Quem tem a alma enjaulada sempre vê o sol nascer quadrado.

E a lua também.

Tudo o que tem brilho, cor — tudo o que tem vida — desvanece perante o olhar negligente, distraído demais pelas quatro paredes bolorentas ao seu redor, pelo seu próprio cárcere; de forma displicente, a mente ignora o que a alma implora pra sentir.

Existe todo tipo de prisão; todos levam ao mesmo lugar — lugar que não tem porta de entrada nem de saída, desprovido de caminhos ou direções. Lugar que não oferece conforto algum; Esse lugar é lugar-nenhum.

Existem as correntes e grilhões atados a quem aprendeu a amar sua própria dor, de quem a tomou como sua, como um bicho de estimação. De vez em quando, até leva a maldita pra passear pelos bosques infindos de dentro de si, coleira e tudo mais — no intuito de assim, talvez, convencer-se a si mesmo de qualquer ponta de controle que acredite exercer sobre sua fiel companheira.

Há, também, o fardo de quem nega a dor que um dia fora sua — e que ainda, hoje, é. Há quem viva a bradar só temperança e tempo bom, na esperança de — quem sabe? — tudo aquilo e aquilo outro virar verdade; que o silêncio da apatia cale, da alma, o som.

Bom…

Há quem viva enjaulado nas dores do outro.

(Se deixa pra lá; Se ama tão pouco…)

Há quem seja refém de suas próprias verdades:

Prisões disfarçadas

da

tal

liberdade.

E existe, por fim, dentre os mais cativeiros

— Meio à todos os muitos que há pra se ter,

Taciturno motim — escarcéu sorrateiro:

Cadeia do que não se soube dizer.

Ah! As famigeradas palavras-não-ditas. Tem gente que faz morada nelas.

Eu sei que eu já fiz.

Mas sei, também, do que tenho — detenho as chaves do meu calabouço.

Assim, eu redijo meu próprio destino — há um tanto, porquanto, não mais clandestino. Sim, eu exijo o que é meu por direito; sem pausa, sem causa — efeito ou defeito. Eu sou passarinho, e foda-se o ninho. Meu ninho eu destruo; construo; refaço. Me enlaço nas graças do livre-ser.

Porque quem tem alma enjaulada vê o sol nascer quadrado.

Eu quero é ver o sol nascer.

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