Histórias de fantasmas devem ser lidas pela manhã

É tudo mentira, mas para que se arriscar?

Missa dos Mortos, ilustração de Jô Oliveira

Ontem à noite, depois de ter botado meus três patinhos para dormir, inventei de ler Missa dos Mortos, uma história de medo contada por Câmara Cascudo. Até pensei em lê-la para as crianças, mas como estou negociando com elas a redução de visitas noturnas à minha cama, acabei decidindo que ainda não era o momento. Então li Missa dos Mortos só para mim mesma.

João Leite, dizia a história, tinha sido enjeitado com horas de nascido. Tornara-se sacristão da Igreja das Mercês havia muitos anos.

As noites de Brasília têm sido muito frias, então eu estava com a cabeça coberta pela colcha enquanto lia a história. Ao continuar a leitura, me deparo com o seguinte trecho: “A noite era fria e João Leite estava com a cabeça coberta para esquentar-se melhor”. João Leite estava que nem eu, varado de frio, pensei. Ele então “ descobriu-a (a cabeça) e abrindo os olhos viu claridade”.

Nesse instante, tive a impressão de escutar um barulho lá fora. Eu moro em casa e, em casa, a gente sempre tem mais medo de ladrão do que em apartamento. Mas dizem que ladrão estuda o lugar que vai assaltar, e que sabe de antemão tudo o que vai encontrar por lá. Então me tranquilizei ao pensar que minha casa não tem nada de muito valor que possa interessar a bandido. Não tenho jóias, cofre, nem televisão.

Volto à saga do sacristão João Leite. Quando viu a claridade, ele pensou: “Seriam ladrões? Mas a Igreja era pobre e qualquer ladrão, por mais estúpido que fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não dispunha de prataria, e qualquer outra coisa de valor mercantil”.

Nessa hora, achei melhor parar de ler o conto, porque já estava ficando muito tarde. Eu acordo cedo, às seis horas, e já eram quase onze horas. E, bem, eu não sou uma pessoa sugestionável, mas o conto havia adivinhado com exatidão duas coisas que estavam acontecendo comigo, e como eu não queria que mais coisas do conto acontecessem comigo, achei melhor ir dormir logo.

No dia seguinte, pela manhã, interrompi rapidinho meus afazeres para terminar de ler a história. João Leite foi até a igreja e, ao chegar lá, encontrou um padre celebrando a Missa. O sacristão estranhou a nuca do padre, muito branca.

Quando o padre se voltou para dizer Dominus Vobiscum, João Leite viu que era uma caveira que ele tinha no lugar da cabeça, e viu também que, de pé, os assistentes não eram mais que esqueletos vestidos, e que a porta do cemitério estava totalmente escancarada.

Era esse o desfecho. Ao final, a história me pareceu doce, inocente, infantil. Tinha uma pureza singela, a voz do homem do campo e a ingenuidade tão comum às tradições do povo brasileiro.

Sou muito mais corajosa de manhã do que de noite.