Bilbo e eu.

Como (quase) todo bom fã de J. R. R. Tolkien, fui introduzida em seu universo com a leitura de O Hobbit. Sim, eu sou mais uma dessas que foi profundamente cativada pela história, os personagens, e seu universo, me tornando uma grande admiradora do autor. Mas isso não vem ao caso.

O lance, é que por eu ter sido cativada pela história e pela própria persona do Bilbo Bolseiro, vez ou outra, me pego relembrando algumas coisas da trama.

A verdade, é que eu e ele temos bastante em comum. Mas, o que me veio a memória, foi a mistura familiar um tanto quanto peculiar, que fez toda a diferença na vida dele. E que representa um conflito atual meu, de uns tempos pra cá.

Antes que me torne enfadonha (como todo bom fã de Tolkien), farei um breve esclarecimento sobre a família do Bilbo.

Bilbo Bolseiro é filho de Bungo Bolseiro e Beladona Tûk. Serei direta, ciente do risco de ser reducionista: as características de um Bolseiro legítimo se traduzem no trecho abaixo:

“Nós somos gente simples e acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para o jantar! Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas.” O Hobbit: “Uma festa inesperada,” p. 4

Como podemos ver, o Bolseiro legítimo tem prazer na acomodação (no bom e no mal sentido). Aprecia estar em casa, fazer o maior número de “desjejuns” possíveis, e de preferência sem atrasos. Gostam da vida tranquila, e não se prestam a longas viagens ou experiências que os prive de cultivar a paz e a ordem de sua vida devidamente organizada. Consequentemente, eles são vistos como medrosos e previsíveis.

Porém, Bilbo não tem apenas raízes “Bolseiras”. Existe um elemento X: sua mãe Beladona Tûk, era uma impetuosa moça Hobbit que passou seu espírito Tûk aventureiro ao seu único filho.

Sem mais delongas, é o lado Tûk de Bilbo que o impulsiona em “Uma Jornada Inesperada” e o faz vivenciar coisas que jamais imaginava, porém, sem nunca deixar de ser também um velho Bolseiro.

O que quero dizer? Minha vida, e quem sabe o de muitas pessoas, é repleta dessa dualidade esquisita: um forte desejo de organização e rotina, convivendo com um espírito aventureiro que muitas vezes parece adormecido.

Obviamente tal dualidade gera conflitos. O lado Bolseiro tomou conta de quase todo o meu tempo, espaço, finanças, e relacionamentos. Uma busca incessante por conforto, infra-estrutura, segurança, aliados ao medo de arriscar.

Pra causar uma briga entre as minhas famílias interiores… basta dar uma olhada em blogs de viagem. O lado Tûk da saltos e murros na boca do meu estômago, causando ansiedade e uma sensação de insatisfação. ME COLOQUE NA ESTRADA! Ele grita pra mim. Enquanto meu lado Bolseiro pega uma xícara de chá de camomila, e com desdem, me lembra que amanhã eu acordo cedo pro trabalho.

O que fazer?

Creio que durante a jornada, Bilbo consegue transitar de forma relativamente saudável entre essas duas tendências tão fortes de comportamento. Creio que Tolkien deu uma boa solução pro personagem, permitindo que ele vivenciasse as duas coisas, cada uma em seu tempo, sem nunca deixar seu personagem fragmentado.

Bilbo se lançou na jornada, que lhe trouxe bastante experiências interessantes, mas que foram muito desagradáveis na maioria das vezes. Ele fez tudo o que pode, e, em determinado momento, sentiu que era a hora de voltar. Seu coração estava aflito e transtornado, ansioso por voltar ao Condado. Ele ainda era um Bolseiro. Mas agora, era um Bolseiro Tûk!

Eu realmente anseio ter a mesma sensibilidade de Bilbo, e aproveitar as oportunidades que tenho pra transitar entre estes “desejos” tão destoantes, e tão complementares ao mesmo tempo. Desejo de todo o meu coração, viver com intensidade e plenitude cada “tempo” da vida, reconhecendo e aceitando que ele passará.

Desejo confiar no autor da minha história, que é especialista em desvelar os caminhos de personagens de desejos antagônicos, sem nunca deixá-los sem sentido na trama.

https://www.valinor.com.br/7180

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