levar para o Thiago.

E cara, eu comi O MELHOR macarrão da minha vida nesse lugar que eu nem lembro o nome nem tirei foto (dei mole). Era um fettucine com salmão e abobrinha e um molho de açafrão SENSACIONAL, melhor molho da vida. E só custou NAD 80, ou seja, 20 reais, mais barato que Spoleto! Super tenho que tentar fazer isso em casa.

Voltamos para o hostel já eram quase 23h e logo fomos dormir. O dia foi bem devagarzinho e bem tranquilo, mas foi bom para descansar de todo o cansaço acumulado dos últimos dias. E você não imagina o quanto eu estava esperando para dormir em uma cama de verdade depois de tantos dias acampando! Dormi que nem uma pedra até o celular despertar no dia seguinte, rs.