A Tragédia do Corpo Nu

Crítica escrita para o espetáculo Tragédia (Tragédie) para a Bienal Sesc de dança 2015.


Com uma duração de 90 minutos, recomendação etária de 18 anos,
 ingressos esgotados, bem como várias pessoas na página do Facebook
 indagando até minutos antes do início do espetáculo se alguém estava disposto a vender para elas algum ingresso, só posso dizer que este foi espetacular, maravilhoso e hipnotizante.
 
 Apesar de demorar a engrenar, afinal, nos primeiros vinte minutos a apresentação foi extremamente cansativa, visto que eram apenas os bailarinos
 fazendo caminhadas que formavam desenhos no palco triangulares ou
 quadriculares, que mais pareciam um desfile de moda, com a diferença que não havia roupas para mostrar, mas apenas os próprios corpos nus expondo frontalmente suas qualidades e defeitos, ou seja, muito diferente do que
 estamos acostumados a ver em revistas, sendo a grande maioria “corrigidos” por programas como o Adobe Photoshop.

Neste início em que se observa os corpos nus que apenas se locomovem, sem
 movimentos além das pernas, parecia que a constituição física das mulheres era mais imperfeita que dos homens. Não que haja perfeição absoluta no corpo, pois em cada um há sua própria beleza, mas imperfeito naquilo que hoje acreditamos ser o corpo feminino perfeito, já que cada momento histórico tem o seu próprio estereótipo.

Isto me remeteu ao próprio nome do espetáculo, pois a “tragédia” surge quando há o aparecimento do teatro grego, sendo que na Grécia antiga, uma sociedade machista, o corpo da mulher é considerado deformado em relação ao do homem, uma vez que o corpo masculino era tido como a perfeição em termos de constituição física e principalmente muscular.
 
 Ainda no início, a música é apenas uma batida para acompanhar esta
 caminhada, mas aos poucos vai se metamorfoseando, e de uma batida
 quase tribal de tambor vai ficando, bem aos poucos, mais agitada até se
 transformar em uma música eletrônica que te envolve e hipnotiza. Junto a esta transformação, os corpos vão perdendo a andada tão regrada e começam a fazer movimentos estranhos, na qual cada bailarino começa a ter seu próprio movimento singular, destacando-se da multidão.
 
 Estes pequenos movimentos vão se expandindo ao máximo até se transformarem em deslocamentos do corpo todo, ora conjuntamente, ora individualizados. As luzes acompanham estes movimentos, dando um grande contrate entre luz e sombra sob os corpos, deixando a fotografia do espetáculo fantástica, na qual parecia que havia um quadro do Caravaggio sendo reconstituído ao vivo sobre o palco.

Toda a dinâmica do espetáculo também vai se alterando, e o que se iniciou com cada bailarino bem distante um dos outros, aos poucos, faz com eles se aproximem cada vez mais, e esta união dos corpos acaba por transformá-los em apenas um único corpo.

Esta junção também transforma os movimentos, tonando-os cada vez mais sexualizados, sendo que em todo espetáculo a bailarina que mais parecia exalar uma energia sexual impressionante era do corpo mais distante do que consideramos sensual atualmente, pois era de uma gorda, com a pele extremamente pálida e cabelos vermelhos extravagantes. Também era ela que parecia guiar a união de todos os bailarinos.
 
 Ao fim do espetáculo, acabo sem ar e tenho que dar uma boa respirada
 para sair do estado de transe e poder aplaudir em pé, sem parar.

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