O ceramista

Ando observando o interesse particular que Deus tem pela estética, pela arte e consequentemente, por processos artesanais.

No Éden, o Eterno veste avental e põe as mãos no barro. Começou ali, uma profunda relação entre uma criatura e seu criador, que ia além das esferas objetivas, funcionais, sustentáveis do mundo recém criado. Surgia uma relação que marcada pela subjetividade, também pode ser interpretada como o início de uma grande obra de arte.

O processo escolhido: a olaria, cuja matéria prima já é em si, uma obra-prima, que detém vida capaz de gerar outras. Um dos suportes mais complexos e misteriosos, que nomeia nosso próprio conceito do lugar onde vivemos e existimos: a terra.

Da terra provém o barro, que combinada a outros minerais e técnicas, ganha o nome de argila.

Há oleiros que acreditam que o barro é detentor de uma energia misteriosa. Tratar com o barro, é mais que uma técnica, é uma espécie de ritual sagrado. E se tratando de um elemento que possui “vida”, não deve-se tocar nele de qualquer forma, pois a mesma energia que ele transmite, também as mãos que o tocam, o podem transmitir. O barro é submisso ao seu senhor, as mãos que o tocam, mas não é facilmente domável.

De um ponto de vista prático, antes que o pó vire o barro, e o barro a argila, ele precisa ser devidamente combinado com outros minerais que o darão as propriedades capazes de passar por processos que lhe garantirão durabilidade. Nem mesmo o barro, na sua forma mais bruta, é “puro”. A mistura é essencial.

Quando a composição do barro está feita, após ter sido misturado, mexido e remexido, até se tornar uma pasta quase homogenia, e ser comprimido ao ponto ter consistência e ao mesmo tempo ser maleável, ele precisa ser batido.

Um processo nada romântico. Precisa ser feito em uma superfície segura o suficiente pra que não quebre, e que possa-se fazer muito barulho. É bom que o local seja arejado, pois envolve força bruta, um verdadeiro exercício físico que altera batimentos cardíacos e gera transpiração.Um barro não batido pode esconder bolhas de ar, capazes de explodir, posteriormente, a peça quando for ao forno. O barro precisa ser comprimido, batido, surrado pra que se torne consistente e maleável.

Por fim, inicia-se a modelagem. As possibilidades são inúmeras com os instrumentos e materialidades. Porém, a modelagem envolve em grande parte dois princípios básicos: incisão e excisão. Na incisão acrescenta-se barro ou materiais para criar auto-relevo, e na excisão, é feita a retirada do mesmo para criar baixos-relevos, formas e volumes variados. No barro é acrescentado, mas também lhe é retirado.

E em todas estas etapas, o Artista deve estar atento as pedras, raízes, bolhas de ar que pode encontrar e retirá-los imediatamente.

Por fim, depois de, quem sabe, passar por processos de desmanche, incisões e excisões, o barro, que a agora sob sua nova configuração, pode ser chamado de peça e, finalmente, vai ao seu processo decisivo: o forno.

O forno é uma das partes mais decisivas do processo da cerâmica. É preciso um olhar cuidadoso e sensível para medir a temperatura, saber quando o fogo ou a temperatura está ideal para receber as peças. Também é preciso energia e dedicação (no caso dos fornos artesanais) para alimentar o fogo durante o tempo necessário, que ás vezes, pode levar dias. Para muitos artesãos/artistas/oleiros, o forno é um canal de energia entre o criador e a criatura. Além disso, o fogo, a alta temperatura, tem valores simbólicos universais e milenares que denotam a prova de algo valoroso.

Apenas após resistir ao fogo, a peça pode ser considerada finalizada, e apenas assim ela terá durabilidade suficiente para aceitar processos de finalização mais sofisticados. Por fim, o artista pode se utilizar de inumes técnicas de finalização. A peça também pode ser lixada para tirar imperfeições, pintada, revestida, entre outras coisas.

O Deus criador/criativo que, por meio, através e apesar da terra, criou a humanidade, não se utilizou de seu ofício em vão para se revelar a ela.

O humano é obra de suas mãos, que nascido do pó, há de tornar a ele. Portanto, é sábio considerar, que faz parte da vivência humana, em sua forma mais plena, passarmos pelos processos que toda peça de barro há de passar, nas mãos deste oleiro/ceramista, que com excelência e sensibilidade, há de nos transformar em algo belo, no sentido mais amplo e profundo da palavra, para sua glória.

Já dizia o velho livro:

Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras.
E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas,
Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer.
Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.
Jeremias 18:2–6

Tenhamos bom ânimo!

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