Lembrete do meu desespero e prisão

Enquanto todos os demais objetos espalhados nesse cômodo extremamente claro, em que agora me vejo posto mal sabendo diferenciar de que específico e lustroso cômodo se trata, distorcendo suas próprias imagens sob e com a luz flutuante e prateada do sol atravessa os vidros manchados de respingos de tinta, a única coisa que vejo claramente e concreta é o caminho cego turbulento quente e úmido que me leva desprevenido para dentro dos seus aconchegantes braços compridos morenos que surpreendentemente quando me vejo num futuro próximo ou num sonho qualquer finalmente abrigado o peito que se engana no abstrato de todas as utopias que se seguem construindo sem remorso na minha imaginação aquece de dentro pra dentro, implodindo a si mesmo e me transbordando em lava calor e esse sentimento que pisa sobre os meus ossos enquanto grito e sorrio e peço por favor que o amor seja constante e não conheça o silêncio na mudez dos dias em que os meus olhos fitam atônitos o que não tem reflexo no inverso do fundo da minha pupila. Tudo isso que é concreto e vai se aglomerando pelos corredores dessa casa que não reconheço e que agora ando com os pés descalços, conhecendo manso a frieza da porcelana encardida, desbravando, interno, todas as vozes que dizem os seus jeitos. É que vozes, por si, e você, são um imenso dessa chama que mora intrínseca na ardência de quando o sentido se faz consciente e é aí que o corpo todo esculhambado por essa paixão — deus do céu, escrevendo agora, com essa palavra que atravessa a minha fronte eu me envergonho penosamente das faltas todas cometidas na ausência perigosa de atos que me ponham um passo além do sofá e do início e alguns centímetros mais perto da ponta dos meus pés encontrar os seus. Da sacada disforme — que imagino agora ser uma sacada pois uma brisa suave atravessa a clareza do ar e encosta sóbria na minha pele que reage em arrepios e gritos de luxúria — enxergo trançadas na minha ideia todas as suas palavras malditas de carinho e engulo densas as minhas, tirando da minha voz os alicerces, dos meus músculos toda a força: vejo a mim mesmo sendo esquecido ecoando na minha consciência.

Quando me vejo perdido e sem reflexo pela luz que toma o mundo todo que me cerca, sigo o devaneio construído que me leva direto e confortavelmente aos laços firmes dos seus dedos e dos meus.

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