Quando você é aquela pessoa que ❤AMA❤ consertar as pessoas

Acredito que sempre fiz uma grande confusão entre amar e salvar. Eu tenho uma identificação enorme com pessoas que estão, de alguma maneira, precisando de ajuda, sinto que eu as entendo com as partes mais profundas da minha alma. A verdade é que todos nós estamos precisando de ajuda, de ser resgatados de algum modo. De algum modo, olho para trás e percebo que as pessoas com as quais me envolvi tinham questões existenciais que se encaixavam muito bem com as minhas. Pessoas que entendiam que eu não era perfeita, e que ainda assim me amavam. Pessoas que estavam tendo dificuldades em alguma área da vida e que, de algum modo, eu conseguia ajudá-las a superar ou se resgatar na situação em questão (ou ao menos eu achava que conseguia).
A questão em si não era ser uma “salvadora”, porque eu nunca acreditei que eu fosse essa pessoa tão especial que tivesse poder de transformar a vida de alguém — a questão era a idéia em si…o propósito, o ideal.
Talvez, lá no inconsciente algo me dizia que, se eu fosse capaz de resgatar alguém de suas questões, eu também seria capaz de fazer o mesmo comigo.
Ou talvez ainda mais importante: minha dor tem algum propósito quando eu consigo ajudar alguém a se resgatar de suas próprias dores. Ajudar alguém a superar suas dores ou dificuldades de algum modo, me ajudou a encarar as minhas questões com mais coragem e determinação.
Deste modo, eu acabava me apaixonando sempre por pessoas que precisavam ser salvas, pessoas que precisavam desesperadamente de mim.

De alguma maneira na minha cabeça tinha um programinha rodando que me dizia que aquilo era amor — ter alguém dependente emocionalmente de você.
De alguma maneira, com o passar do tempo, eu fui percebendo que não, amor não era isso… ao menos não pra mim. Eu me tornei uma salvadora tão boa, mas tão boa, que acreditava que não precisava da ajuda de ninguém. Eu nunca consegui deixar ninguém vir me “resgatar” porque eu acreditava que eu era que tinha que fazer isso por mim mesma (e pelas pessoas que eu amava), esse papel era meu!
E então eu fui me convencendo que eu tinha de ser forte, afinal, todos à minha volta estavam naufragando, como poderia confiar em alguém para me resgatar se acaso eu precisasse? Era bom, inclusive que eu não precisasse de ninguém pra isso, eu não confiava em ninguém melhor que eu para esse serviço.
A questão é a seguinte, eu acredito que todos nós precisamos em algum momento de alguém que nos ajude nesse “resgate” de nós mesmos.
Nem que seja um pouquinho, precisamos de alguém que nos ajude a compreender porque carregamos as cargas que carregamos e nos ajude a aliviá-la, alguém que nos ajude a nos lembrar que não estamos sozinhos (“salvadores” realmente acreditam que estão!) e que tudo ficará bem. Não estou dizendo que precisamos de alguém que nos dê tudo ou que tome as rédeas de nossas vidas e mude tudo para nós, mas que nos abasteça de força emocional e nos ajude afirmar dentro de nós que, com as posturas e decisões corretas, um dia nosso coração não precise continuar esta vida de um modo tão pesado. E principalmente, que nos encoraje a erguer nossas cabeças, tomar as rédeas da própria vida e começar de novo, mais leves, com mais fé na vida e fé em nós mesmos.
Muitas vezes você não pode ser o “salva-vidas”de alguém porque esse alguém PRECISA aprender a resgatar a si próprio, amar a si próprio. Só assim esse alguém estará emocionalmente em condições emocionais de cuidar de si mesma, se amar, e portanto, em condições de amar VOCÊ!
Esse era meu problema, eu acreditava que mantendo essas pessoas “abrigadas” e “seguras”, eu conseguiria auxiliar no processo de “cura” de suas dores e questões.
A grande questão é que, nesse processo de cura de nossos traumas, dores e questões existenciais - que todos nós teremos que passar para nossa evolução e amadurecimento emocional - cada pessoa tem que passar pelas suas provações PRIMEIRO.
Cada um de nós temos que passar pelo pior da situação para conseguir sair forte e altivo, com as lições aprendidas e ferramentas emocionais desenvolvidas, para as próximas provações que fatalmente virão. Temos que ir no fundo dos processos que doem e começar do zero para nos tornar as pessoas adultas que devemos ser. Isso é a escola da vida!
Eu não tenho como fazer a sua prova por você, de outro modo, quem passaria de ano seria eu, e não você.
Isso obviamente não significa que você que tenha que passar pelas vicissitudes da vida sozinho, afinal é pra isso que as pessoas servem, é pra isso que serve a organização em sociedade não é? Para que nos ajudemos e nos fortaleçamos uns aos outros. Mas não para salvar, resgatar ou, pior ainda, “consertar” os outros.
Essa confusão entre amor e resgate é algo que promove relações muito conflituosas e que nos ancora em situações de dor e limitações em nossas vidas, não é possível que haja uma relação saudável, onde há crescimento dos dois lados, especialmente porque é frequente que encontramos pessoas muito imaturas emocionalmente, e que, inconscientemente, não desejam sair da infância emocional, nos mantendo dessa forma, ali, presos, cativos provendo tudo o que temos e o que não temos em nome do “amor” que supostamente elas nos têm. Essa relação entre dependência emocional e “amor” é algo muito perigoso para nossas vidas.

Talvez eu tenha sido uma “salvadora” minha vida inteira e ainda tenho esse ímpeto de ser, e talvez por saber disso, eu terei que estar sempre alerta em meus relacionamentos (sejam eles amorosos ou não). Talvez essa relação entre amor e resgate tenha sido aprendida tão cedo, e repetida tantas vezes que entrou num piloto automático tão inconsciente, que o primeiro ímpeto é me apaixonar por algum “donzelo em apuros” e esse padrão não seja assim tão simples de mudar e possa ser o trabalho de uma vida inteira exigindo de mim muita lucidez e atenção. Talvez eu tenha sido desde sempre essa menina que não quer que os outros sofram ou passem por experiências parecidas com as que passei ou aquela que simplesmente deseja manter aqueles que ama, seguros, protegidos e felizes. Mães e pais que se colocavam como “pobres coitados” e vítimas das circunstâncias, não raro “setam” seus filhos para serem fortes e salvadores, afinal, aprenderam desde cedo que ‘amor’ e resgate são cores da mesma palheta e onde está um, significa que lá também está o outro.
Entretanto, algumas vezes esse “salvador” terá que dar um passo atrás e parar de tentar ser tudo para todo mundo. Atentando para o fato que poderá estar impedindo a pessoa amada de crescer emocionalmente com os próprios erros.
Às vezes, temos que fechar nossos olhos, respirar bem fundo, e nos conformar com o fato que não temos a capacidade de mudar o que está fora de nós. Temos que entender que as pessoas precisam aprender a ser fortes por conta própria, e pra isso precisam passar por suas provas. Precisamos compreender que nosso valor e nossa força não dependem de quantas pessoas resgatamos.
Precisamos aprender a instrução de vôo: “Antes de colocar a máscara na pessoa ao lado, coloque primeiro em você.

Precisamos no fim entender que, não importa o quanto de resgates a gente acredite que precisa fazer ao longo da vida para nos sentir bem conosco mesmos, é preciso aprender a resgatar nossos corações primeiro, e está tudo bem!
Isso não é egoísmo, isso AMOR PRÓPRIO!
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Texto inspirado no artigo de Marisa Donelly — “When you are the girl who wants to fix people”
E poderia ter sido escrito por mim e por tantas e tantas pessoas que conheço! ❤
