A volta do parafuso, de Henry James: um exercício de interpretação
Que tal optar por uma interpretação onde a mulher é uma heroína e não uma louca? (Este texto contém spoilers do livro)
A volta do parafuso (The turn of the screw no original), ou A outra volta do parafuso, de Henry James, é um texto conhecido por sua ambiguidade. Durante a narrativa e especialmente no terço final dela, quem lê normalmente seguirá por uma das alternativas que o autor deixa em aberto. Creio que possa sim haver leitores que notaram só um dos caminhos do texto, mas acho que a graça é se pegar com a mesma sensação do extinto “Você Decide” e ficar se perguntando para que número ligar ou que conclusão vencerá no final do programa.
Mas vamos do começo. Um grupo de amigos estão contando histórias de horror, quando um dos envolvidos diz algo como “Ah, vocês acharam essa história assustadora? Pois eu vou mandar buscar uma história lá na minha casa e essa sim, essa vai assustar vocês de verdade!”. E aí sim começa a ser narrada a história que acompanhamos até o fim.
O livro é a narrativa dessa moça, que foi trabalhar como governanta numa casa longe da cidade e que deveria cuidar de duas crianças, Flora e Miles. Acontece que apesar da moça ser a protagonista desta narrativa, ela não tem nome e esta foi a primeira chave para que eu abrisse a porta da interpretação que eu escolhi. Fiquei imaginando quantas governantas sem nome não existiram e existem até hoje, portanto tratei logo de empoderar a “minha” personagem. É interessante acrescentar que exatamente por essa moça não ter nome que o livro não passa no Bechdel Test; mesmo que as personagens femininas conversem sobre assuntos variados (que não sobre homens), é necessário que ambas tenham nome.
A trama vai se desenvolvendo a partir do momento em que esta moça-governanta-sem-nome começa a ver pessoas que não deveriam estar na casa. Quando ela conversa com Mrs. Grose, a outra moça que trabalhava na casa, Mrs. Grose diz que estas descrições batem com as características de outros servos que trabalharam lá, mas que hoje estavam…mortos.
E aí começam a se bifurcar os caminhos interpretativos. Por muito tempo só a protagonista via estas pessoas. E creio que a intenção do autor era fazer o leitor se perguntar: são fantasmas ou alucinações?
Neste ponto o que me impressionou foi a forma com que a protagonista lidava com essas pessoas/aparições: ela encarava-os de frente, corria ao encontro deles para ver se descobria alguma coisa, avisava à Mrs. Grose, pensava elaboradamente o problema para poder resolvê-lo.
Comparando com a minha provável reação (sair correndo assustada e nunca mais voltar ao lugar, etc, etc) só pude admirar a postura da moça e firmar meu pé no caminho desta interpretação possível: de ler/imaginar/interpretar uma personagem forte.
Na minha leitura a moça-sem-nome era corajosa, protegeu as crianças até o fim (mesmo estas crianças sendo…duvidosas. Deixarei o mistério das crianças para quem vier a ler o livro.) e não fugiu da casa por, além de tudo, ter uma chama de detetive dentro de si.
Optar por este caminho interpretativo fez com que a história ficasse muito mais interessante para mim. Ora, eu prefiro ler um livro com uma personagem-mulher destemida ou uma personagem-mulher louca/desequilibrada? Escolhi virar na curva menos percorrida, afinal, de lugares onde se leem atitudes extremas de mulheres como loucura já basta a vida.
O livro é curto e o jogo do “será?” é muito divertido para leitores e escritores. Além deste mistério central também há várias dicas de tramas escondidas por toda a extensão da história. Indico muito a leitura.
Este texto é um presente humilde para Aline Valek, que além de me inspirar sempre, me ajudou a descobrir alguns mistérios do medium.