Arte por: Aaron Tsuru (@tsurufoto)

I – O Mito da Libertação Sexual

Muito me incomodou, desde que me encontrei dentro do movimento feminista, a forma que a sexualidade da mulher é explorada, seja ela dentro de pequenos universos, ou dentro dos mais abrangentes. O movimento, de fato, só me fez compreender de que forma e porque esses tipos de abordagem sempre me incomodaram, na verdade esse tipo de questão sempre esteve presente no meu pensamento, eu só não conseguia transformar em ideias e argumentos.

Os corpos femininos sempre são, desde o surgimento de qualquer sombra de amadurecimento, alvo de julgamento e aproveitamento social, que desencadeiam várias problemáticas individuais e conjuntas as mulheres como grupo; mas hoje esse texto foi escrito para falar sobre um aspecto desse aproveitamento, o sexual.

Assim que começam a desenvolver qualquer sinal de “curvas” (seja cintura, bunda, peito, perna, quadril), as meninas e mulheres passam a ter seus corpos violados, com olhares, palavras, gestos e ações. Esse tipo de constatação não vem de agora e também não é novidade que nenhuma mulher se sente confortável ou segura no mundo com esse tipo de atitude presente na rotina da nossa realidade. A ponte que quero fazer com essa constatação tem início na falsa fala de libertação sexual dos corpos femininos, perpassando pela heterossexualidade compulsória, chegando finalmente na invisibilidade da mulher lésbica.

Assim que a mulher é exposta primariamente a vivência sexual, o que acontece cada vez mais cedo, uma série de fatores e pressões começam a se aplicar em sua realidade. Dessas pressões surgem questões que normalmente envolvem situações normativas sexuais, que beiram o performático. O que eu quero dizer com isso? Que mulheres, a partir da esfera do primeiro beijo, passam a agir de acordo com regras e normas pré estabelecidas, estas implícitas ou explícitas. Atualmente, é cada vez maior o número de mulheres que entendem e aprendem a renegar as regras e normas que são explícitas, jogadas em nossa cara de forma mais violenta é absurda, como ideias de que mulheres não devem transar ou usar roupa curta, por exemplo. Porém, a problemática mora nas regras que estão implícitas, que circulam socialmente de forma mais discreta, mas tão destrutivas como as outras. Dentro dessas tais “regras implícitas”, mora uma das mais perigosas, a da libertação sexual feminina. A primeira pergunta que surge é, libertação de quem e pra quem? O discurso moderno que venera a libertação sexual dos corpos femininos representa uma nova forma de objetificação das mulheres, as fazendo pensar que ao transarem muito, com muitos parceiros, “sem ligar” para o que os outros vão pensar, prova ser uma pessoa independente e segura de si, quando na verdade a expõem a outras dolorosas problemáticas, que vão muito além do discurso “sou vadia”, pregado pelo feminismo liberal.

Libertação sexual pouco tem a ver com o número de vezes que se faz sexo, ou com quantos parceiros, ou quão segura se é do seu próprio corpo, o expondo sem medo. Mas, infelizmente estes são os pontos que mais são levados em consideração; mais exposição, na intenção de mostrar quem é a mulher mais segura de si. Nessa tentativa, ficam evidentes outros pontos valiosos: O atual discurso sobre libertação sexual estimula, de forma direta ou indireta, a objetificação dos corpos femininos para o olhar masculino, muitas vezes voltado para o reforçamento de padrões estéticos sociais, que desencadeiam problemas de auto estima e aceitação corporal, podendo estimular também uma espécie de competição feminina através de disputas de ego e exposição. Essas situações acabam por tirar o foco real do porquê aquilo precisa acontecer, além disso, deixam expostas várias feridas abertas em relação à segurança e auto afirmação, sendo na verdade um tiro que sai pela culatra, aumentando inseguranças e expectativas de mulheres (muito jovens ou já maduras) quanto a seus próprios corpos e vida sexual.

Talvez, o maior problema sobre o discurso sobre libertação sexual vigente, seja o fato de que ele não é sobre a mulher e sim para os homens. Ele pouco fala sobre auto conhecimento corporal, masturbação, orgasmo, preferências sexuais, tutoriais sobre como gozar. Ele pouco fala sobre mulheres também buscarem prazer e satisfação no sexo, sobre como corrigir o parceiro, sobre como falar o que gosta e o que não gosta. Ele pouco fala sobre a dificuldade que as relações sexuais heterossexuais tem de ser altruístas, onde em sua grande maioria, homens não sabem como dar prazer e mulheres não sabem como o exigir, onde a posição naturalizada do ato sexual é a mulher como responsável por dar prazer, e se esforçar em dobro ou em vão para conseguir atingir o clímax na relação sexual. O sexo é um substantivo masculino, mesmo e o discurso de libertação sexual pouco vem mudando isso.

Desde novas, meninas não são expostas e familiarizadas com o universo sexual da mesma forma que meninos são. Ao meu ver, isso acarreta em consequências que marcam a relação com o sexo para o resto da vida. Não há explicação, nem demonstração e nem estímulo para que meninas olhem suas vaginas em frente ao espelho, que aprendam a toca-la e explora-la com as mãos, descobrindo desde jovem o que é prazer. Meninas e nem mesmo mulheres têm o costume de desenvolver o hábito de se masturbar. Chuveirinho, dedos, travesseiro, assento da bicicleta, celular vibrando, são situações corriqueiras na realidade de uma mulher que descobre o prazer quer senti-lo. Porém, essas mesmas situações corriqueiras existem e sobrevivem em um submundo feminino, não em conversas naturais entre amigas, entre primas, entre mãe e filha; existe um constrangimento e proibição implícitos quando o assunto é masturbação e prazer feminino, ou seja, o sexo e a masturbação para a mulher são um tabu. Então porque a inversa não é verdadeira? Embora também seja constragedor para meninos falar sobre masturbação, o ato em si é completamente naturalizado, todos sabem, aceitam, comentam e não se incomodam com o fato de que todos os homens “batem punheta”. É tratado como natureza masculina, até religiões ditas conservadoras permitem e/ou perdoam a masturbação masculina, com um leque de justificativas diferentes.

Então fica um sentimento de frustração onde me pergunto: o prazer sexual da mulher não faz parte de sua natureza? Somos seres dotados de um órgão específico, externo e interno, responsável somente pela descarga de energia em forma de prazer, o orgasmo. O clitóris é muito mais do que a bolinha que vemos em nossa vulva, é uma estrutura complexa, cheia de terminações nervosas que é capaz de fazer o corpo da mulher experienciar os mais diversos tipos de prazer. Muito mais do que uma estrutura corporal, muito além do pênis, o clitoris e o prazer femininos são conectados de forma corporal e mental, então, o prazer e o orgasmo sofrem alterações de acordo com o humor e a realidade ao redor da mulher. Esse tipo de conhecimento nos é negado, desde que somos meninas, até a maturidade, o que torna impossível colocar em pauta a libertação sexual sem junto a ela colocar, também, todas as outras problemáticas que vem atreladas. Enquanto houverem no mundo que ficam constrangidas em falar sobre sexo, envergonhadas/incomodadas ao serem tocadas, que nunca tiveram um orgasmo, não há liberdade sexual de fato!

O discurso da libertação veio raso, colocando na mesa que mulheres são sim, seres que transam, mas não colocou outros pontos importantes. Todas as mulheres transam e todas elas querem sentir prazer e gozar! Te querem transando, mas depilada, mas magra, mas branca, mas discreta na rua, mas tem que pagar boquete, mas tem que fazer anal, mas, mas, mas. A libertação sexual vem acorrentada, e qualquer tentativa de quebra de corrente, coloca a mulher de volta na estaca zero, em uma posição de ser questionada e inferiorizada quanto a sua sexualidade. A reflexão que nos cabe, como mulheres, fazer, é se realmente estamos nos libertando ou se estamos encontrando outras formas de nos acorrentarmos ao que os homens e a heteronormatividade exigem; acabamos por enfrentar os mesmos problemas e dores de sempre, só que dessa vez maquiados ou usando uma roupagem diferente. A libertação que realmente temos que buscar é a dos nossos próprios corpos como detentores de poder e capacidade de sentir prazer, sozinha ou acompanhada, a sós, a dois ou a três. Com ou sem brinquedos, com ou sem roupas, com ou sem luz, com ou sem pênis!

Eu termino esse primeiro ponto, daquela ponte que falei que queria cruzar lá no início do texto, com essa alfinetada em negrito. Todo esse texto foi escrito de uma forma completamente hetero compulsória. Partindo de preceitos que fazem a mulher existir como ser heterossexual, mesmo que de forma invasiva e obrigatória. Vai ser meu único texto com viés heteronormativo, até porque a segunda e terceira parte dessa ponte que eu pretendo desenhar falarão sobre heterossexualidade compulsória e invisibilidade lésbica, que tudo tem a ver com esse começo heteronormativo forçado que acabamos de ter.

Té mais.

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