Vamos fazer memórias juntos?

Sobre as tentativas de amar direito parte 2

Luana Santos
Nov 2 · 3 min read

Desde que vi essa frase pela primeira vez na internet há uns anos, tenho guardado ela em um papel pequeno dobrado minuciosamente no fundo da minha terceira gaveta. Essa frase tem me acompanhado por aí e sinto que chegou a hora de tirá-la de lá.


Acordei hoje com uma vontade insana de te ligar e te pedir para fazer as malas. É isso mesmo que você está pensando: tracei nossa rota de fuga. Essa foi a única forma que encontrei de te convencer a embarcar comigo nessa trip, então lá vai:

Quando vi os primeiros raios de sol alaranjados que brotavam no céu pela manhã, lembrei do quanto você é fã dos dias cinzas e isso me levou à ideia de te levar para conhecer os países baixos, onde a neve é muito presente nessa época do ano, ou seja, zero sol no rolê. Esse pensamento me fez perceber que o que eu quero mesmo é te levar pra conhecer o mundo inteiro e isso consequentemente me atraiu à certeza inevitável de querer fazer memórias contigo. Sei bem que essas são revelações meio assustadoras, então vamos por partes, voltando à tentativa de convencimento:

Quero te levar para o outro lado do oceano. Podemos começar pela Itália, que tal? Prometo segurar sua mão durante o voo e contar piadas muito ruins pra te distrair. No intervalo das piadas podemos ler nossos livros preferidos enquanto nos acomodamos no silêncio confortável que proporcionamos um ao outro. Durante as longas horas do voo noturno, a gente pode achar graça das luzes dos prédios distantes e planejar os dias incertos que nos esperam.

Sábado podemos apreciar as ruínas da Roma antiga registrando em fotografias como o patrimônio se esforça para resistir. No domingo acho uma boa ideia ir dar um tchauzinho pro Papa na Piazza San Pietro, porque é típico e consta no script de visitar a Itália. Ok, o verdadeiro motivo é que parece ser uma coisa engraçada pra se contar nos eventos familiares.

A tour pela Europa poderia continuar, mas a aleatoriedade não permite que eu pense dessa forma — sei que com você acontece a mesma coisa— então sim, mudaremos de oceano novamente e Tel Aviv se torna o próximo destino. Podemos assistir o amanhecer na orla e caminhar descalços perto das ondas quebradas que se estendem pela costa.

À noite podemos repousar com a vista da cidade que a varanda do nosso hotel barato proporciona. Sei que vamos rir pra caramba madrugada adentro enquanto misturamos vinho tinto e pizza de pepperoni e relembramos os acontecimentos recentes e antigos. Tim Maia vai tocar no rádio enquanto dançamos desengonçadamente “Descobridor dos Setes Mares” pela sala de estar minúscula que antecede a cozinha americana. Pretendo cantar If I Ain’t Got You super desafinado pra você na última manhã da viagem, acho que valerá a pena passar essa vergonha para arrancar um sorriso descompromissado que só você carrega.

Planejei tudo isso irracionalmente e a única explicação plausível é que não importa em qual lado do oceano estejamos, pode ser até no índico: sei que o amor de verdade atravessa fronteiras, oceanos e latitudes. Sei que de qualquer forma, vou querer você.

Sei que na nossa cabeça o enredo é sempre mais bonito. Não tem discussões, não tem vazios emocionais e os problemas parecem tirar férias. Mas a vida real é um troço complexo e cheio de rachaduras. A nossa vida não é diferente do que a gente lê nos jornais: tudo parece difícil demais e o caos parece estar instalado, mas isso não me assusta. Não mais.

Sendo assim, deixo o meu tentador — e irrecusável — pedido de pé:

Vamos fazer memórias juntos?


Informações adicionais:

A parte um da série “Sobre as tentativas de amar direito” cê encontra clicando aqui

O título vem dos trechos da “Música de Amor número Um” do Selvagens à Procura de Lei.

Luana Santos

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Escrevo desde que descobri que a minha voz também merece ser ouvida.

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