Cortinas

Faz aproximadamente um mês que eu me mudei para esse apartamento.

Com os preços altos e a falta de oportunidade no mercado tive que substituir minha habitação por uma menos luxuosa e em uma localização um pouco mais afastada - não se engane, quando falo em luxo me refiro a possibilidade de ter a cama onde durmo em um quarto separado do fogão e micro-ondas. O apartamento, se é que posso ter a pretensão de chamá-lo assim, é de uma porção individual, o tipo de quarto/sala que pode ser habitado por uma pessoa só, que de preferência não seja muito alta. Consegui alugar já mobiliado com aquele tipo de armário embutido feito de MDF que até os cupins tem nojo de habitar. Minha janela (sim o apartamento tinha uma janela!) fica no vão do prédio e dava de frente para a janela do apartamento do prédio adjacente. Tinha a distância suficiente para não se distinguir direito o interior do apartamento no escuro mas não o suficiente para dispensar cortinas, que estranhamente foram levadas pelo antigo morador.

A primeira semana foi ótima, decorar um apartamento, por menor que seja, sempre é um momento eufórico de expectativas e disposições para um futuro brilhante. Mesmo que no final do dia eu sentisse que as paredes estavam grudadas na minha pele, nada poderia poderia me abalar.

O único problema era aquela maldita cortina que não pude comprar. Em meio a tantos gastos e investimentos tive que deixar a minha privacidade de lado por mais um tempo. Consegui até improvisar com um cobertor e fita adesiva um bloqueio para a luz do prédio me incomodava duranta a noite. É claro que em pouquíssimos dias essa minha obra artística acabou sedendo a pressão do tempo e umidade, violando minha privacidade. Por fim cedi ao velho ditado, “o que não tem solução, solucionado está” e resolvi abraçar o mundo exibicionista dos descortinados. Não mais seria acorrentado pelos grilhões do pudor impostos pelo sociedade e viveria livre abraçando essa nova experiencia desavergonhada. Todo esse discurso sobre transparência servia apenas de máscara para meu íntimo desejo de ser protegido por uma fina camada de tecido esvoaçante.

Como primeiro passo da minha resolução resolvi me debruçar na janela a admirar a maravilhosa vista do meu apartamento, o paredão do prédio vizinho. É impressionante como podemos achar beleza em pequenas coisas quando prestamos atenção, as rachaduras na parede, as pequenas plantas que nascem entre as junções do cimento, o rato que passa correndo pelo pátio e me faz lembrar de nunca mais tirar o balde de cima do ralo. As pequenas coisas que fazem a vida mais bela. Também havia a janela do meu vizinho que, aparentemente, compartilhava do meu estilo de vida sem cortinas. Deixei a visão vagar e acabei me focando no centro da janela dele, onde pude distinguir duas silhuetas viradas para a fora. Aparentemente meus companheiros de bairro também gostavam de admirar as maravilhas arquitetônicas de nosso prédio, mais um ponto em comum. Acenei para meus futuros novos amigos porém não obtive resposta, aparentemente essa amizade estava fadada a um futuro mais distante. Depois de mais alguns minutos de contemplação e puro êxtase existencial resolvi voltar para minha cozinha/quarto e preparar meu delicioso jantar, macarrão instantâneo.

A realização de que meus companheiros de janela existiam foi muito reconfortante, afinal, achava que estava só nesse andar pois nunca via as luzes deles acesas. Isso era algo que me incomodava, como duas pessoas podiam morar naquele breu por tanto tempo? Desde o dia que cheguei aqui não lembro de ter visto as luzes ligadas. Lembro de algumas vezes, quando eu estava cozinhando a altas horas, conseguir ver uma leve claridade amarelada vir daquele corte na parede, mas apenas isso. Será que tínhamos horários tão diferentes? Não seria muito difícil alguém que mora nesse prédio ter que se aventurar em empregos noturnos, aqui todos estão tentando se manter na melhor e muitas vezes única maneira possível. Isso também explicaria o motivo pelo qual eles se apegam tanto aos últimos raios de luz solar através de sua janela. Antes de saírem e depois de se arrumar vão absorver o que o nosso astro resplandecente tem a oferecer. Mas quanto mais eu os via, menos eu achava que estavam admirando as últimas fagulhas do dia. Na verdade comecei a ter cada vez mais certeza que eles estavam olhando diretamente para minha janela, ou pior.

Essa minha desconfiança deu seu primeiro ensaio de existência durante uma noite em que eu cozinhava em meu apartamento e a luz caiu. Rapidamente peguei meu celular e utilizei a lanterna para iluminar o recinto e verificar se estava tudo OK. Aparentemente a queda de luz era no prédio inteiro, talvez até o bairro pois não via luz alguma vindo da janela, janela essa que tive dificuldade em encontrar em meio a escuridão. Quando finalmente cheguei a sua borda e olhei para fora tive um grande susto. Do outro lado, na janela de meu vizinho os dois moradores estavam parados, assustadoramente imóveis assim como eu e envoltos em uma luz branca, surreal. Parecia uma aura que recobria e ofuscava o centro do contorno deles, lembrava algo familiar, algo que eu já havia visto em algum lugar, uma lanterna. Assim como eu, estavam tentando se achar no escuro utilizando algo para iluminar o ambiente e acabei me assustando a toa por toda situação. Mesmo assim, desde aquele dia eu venho nutrindo um sentimento ruim toda vez que olho pela minha janela, e quanto mais eu olho mais eu vejo eles parados olhando para fora, olhando para mim. Mesmo olhando com atenção não consigo definir os contornos, feições ou até mesmo o gênero de meus vizinhos. Por muito tempo me perguntei se realmente estava vendo alguém do outro lado ou era tudo um truque de luzes e sombras e minha mente ávida por achar padrões conhecidos projetando formas humanas em cabides e casacos. Deveria ser só isso. Mas eu não entendia de onde vinha a luz daquele apartamento, porque ligaram uma lanterna lá, porque de uma hora para outra eu comecei a sentir um frio na espinha toda vez que olho pela janela?

Faz aproximadamente um mês que eu me mudei para esse apartamento, fazem algumas semanas que notei a existência de meus vizinhos, fazem alguns dias que a visão deles me incomoda e algumas horas que decidi ir até aquele apartamento. Meu plano é simples, para acalmar minha mente e poder ter uma tranquila noite de sono, eu irei visitar meus vizinhos, me apresentar e findar esse medo infundado, quem sabe até seremos amigos. Peguei minhas chaves, meu celular e fui até o prédio deles. Como habitávamos torres diferentes tive que descer até o primeiro andar e subir novamente as escadas até chegar no andar correto. Logo que entrei no prédio percebi como ele estava em pior estado que o meu, as paredes tinham pontos onde se via o cimento e as portas estavam inchadas e descascando. Claramente o aluguel deveria ser mais barato aqui, o que era estranho pois não ouvi ninguém nos corredores. Era muito comum ouvir as famílias gritando e conversando alto pelos corredores que pareciam projetados para ecoar os sons ao invés de diminuí-los. Em alguns andares ouvia uma televisão solitária ou um rádio estridente, mas nenhuma conversa. Era como estar entrando em um prédio abandonado onde o único som vinha de aparelhos teimosos que não sabiam a hora de ficar em silêncio. Quanto mais subia as escadas mais silencioso e sujo os corredores ficavam, algumas portas tinham sacos pretos de lixo que, estranhamente, exalavam um cheiro floral doce. O andar de meu possível vizinho era o mais silencioso e cheiroso de todos. Procurei a porta equivalente a minha posição e procedi em bater três vezes, da maneira mais amigável possível. Enquanto esperava a resposta percebi, assim como as outras, a porta estava desgastada e inchada, consumida pelo tempo. O olho mágico sofria de catarata com uma fina camada branca recobrindo sua lente e o tornando menos que útil. A maçaneta estava amassada e, como todo o resto do prédio, desgastada pelo tempo. Ninguém me atendeu. Resolvi bater menos amigavelmente utilizando mais vigor em minha ação, não tinha subido todos aqueles lances de escada para não ser ouvido. Na terceira batida acabei sendo enfático demais e devo ter quebrado a fina camada de madeira velha que segurava a porta, pois ela abriu com um ruidoso estalado. Pensei seriamente em sair correndo e nunca mais voltar, nesse momento o ideia de ter que pagar o conserto da porta me assustava mais do que qualquer pessoa que pudesse estar do outro lado dela, mas isso seria uma atitude muito vil, principalmente com alguém que aparentemente sofria financeiramente tanto quanto eu. Poderíamos dividir o valor da porta e formar um verdadeiro laço de amizade, ou quem sabe ninguém vivesse mais naquele apartamento e nenhum mal tivesse sido feito. Voltei para a porta e discretamente bati no centro dela mais uma vez, batida essa que fez com que a mesma abrisse quase que completamente. O apartamento em frente tinha praticamente o mesmo tamanho e proporções que o meu, na realidade acredito que eram réplicas espelhadas. Da porta podia ver quase tudo, e pude perceber aquela semelhança alienígena quando vemos algo que é muito parecido e ao mesmo tempo completamente diferente de algo que se conhece. Os móveis tinham uma disposição irregular, na verdade eles quase não existiam, por isso o espaço era ampliado e distorcido. Pelo estado geral do ambiente, era difícil imaginar que tipo de pessoa habitava aquele apartamento. Porém, dentre eles, o móvel que mais me chamou a atenção foi o que se encontrava diretamente em frente a janela, que como a minha, não tinha cortinas. Um grande espelho com molduras de madeira entalhada repousava virado para fora, seu tamanho era suficiente para cobrir toda a janela e, quem sabe, confundir quem olhasse de fora para cá.

Todo esse tempo estive vendo uma ilusão, meu próprio reflexo, era tudo um jogo de luz e sombras. Por isso meu suposto vizinho só ligava a luz quando eu tinha a minha acesa e por isso via uma lanterna na mão deles enquanto carregava a minha. Pensando sobre os movimentos que acompanhava de minha janela seguiam o padrão dos meus e quando algo saia para fora do enquadramento reflexivo dessa peças, como um aceno, eu não enxergava. Esse apartamento esteve vazio por muito tempo, tudo que havia aqui era um espelho velho que duplicava a minha imagem refletida do outro lado do prédio. Decidi ir até a frente dele para dar uma boa olhada nesse objeto que me encheu de medo nos últimos dias. Em frente a ele eu não conseguia notar nenhum defeito em sua superfície e muito menos algum tipo de duplicação de imagem. Talvez seja algo que só se percebe a distancia, quanto mais longe mais desconectadas as imagens seriam. Andei até a janela e olhei em direção ao espelho, porém não vi nada. Talvez estivesse sendo pessoa muito precipitada, no fundo dos meus olhos vi a minha janela refletida, mas tinha algo diferente. Me virei para ver com mais claridade e sem mediadores porém não vi nada de diferente, apenas meu bom, não tão velho e pequeno apartamento. Toda a loucura desse último mês não passava de uma ilusão criada pela minha cabeça. A prova final para por minhas ansiedades em cheque havia sido dada e a jornada terminado em sucesso, conquistei minha liberdade quando confirmei o que já sabia dentro de mim, era tudo um jogo de luz e sombra. Me virei e andei em direção a porta com a confiança inflada, apenas para tê-la roubada de mim. Naquele momento em que me desloquei em direção à saída vi pelo canto do olho minha janela refletida no espelho e dentro dela uma sombra alta e claramente humanoide, a mesma sombra que parecia vir desse apartamento, a mesma sombra que, por mais eu eu tentasse fingir que não reconhecia, não acompanhava meus movimentos refletidos, a sombra que esteve dentro do MEU apartamento esse tempo todo. Dessa vez ela não estava acompanhada e seu tamanho era descomunal parecia aumentar a medida que eu a observava. Ainda não conseguia distinguir seus olhos, mas sentia a intensidade da sua visão queimando minha pele. Essa situação que não poderia se tornar pior, se agravou. Quase que como resposta ao meu esclarecimento quanto a sua presença a forma que se manteve estática por tanto tempo se moveu, seu tamanho continuava aumentando e a silhueta humana era perdida aos poucos a medida que membros esquálidos se desprendiam do corpo principal. O movimento era rápido, intermitente e narcótico, como o segundeiro de um relógio. Ela esteve encolhida esse tempo todo para caber dentro do meu apartamento, e agora estava se abrindo e saindo pela janela.

Saí correndo em direção ao corredor com o único intuito de me distanciar desse ambiente e me livrar de qualquer memória desse ocorrido. Na metade do caminho mais uma vez tive a ação interrompida, refletido no vidro da escadaria eu vi uma sombra alta subindo as escadas lentamente.

Faz aproximadamente um mês que eu me mudei para esse novo apartamento. Entreguei o anterior para o dono com todos os poucos pertences que tinha dentro dele e planejei nunca mais voltar para aquele bairro na minha vida. Agora tenho grandes cortinas pesadas em todas as janelas e apenas um espelho pequeno no banheiro que cubro com a toalha quando não estou o utilizando. Nunca comentei com ninguém sobre o acontecido em meu antigo apartamento e aos poucos tento me convencer que tudo aquilo foi apenas um jogo de luz e sombra.