Fogo e fogueira

Muito se falou nesta semana que um museu pegando fogo serve como demonstrativo primário da decadência cultural de um país que abandonou seu patrimônio cultural. Pode-se até conceder, mas apenas secundariamente; indo mais longe, também não serviria de prova imediata da decadência a ausência total de qualidade nas belas artes; tampouco o fato de que tanto os cursos universitários de filosofia quanto os seminários online espalhados pela internet não formem um único filósofo, embora ambos prometam tal.

Na verdade, o indício primário da desgraça cultural de uma nação é o culto à vaidade, ao amor-próprio; O culto à própria opinião ou o culto à opinião daqueles que dizem aquilo que o amor-próprio quer que seja dito, ou seja, a camaradagem comunal. Esta em generosa quantidade nesses grupos.

Nesses termos, a síntese mais recente e exemplar desse fenômeno encontra-se com maior evidência na camaradagem exercida dentre um certo grupo liberal-conservador que há pouco tempo ganhou projeção no mercado editorial brasileiro e voz nos debates políticos.

Certamente é um grupo de pessoas inteligentes, quiçá eruditas, ou seja, que muito usam seus respectivos intelectos para compreender algo (em uma palavra: inteligem). Não obstante, um olhar mais aproximado nessa profunda erudição — especialmente se esse olhar for de alguém que já transitou o meio — logo se vê que, como diria Chesterton, trata-se de uma erudição profunda como um abismo, e não alta como uma montanha. Usam a inteligência, mas não alcançam as causas altíssimas.

São eles um bom exemplo daquilo que o Apóstolo fala daqueles que sempre estão aprendendo e nunca chegam ao conhecimento da verdade: «semper discentes, et numquam ad scientiam veritatis pervenientes» (2Tim 3, 7). Ora, e como é possível sempre aprender e nunca chegar ao conhecimento da verdade? Santo Hilário de Poitiers, sobre o mesmo trecho, diz: são aqueles que “não quererão ser ensinados, mas congregarão doutores para dizer-lhes o que querem, a fim de que o próprio acúmulo de pesquisadores e de mestres escolhidos e reunidos por eles satisfaça sua ânsia”. Trata-se aqui da submissão da inteligência à vontade e às paixões, e não mais a submissão destas duas últimas àquela primeira, que seria o reto ordenar da razão, como disse Aristóteles (Ética 1119b10).

Quando o amor-próprio expresso socialmente na camaradagem comunal torna-se o protagonista, então o aprendizado desses equivocamente inteligentes, diz o santo, “será mais de nome do que de realidade […] e já não será mantida a norma da verdade, mas a do que agrada, isto é, a que a vontade usará para defender o que quer, e não a que estimulará a vontade pelo conhecimento da verdade racional.”

Não é de se estranhar, inclusive, que o traço marcante da camaradagem comunal é a tal da “força da personalidade” (seja essa “personalidade” expressa em um de seus membros mais proeminentes, seja ela uma expressão da identidade grupal). Mas essa tal “força da personalidade” não é senão um nome para o voluntarismo, que, como foi dito anteriormente, é a inversão hierárquica das duas potências mais nobres da alma. Ora, fica evidente que, em tal situação, o princípio racional (isto é, a razão ordenando os apetites) nunca se sobreporá ao princípio do amor-próprio.

E quão evidente não é o grupo do “tapinha nas costas” dando ares de grande obra a qualquer porcaria artificial lançada semanalmente no mercado editorial? Quão evidente não é essa artificialidade que enxertou no meio brasileiro um conservadorismo anglo-saxão que é tão natural ao nosso povo quanto o positivismo comteano da Velha República? Estariam eles dando ares de análise ao que na verdade seria uma troca de favores e um mútuo massageio de egos?

Essa mixórdia de conservadorismo (conservador, como diz um amigo meu, é o revolucionário cansado) com liberalismo (o liberal é o adolescente existencial) definitivamente soa artificialíssima na realidade brasileira. Talvez nós brasileiros estejamos fadados a viver até a consumação dos séculos como se estivéssemos dentro de alguma obra de Lima Barreto.

Aliás, quando ouço alguns desses podcasts e hangouts sobre os problemas brasileiros, sempre me pergunto: de que lugar do planeta eles estão falando? Que suposto Brasil é esse que bastaria aplicarmos um X-Burke-Smith-Salada-Egg para que tudo começasse a dar magicamente certo?

A julgar pelos grupos em evidência tanto culturalmente quanto politicamente, podemos sem muito receio dizer que o liberalismo tomará nas próximas décadas o lugar do seu irmão siamês (o comunismo) na cátedra da destruição dos intelectos; ou, em outras palavras, já que estamos falando do diabo, continuará a ser freio e contrapeso da inteligência brasileira; nunca deixando-a sair do patamar da mediocridade comunal.

Voltando ao Museu Nacional, a essa altura já ficou claro que não foi senão a própria camaradagem comunal da cúpula da UFRJ (ao que parece psolista ex professo) que tinha outras prioridades para além do Museu.

De grupo em grupo o Brasil vai queimando.