Quantos Rios cabem em dois minutos?

O arrebatador momento em que o Agnaldo carregou a tocha olímpica ontem a noite passou muito rápido. Quase não vi a chama carregada pelo nosso herói em meio a confusão estabelecida. Nada que me fruste, pois a sensação de alegria ao abraça-lo na chegada instantes depois no Sat’s valeu mais que o registro efetivo da condução.

Aqueles dois minutos, porém, me parecerem muito maiores hoje quando, por mais incrível que isso possa parecer, minha razão entrou no espaço da emoção de ontem. Me deparei com a cidade-terreiro-potência escancarada. Em dois minutos tava (quase) tudo entrelaçado naquela tocha segurada pelo nosso querido cearense.

Ali estava o Rio nordestino, do “paraíba” que migra em busca de sustento, que trabalha, sofre, se fode, mas mesmo assim se conduz adiante. Ali estava o Rio batalhador, do camarada que fica 12h em labuta insalubre pra agradar do grego ao troiano com uma paciência de deixar jó com inveja e ainda tem que aguentar ônibus abarrotado e zona de conflito para chegar em casa. Ali estava o Rio gaiato, da piada sobre o acaso, que faz uma ideia de bêbado virar enredo em jornada de herói. Ali estava o Rio boêmio, afinal chopp, churrasco e resenha são os combustíveis para o mundo e a descompressão possível para sua constante tensão. Ali estava o Rio do protesto, vide os Fora Temers e o abraço que a esquerda (festiva, efetiva, infantil, madura, cirandeira ou o caralho) teve com o caso. Ali estava o Rio da truculência policial, já que o aparato de proteção para uma parada que se vende como festa é digno de susto e quase tirou nosso personagem do sonho. Ali estava o Rio do assalto, vide que no bololô desapareceram carteiras e celulares feito mágica. Ali estava o Rio da favela, de quem, mesmo na ausência de quase tudo, se faz fértil, afinal foi para o David do famoso bar do Chapéu Mangueira que o Agnaldo passou o fogo. Ali estava o Rio do afago e reconhecimento, a rara afeição com aquele que serve, processo empático que tornou um ser homenageado no reflexo de muitos outros. Ali estavam se encontrando os polos do grande conflito conceitual que a cidade hoje vive: a tal carioquice que nasce da original espontaneidade intrínseca a sua vivência versus sua apropriação como discurso de validação a uma cidade-evento que artificializa a tudo que toca.

Acima de tudo, ali estava a rua, o espaço de reinvenção e resistência de uma cidade que há 451 anos teima em existir.

E foram só 2 minutos.

(Texto originalmente publicado no Facebook no dia 05/08/2016, uma semana antes do início dos Jogos Olímpicos de 2016)

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