Essencialismo: A Disciplinada Busca Por Fazer Menos e Alcançar Mais — Parte 1

Hoje em dia, existe um sentimento coletivo de que todos nós deveríamos preencher todo nosso cronograma com tarefas, fazendo o máximo possível para expandir nossos horizontes e melhorar nossas vidas. Na era da abundância, sentimos como se precisássemos ter e fazer tudo o que aparece a nossa frente.

Contudo, essa atitude vai contra um fato incontestável: não podemos fazer tudo. Ao invés disso, o que deveríamos estar tentando fazer é pensar no que é essencial para nossa vida e para o nosso bem-estar, e nos comportar de acordo com isso.

Pensando nessa ideia, o escritor Greg McKeown publicou em 2014 o livro “Essencialismo: a Disciplinada Busca por Menos”, que rapidamente se tornou um best-seller, sendo considerado em 2015 o livro número 1 de vendas, na categoria de gerenciamento de tempo, na lista da empresa Amazon.

Nesse artigo, portanto, meu intuito será examinar algumas das ideias defendidas no livro para você que você entenda alguns pontos, como:

  1. Qual o mindset defendido no Essencialismo;
  2. Porque você sempre possui escolha, mesmo quando acredita que não tem;
  3. Qual o método de redação de um dos maiores escritores no mundo, e qual o vínculo disso com o seu dia a dia;
  4. Como Steve Jobs salvou a Apple da falência, e qual a relação disso com você e com a mentalidade essencialista.

Então vamos lá!

As Três Verdades do Essencialismo

Assim como a maior parte das grandes metodologias de Produtividade Pessoal e Alta Performance, a aplicação do Essencialismo se inicia com uma mudança de mentalidade, que, por sua vez, serve de base para a nossa mudança de comportamento.

O método defende a existência de três grandes mitos, ou suposições, que fazem parte da nossa vida, e que nos distanciam da vida que queremos. Essas três suposições precisam ser substituídas pelas três “verdades” defendidas no método, que podem te levar para uma vida com altos níveis de contribuição e realização. Os mitos e verdades são:

Mitos Verdades Tenho que fazer Eu escolho fazer Tudo é importantíssimo Apenas algumas coisas realmente importam Consigo fazer ambos Eu posso fazer qualquer coisa, mas não todas as coisas

Para facilitar sua compreensão, cada um dos mitos e verdades é descrito com mais detalhes abaixo.

Verdade 1 — A capacidade de escolher não pode ser dada nem tirada; só pode ser esquecida

Em 1967, os psicólogos americanos Martin Seligman e Steve Maier iniciaram uma pesquisa buscando entender as bases da depressão, mas chegaram em um experimento que serve de base para o que chamamos hoje de “Impotência Aprendida”.

Basicamente, o experimento foi realizado com cães da raça pastor alemão, que foram divididos em três grupos:

Grupo 1: Cães eram colocados na coleira e mais tarde eram soltos;

Grupo 2: Cães eram presos pela coleira, e então levavam choques elétricos em tempos aleatórios, mas podiam pressionar uma alavanca para que os choques parassem;

Grupo 3: Cães eram presos pela coleira, e então levavam choques elétricos, mas não possuíam controle sobre quando os choques paravam.

Em seguida, os três grupos foram colocados em um cercado, onde havia uma divisória baixa delimitando uma área que dava choques, e a outra área que não os disparava. Para que os cães escapassem dos choques no cercado, era apenas necessário que os cães pulassem a divisória para a área onde estariam salvos.

Os resultados foram que cães dos grupos 1 e 2 aprendiam rapidamente o que precisavam fazer para escapar dos choques, mas os cães do grupo 3, que já haviam aprendido que não podiam escapar dos choques, simplesmente permaneciam deitados no cercado passivamente levando choques. Em outras palavras, cães do grupo 3 tinham aprendido a permanecer impotentes.

Você se sente impotente?

Agora, você acha que seres humanos também aprendem a permanecer impotentes? Pode apostar que sim!

Conforme descrito no artigo “O Eterno Conflito: Como Encontrar o Equilíbrio entre a Vida Pessoal e Profissional?”, de acordo com algumas pesquisas, 97% do executivos checam e-mails durante seu período de descanso, e 61% dos funcionários estão dispostos a trabalhar, mesmo que pouco, durante suas férias.

Embora existam pessoas que são genuinamente apaixonadas pelo que fazem, eu acho difícil de acreditar que números tão expressivos como esses sejam provenientes de amor pelo trabalho. Ao meu ver, o único motivo pelo qual tantas pessoas trabalham fora do expediente é porque se esqueceram que possuem uma escolha.

Para um essencialista, o poder de escolha não pode ser dado, nem retirado. Além de reconhecer que sempre possui uma escolha, o essencialista celebra seu livre-arbítrio, e não fornece a permissão para que as outras pessoas escolham por ele.

Verdade 2 — O Essencialista pensa que quase tudo não é essencial

Em 1971, um escritor muito jovem se graduava em jornalismo na Universidade de Northwestern. Ele passou os primeiros 13 anos de sua carreira escrevendo profissionalmente e em 1983 publicou seu quarto livro “The Armageddon Rag”, que na época foi um fiasco.

Durante a década de 80, ele começou a trabalhar com scripts para séries televisivas. Trabalhou nos seriados “The New Twilight Zone” e “Beauty and the Beast”, sendo que ambas as séries foram canceladas.

Ao ser praticamente demitido, voltou a escrever obras de ficção, e cerca de duas milhões de palavras depois, George R.R. Martin se tornou famoso ao escrever a série de livros “Crônicas de Gelo e Fogo”, que deu origem ao seriado “Game of Thrones”, série recordista de indicações para o prêmio Emmy (principal prêmio da televisão americana).

O que é surpreendente, contudo, não é exatamente o quão bom os livros são, mas a maneira com Martin escreve seus livros. Ele escreve em um programa que a maior parte das pessoas (inclusive eu) nunca ouviu falar: o “WordStar 4.0”.

Imagem da tela de um computador com WordStar 4.0

Martin escreve em um computador sem internet, redes sociais, aplicativos ou outras distrações. Pense por um momento que o escritor que praticamente vende mais livros no mundo trabalha em um computador que não consegue nem mesmo enviar um e-mail.

O Poder do Essencial

Frequentemente pensamos que precisamos de mais e mais para termos sucesso. Precisamos de mais dinheiro, de mais programas e aplicativos para otimizar nossa produtividade, de mais clientes, de mais contatos, mais carros e mais cartões de crédito.

Mas talvez, o que realmente precisamos é de menos. Talvez, o que precisamos é de menos distrações, menos tarefas, menos compromissos e mais foco naquilo que realmente importa e impacta o nosso dia.

Um essencialista reconhece que poucas coisas são realmente essenciais na sua vida, e investe seu tempo, dinheiro, energia e foco naquilo que realmente faz a diferença no seu bem-estar. Em suma, um essencialista avalia mais, para que assim acabe fazendo menos.

Verdade 3 — É preciso perder para poder verdadeiramente ganhar

O ano era 1997, e Steve Jobs acabava de assumir à presidência da Apple, empresa que ajudou a criar, mas que havia deixado em 1985. Durante essa época, a Apple era uma empresa completamente diferente da que conhecemos hoje, e estava a menos de 90 dias da falência, tendo perdido cerca de 1,04 bilhões de dólares naquele ano.

A empresa possuía diversos produtos, muito estoque, mas poucos clientes. Juntamente com a produção de computadores, a Apple manufaturava câmeras digitais, impressoras, servidores, consoles para televisão e tocadores de CD. Além disso, investia fortemente em uma plataforma chamada “Newton”, a qual consistia em um assistente digital pessoal com sistema de reconhecimento de escrita.

Na época, após assumir a presidência, Jobs concluiu que a Apple havia perdido totalmente o foco, e que estava jogando no mercado múltiplas versões de cada produto por mero impulso burocrático, sem pretensões de chegar ao topo em qualquer linha de produtos.

A solução, portanto, foi finalmente anunciar um basta em uma reunião realizada em setembro de 1997 para o conselho da Apple, e voltar a linha de produção da empresa apenas para 4 produtos, sendo 2 para uso em empresas e 2 para consumidores. A diretoria resistiu, mas nunca votou a nova estratégia. Entretanto, como Jobs estava no comando, ele apenas seguiu em frente.

Verdades e Consequências

A Apple perdeu nesse ano mais de 3 mil funcionários, e precisou deixar que outras empresas como a HP (impressoras) e Kodak (câmeras fotográficas) tomassem conta do mercado. A plataforma “Newton” também deixou de ser projetada, o que foi uma decisão estratégia para o que Jobs descreveu mais tarde como:

“Ao parar de fabricá-lo, liberei alguns bons engenheiros, que puderam trabalhar em novos aparelhos portáteis. E mais tarde conseguimos acertar quando passamos para os iPhones e o iPad”.

De forma alguma os produtos desenvolvidos pela Apple foram jogados no lixo, sendo que muitos deles serviram de base para o desenvolvimento da câmera do iPhone, Apple TV, Siri, e assim por diante.

Contudo, o que é claro, é que essa capacidade de concentração salvou a Apple, que ao final do primeiro trimestre de 1998 teve lucro de 45 milhões de dólares, e um fechamento do ano fiscal com lucro de 309 milhões.

A lição de Steve Jobs

A lição entendida por Jobs é que muitas vezes precisamos perder em algumas áreas para ter grandes ganhos em outras. De forma alguma a Apple conseguiria se reerguer se continuasse com a mesma estratégia de produção. Como se vê, essa é uma péssima estratégia para empresas, e como você pode imaginar, também é péssima para pessoas.

Você já passou algum tempo com alguém que está sempre tentando colocar mais uma tarefa no cronograma? Pessoas que concordam em entregar um relatório na sexta-feira, mesmo já tendo outro grande prazo para o mesmo dia? Pessoas que precisam estar em uma reunião daqui 3 minutos, mas ainda assim param para responder alguns e-mails? Pessoas que marcam compromissos com você, mas você já sabe que nunca chegam no horário?

Pois é, essas pessoas ignoram a lógica de que precisam perder, ou deixar de fazer algumas coisas, para fazer bem algumas outras. Permanecem, sem perceber, na falsa lógica de que conseguem fazer ambos. Inevitavelmente, acabam perdendo prazos, se atrasando para reuniões e perdendo a sua confiança no que se refere a construir um bom cronograma.

O reconhecimento de que podemos fazer qualquer coisa, mas não todas as coisas, faz parte da vida de um essencialista. Perder, ou deixar passar, uma “oportunidade” para ganhar algo ainda maior em troca é uma estratégia normal, e que deve ser adotada de forma ponderada, deliberada e estratégica.

Considerações Finais

Embora a mentalidade de um essencialista possa parecer simples, colocá-la em prática é um tanto complicado, principalmente porque algumas ideias — e pessoas que defendem fortemente essas ideias — constantemente tentarão te puxar para a lógica não essencialista.

No próximo artigo, discutirei de forma abrangente quais são os 3 passos que Greg McKeown defende para a aplicação do método. Enquanto isso, se alguma das ideias aqui defendidas fez sentido para você, estou curioso para saber o que você pensa sobre o assunto. Deixe nos comentários a sua opinião, e terei o maior prazer em ler o que você tem a dizer!


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Esse post apareceu originalmente em lpprodutividade.com.br

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