Tereza

Os dois na mesma velha sala, há muito que dividiam um silencio confortável. O olhar quase desinteressado do rapaz de sobressalto ganhou um brilho diferente. Ele planejou pedir uma história, mas seu avó estava tão longe em seus pensamentos que Faustino levou dois momentos para ter a coragem de fazer o pedido. O avô que já percebia até uma mudança na respiração do neto, antes mesmo dele abrir a boca, o olhou de lado e começou a falar:

– Não posso te dizer como a conheci, mas devo te contar que ela sempre estava rodeada de fumaça e que por isso me mantive longe por muito tempo. Não conseguia vê-la direito.

– Como ela era?

– Ela não era bonita, eu sei que meus olhos já viram mais belas, mas nunca houve uma mulher tão maravilhosa em sua imperfeição.

Matias suspendeu a cabeça e soltando o ar que estava nos pulmões manteve seus olhos fixos em algo. A forma que o ventilador girava no teto o lembrava do quarto da mulher que tentava descrever.

– Nada que entra na boca do homem o contamina, mas sim o que sai. Se Deus realmente existe e mandou alguém escrever isso por ele, Tereza estava garantida no inferno. Tinha uma boca ácida e venenosa, nada que saia dela vinha para o bem. Creio eu, que ela tenha morrido por engolir o seu próprio veneno.

– Odeio quando o senhor antecipa o final.

– E desde quando a morte é surpresa para alguém meu filho? Pessoas boas e más vão para debaixo do chão. É o fim de todos os vivos. A graça está em saber quando e como tudo se acabará.

Mesmo contrariado, o menino admirava a forma como o avô narrava suas memórias. O homem divagava como se falasse apenas consigo mesmo e não gostava de explicar muita coisa, ou entende no fluir da história ou iria embora sem entender. Por isso o rapaz não falava quase nada e se esforçava para não se pegar desatento. Por vezes, lhe faltava a paciência, mas já tinha experimentado ouvir outros contadores e achara decepcionante, por isso sempre voltava ao Avô Matias. Os outros Não tinham a magia de transformar o ordinário em surpreendente. Então, mesmo que estivesse fatalmente contrariado, ouvir o velho homem lhe trazia emoção.

– Fala vô!

– Não me apresse! Das histórias que eu já lhe contei, essa é a mais penosa de todas.

Faustino não deu muito crédito para o avô e levantou uma das mãos para gesticular um sinal impaciente. Matias continuou.

– Naquela noite, ela estava disposta a falar da morte — falou baixo e longe como se não estivesse mais ali — Disse-me que a danada não a assustava, que brincava com ela desde menina e que sempre que podia saiam para dançar juntas. Numa roleta russa, numa rua sem leis, numa madrugada quase vazia. “Ela é meio de vida, Matias. Trabalho para alguns. Resposta para outros. Desespero para outros tantos, é bem verdade, mas para mim ela é só uma estranha amiga.” ela me dizia as vezes. A morte me assustava muito, nunca soube perder nada, nem passarinho. Tereza tinha perdido tudo: pai morto, mãe morta pelo pai, irmão morto pelo marido da amante e a amante, que também era caso de Tereza, tinha se perdido no mundo. A moça, velha em sofrimento, tinha perdido tudo, mas a perda que mais me doía era ter perdido o amor. Depois de todo esse rebuliço, ela não conseguia mais amar ninguém.

Que dor aguda isso dava no pobre homem. Balançando devagar na sua velha cadeira lembrou-se de um tempo que pensara que seu amor ressuscitaria o dela. Acredito até que ela também acreditou no poder desse salvador, como se ele fosse um Cristo dos pobres desgraçados que dava aos mortos vida e dava sentido as almas perdidas. As vezes lhe pesava a dor da solidão. Não que lhe faltasse homens ou mulheres, mas sempre lhe faltava apego. Passavam por sua cama muitas vezes como uma dormência, nada sentia, nada valia, nada lhe era de algum valor. Quando Matias lhe olhou, decidiu que o que tinha até então, era pouco. Uma luz se acendeu em sua cabeça, entendeu que precisava sentir. Se deu a chance de tentar.

Aprendeu cedo a vagareza certa para abrir os botões do vestido de tecido leve. Fazia tudo sem pressa, mas nunca com pouca malícia. Os olhos da cor de brasas, queimavam tudo, a pele se tornava em fogo a medida que ela olhava, Matias queimava só em saber que ela o via com atenção. Um paraíso, dentro de um inferno. Uma mulher que dava tudo, porque só se entregava uma vez. Se seria apenas uma vez, ele também lhe entregaria tudo o que tinha. Tomaria muito cuidado para não sobrar nenhuma gota, ele não aguentaria guardar dentro de si nenhuma sobra. A amava demais, com uma raiva que não sabia explicar. Tinha tanta coisa para lhe dar, mas Tereza não sabia como receber. Não se sentia digna, não sabia como dizer que também queria, já que amanhã talvez ela Não quisesse mais.

– Te quero hoje — ela dia — mas não entende que não posso te querer toda hora? Fique comigo hoje, senão eu morro, mas amanhã se eu acordar do seu lado vou querer me matar!

– Louca! — Matias dizia a ela.

Ela acendia um cigarro, tomava uma dose de cachaça, sentava na janela e falava que ninguém era normal. Nem o mais normal dos normais, pelo menos ela era sincera com suas loucuras.

O homem só conseguia amá-la mais. No segundo dia, ela o mandou embora, mas ele não foi. Não havia esvaziado quase nada, o desejo era o mesmo. assim disse que não ia. Larissa sorriu e foi embora de sua própria casa. Duas semanas depois ela voltou. Cabelo curto, unhas vermelhas, fumando seu cigarro e dizendo que descobriu que o amava e voltou para reclamar posse do que Matias tinha lhe prometido.

– Como eu fiquei confuso naquele dia. Duas semanas que pareciam quartos de décadas e ela volta dizendo que me ama. Eu a expulsei de sua casa, agora eu que não queria aquela loucura de sentir.

Ela gritava e o arranhava como uma gata arisca, dizendo que ele não tinha o direito de enganá-la. Os seus olhos agora brilhavam igual sua dor particular. Olhos cansados de sofrimento, de uma dor que nenhum vivente deveria passar. Solidão e desprezo, que se misturavam com sua falta de lucidez.

– Eu não durei nada. Causar-lhe sofrimento me era mais doloroso do que sofrer. Ela me sentiu fraquejar. Desabotoou o vestido amarelo devagar como lhe era de costume. Eu me ajoelhei a seus pés, me permitindo o fazer, porque sabia que nunca mulher alguma me faria ajoelhar de novo. Nenhuma me teria tão aos seus pés como ela. É coisa de uma vez. Desejo de tamanho sem repetição.

Ela se ajoelhou também e disse que por hoje o amava. Dela tudo que quisesse ele teria. Aparentemente modesto, Matias lhe pediu uma simples frase:

– Diga que me quer.

– Não preferes que eu diga que te amo?

–Teu amor é volátil, de nada me serve. Tu estás aqui por desejo, teu querer é mais importante.

– Quero você Matias e é um querer de uma vida inteira! — antes mesmo que ela dizer, ela já tinha concordado.

Naquela noite a pele de Tereza brilhava mais que o normal. O suor nas peles negras de Matias e Tereza cintilavam com felicidade, como estrelas luzindo na noite sonolenta. Ali mesmo no chão, depois de ajoelhados, dormiram abraçados esperando a loucura que o sol traria junto com sua luz.

– Na realidade das dez da manhã ela começou a se vestir de novo. Eu pedi para ela ficar. Tereza ouviu como pedido aquilo que eu tinha lhe falado como prece. Rezei para que ela desistisse e voltasse a deitar.

– Ela mostrou confusão, parou com as mãos no botão do vestido, parecia estar numa briga. Nos decidia em um minuto, sabia que sair era o aconselhado e que ficar era mais que uma promessa, era um compromisso.

– Nunca me prenda. Não morra. Nunca me queira menos do que hoje — pediu ela.

Eu acendi um de seus cigarros e deitei em suas pernas. Ela me sorriu maliciosa, me pediu um trago e soubemos que ela estava segura para ficar.

Um dia, ela sumiu. Passaram-se quatrocentos e trinta e cinco dias que ela não sumia. Meu coração estava até sentindo falta de sua loucura, de sua bebedeira, dos seus gritos e arranhões, das transas no chão, dos vestidos desabotoados com uma malícia gatuna, da insegurança da sua presença e da certeza de seu desamor.

– Ela cumpriu e eu não. Ela ficou, todos dias um pouco mais. Como uma beata que paga promessa, ela se deitou ao meu lado, dizendo que me queria. Eu a tive muito, de todos os jeitos, das formas que os dois quiseram, mas não foi o suficiente. Eu disse que a amava, mas sabia que não a amava do mesmo tanto.

– Mentiroso! — gritou quando finalmente percebeu — Teu amor passou, diminuiu. Não me quer mais, me queria quando eu não estava aqui, agora que estou cansou de mim. Ninguém me quer de verdade! Ninguém me quer inteira!

Matias chorou, como um menino que não sabia mais o que fazer. Eles foram engolidos pelo normal. Pela rotina que aos poucos sufocava, pelo desanimo que ele pensou que nunca chegaria. Ele destruiu seu próprio amor, fazendo sua amada ficar. Ele amava mesmo eram suas andanças, seu desaparecimento. A fumaça que lhe cobria o rosto nos bares, o desprezo que ouviu por tanto tempo em sua voz. Quando a teve, finalmente em seus braços, achou que ia morrer, porque sabia que ela ia embora, agora que sabia que ela ficaria, o medo sumiu.

Sentia que seu amor renascia quando ela quebrava a casa, quando lhe arranhava o rosto, ameaçava de trocá-lo. Mas Tereza cansou. Seus braços não mais tinham forças para destruir. Sua voz se tornou rouca, até se tornar um sussurro. Assim, o amor de Matias nunca mais renasceu. Ninguém mais o gestava. Sua vida não era mais nada.

– Eu pensei que queria sentir, mas esse tal amor de nada me serve. Se ele é o sentido de tudo. Nada tem sentido.

Tereza bateu a porta.

Foi o último som que ele ouviu.

Quatro dias depois a encontrou deitada num chão de areia de uma rua sem lei, numa madrugada quase vazia. Estava escarlate, banhada de seu próprio vermelho. Na noite anterior, se ouviu um brincar de roleta russa. Uma vida, uma bala, um acerto, um corpo. Tereza foi embora com sua estranha amiga morte. Foram dançar juntas uma música dengosa e insana. Foi ser feliz sem o peso de ter uma vida com sentido. Correu para arranhar o rosto daquela que nunca iria amá-la menos.

– Os gemidos de prazer, os gritos de ódio, ainda tenho todos em meus ouvidos. Mas não ouvi o último verdadeiro som.

O tiro.

– Vô?

– Eu disse que era a mais penosa de todas.

E voltou a ficar distante.

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