Conheça Mashrou’ Leila, a banda do Líbano em que encontrei conforto e resistência vivendo no Cairo.

Eu estou na linha mais antiga do metrô do Cairo. Indo de Maadi, bairro nobre cortado pelo Nilo, para Heliópolis, onde faço um estágio voluntário em uma empresa de marketing e produção musical. O percurso dura uma hora e meia: Uber até a estação, cruzar as três linhas de metrô existentes na cidade e mais 15 minutos andando até a empresa.

Do lado de fora fazem 39 graus Celsius, dentro do vagão, no entanto, parece estar ainda mais quente. O mau cheiro, o ar seco e os olhares das pessoas me incomodam mais do que o sol do lado de fora. Meus brincos de argola, em especial, o que segura um pingente em formato de cruz leva olhadas desafiadoras, curiosas e por vezes de reprovação. A raiva é maior que o medo nestes momentos, mas tenho que manter a calma e me concentrar na canção que toca no meu iPod. Ela me conforta, me dá energia e me faz esquecer que ainda tenho um longo caminho até chegar ao escritório.

‘ele tomou um trem, e depois outro, 
mas a melodia ainda o perseguia
A noite ele dança sozinho
(como se a máquina fosse um rádio)
e a música pergunta em tom monótono
(se ele gostou de quem se tornou)’

(Tradução Livre da Música Icarus do álbum Ibn El Leil).

Eu conheci a banda Mashrou’ Leila através de uma amiga egípcia. A versão acústica de Kalaam (He/she) tocava quando eu esperava o almoço em sua casa. Um pequeno apartamento em uma área periférica no Cairo. A melodia e as variações na voz do vocalista me tocavam como uma brisa de ar fresco. Mesmo não entendendo uma única palavra que ele cantava, a música me causou aquele tipo de energia que a gente só sente quando sabe que está embarcando em uma nova e excitante experiência sinestésica.

Minha amiga me disse que a banda não era bem vista no Cairo. Vindos do Líbano, o vocalista era abertamente gay e suas letras entoavam palavras sobre gênero, política e liberdade sexual. Nesse momento meus olhos brilharam e meus dedos correram para anotar no celular o nome da banda: Mashrou’ Leila (Projetos noturnos).

Kalaam fala sobre o modo como a língua e o gênero definem nacionalismos; mas basicamente sobre a estrutura linguística árabe que, assim como o português, todas as palavras são masculinas ou femininas e como é estar neste meio quando nos atraímos por pessoas do mesmo gênero.

‘eles escreveram as fronteiras do país
(sobre o meu corpo, sobre o seu corpo)
em palavras ligadas à carne
minha palavra sobre a sua palavra
(como o meu corpo sobre o seu corpo)’

(Tradução livre da música Kalaam do álbum Ibn El Leil)

Eu ainda estava chocado com a notícia de um amigo que esteve em Luxor, cidade histórica do Egito, e marcou um encontro no Tinder com outro rapaz. Quando chegou ao local marcado, um homem estranho o esperava. Ele percebeu a emboscada e voltou ao hostel onde estava hospedado. Seis policiais cercaram o local a procura de “um colombiano” (informação que ele tinha dado no app, junto com a sua foto). Apesar de saber que este tipo de perseguição acontecia no Egito, ouvir da boca de um amigo o acontecido foi um completo choque de realidade para mim. Felizmente, meu amigo conseguiu escapar da perseguição, mas a partir deste dia, eu me tornei um morador reprimido e desconfiado de tudo e todos no Cairo. Eu mesmo escapei por pouco. Após uma festa no Nilo, bastante embriagado, beijei um amigo nas ruas de Zamalek sob os olhares de um policial que se aproximava. Entramos em um Uber que nos esperava e o policial não nos alcançou.

“Desde a intervenção militar em 2013 que estabeleceu o ex-general Abdel-Fattah el-Sissi como governante do país, pelo menos 250 pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros foram presas em uma repressão silenciosa que destruiu o que havia sido uma comunidade cada vez mais vibrante e visível. Por meio de uma campanha de vigilância e armadilhas online, prisões e fechamento de empresas ligadas aos gays, a polícia empurrou essas pessoas de volta para os porões e, em muitos casos, para fora do país.” Link da fonte

Lendo e vivendo a situação política no Cairo, me tornei consciente ao lugar que me encontrava. A repressão que se encontra nas ruas fechadas por militares, a dificuldade em comprar álcool e a falta de liberdade de expressão dos moradores. É por isso que a banda Mashrou’ Leila representou tanto para mim neste período. Me peguei traduzindo todas as músicas do seu último álbum para o português. A cada nova linha traduzida e a cada entrevista que assistia da banda no Youtube um novo tapa de realidade me assombrava.

“Eu me sinto mais seguro sendo gay no Líbano do que sendo mulçumano aqui nos Estados Unidos”, revelou o vocalista Hamed Sinno ao programa de rádio Q on CBC.

Essa foi a chave que faltava para eu compreender a real questão da homofobia que assola o Oriente Médio. Muito mais que uma questão religiosa, o medo da expressão homoafetiva nestes países está diretamente ligado à política.

“…Não são as práticas de sexo homossexual que estão sendo repreendidas pela polícia egípcia, mas sim a identificação sociopolítica destas práticas com a identidade de ser gay no Ocidente e a busca desta identificação em ser gay que estes homens buscam”.(MASSAD, Joseph. “Re-Orienting Desire: The Gay International and the Arab World”).

Ou seja, o medo de um “modo de vida” ocidental que vai contra as tradições e princípios do mundo Islâmico estar influenciando a cultura no Oriente Médio.

Em 2010, a banda tocou no Festival Bylos no Líbano, onde à frente do primeiro-ministro, Saad Hariri, cantou a música “Al Hajiz” (O checkpoint), cuja letra fala da experiência do frontman em ser constantemente parado e revistado por militares em seu caminho para casa.

É difícil falar de visibilidade LGBT no Oriente Médio. Se você é visível, você provavelmente será preso, com grandes chances de ser torturado e talvez morto. Me sinto privilegiado de estar no Brasil, que claro, não é a maior referência em relação a proteção e direitos LGBT. Ainda somos o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Mas a possibilidade de discutirmos isso abertamente já é um avanço se comparado a repressão e perseguição que senti no Cairo.

Com turnês pelos Estados Unidos e Europa, a banda Mashrou Leila’ vem ganhando um público para além do Oriente Médio, mas ainda não é muito conhecida na América Latina. Repressões e ameaças online são uma constante no portfólio da banda quando tem algum show agendado em países como Marrocos e Egito. Mas seguem em frente, realizando shows energéticos para uma multidão nestes países.

É vigorante saber que bandas como Mashrou Leila’ crescem no Oriente Médio e dão um pouco de conforto e resistência para jovens que não podem se expressar abertamente. Até mesmo para um morador temporário que enfrentou essa realidade por apenas alguns meses.