A "desmacumbização" e o Olodum

Belengas
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Aug 8, 2017 · 2 min read

O Simas costuma comentar por aqui sobre o processo de “desmacumbização” da música de origem negra que a indústria fonográfica brasileira projetou. Uma tática para tornar seus sons “palatáveis” a um mercado de consumo branco, elitista, que naturalizou a inferiorização daquilo que vem dessa origem, forçando essa percepção inclusive para os filhos dela. Esse processo que aos poucos inibiu a força do tambor, tem como epítome de chegada a Bossa Nova que, decodificada pelo pessoal da Zona Sul, sintetizou diversos códigos comuns à percussão em um ritmo pautado pelo violão.

Exemplo símbolo desse processo está na comparação das gravações de Cartola de “Quem Me Vê Sorrindo”. A primeira de 1942, na experiência do Maestro Leopold Stokowski e sua coletânea “Native Brazilian Music” é macumba pura. Na segunda de 1974, no clássico disco da Marcus Pereira, a participação do tambor é coadjuvante entre os outros instrumentos.

Cortemos a cena pra década de 80, Salvador. Após a chegada do Ilê Ayê em 74, resultado de uma amálgama entre a influência dos movimentos de resistência negra que pulsavam no exterior, a necessidade de se gritar contra uma ditadura e o reflexo cultural da independência dos países da África na década de 60, outros blocos se espalham pela cidade cantando de sua forma o seu orgulho. Entre eles o Malê Debalê, o Muzenza, o Araketu, o Badauê e o mais famoso deles, o Olodum. Em 1987, o bloco do Pelourinho, lança seu primeiro disco pela Continental, o clássico “Egito Madagascar”.

Sua música mais famosa é “Madagascar Olodum”, gravada no duro, sem qualquer outro instrumento que não os tambores comandados pelo Mestre Neguinho do Samba. Paralelamente, só que em outra gravadora, a EMI, a popular Banda Reflexu’s lança seu primeiro disco, um dos marcos inaugurais do Axé Music como produto de exportação musical da Bahia. Grava uma versão da mesma música (tão boa quanto, veja bem) calcada em instrumentos eletrônicos que deixam a percussão no segundo plano. O amigo seguidor deve imaginar qual foi mais consumida. Uma pista, jogue o nome Madagascar Olodum + Chacrinha no search do Youtube.

(Texto originalmente publicado no Facebook dia 21/07/2018)

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    por Lucas Prata (Caju, @lpfortes) Para derivados de música brasileira: www.dicaju.com