O Rio das Paralimpíadas não é de todos

Melhorias foram realizadas, mas ainda falta muito para a cidade ser um exemplo de acessibilidade

Onze dias pela frente, 4350 atletas, 23 esportes, 528 provas e uma pergunta: o Rio de Janeiro está preparado para receber os Jogos Paralímpicos 2016? A cidade cumpriu com louvor o papel de sediar a primeira Olímpiada na América do Sul, mas agora as atenções estão voltadas para a funcionalidade das intervenções realizadas para melhorar a acessibilidade e receber os atletas e o público com necessidades especiais. As Paralimpíadas deixarão um legado, entretanto, a questão da acessibilidade não foi tratada em todos os seus âmbitos. Os deficientes visuais sentem-se negligenciados e avaliam a realidade carioca às vésperas do evento.

Medidas foram tomadas?

Em setembro de 2015, a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou um conjunto de iniciativas para melhorar a acessibilidade na cidade. Entre elas, o projeto Rotas Acessíveis, que prometia adaptar para pessoas com deficiência o percurso de dez pontos turísticos da cidade — Corcovado, Pão de Açúcar, Praça XV, Paço Imperial, Cinelândia, Praia de Copacabana, Praia da Barra da Tijuca, Jardim Botânico, Vista Chinesa e Mesa do Imperador. Um investimento de dois milhões de reais em 4000 metros de calçadas acessíveis e 5831 metros de pavimento em concreto nos acessos; obras de nivelamento de vias e calçadas; instalação de rampas e piso tátil e a readequação de vagas de estacionamento e pontos de ônibus. A previsão de conclusão era de seis meses começando em outubro, nos bairros da Urca e Botafogo.

O que pode se ver, no entanto, é o não cumprimento da promessa mesmo após o fim dos Jogos Olímpicos. De acordo com o Guia Turismo Acessível, disponibilizado pelo Governo Federal, as calçadas com inclinações aceitáveis e antiderrapantes só estão presentes em três dos dez pontos turísticos do projeto — Vista Chinesa, Praia de Copacabana e Pão de Açúcar; a presença do piso tátil direcional até o local de informações só é identificada nos arredores do Pão de Açúcar e do bairro de Copacabana. As vagas de veículos destinados a deficientes são poucas ou inexistentes na maioria dos pontos turísticos. Além disso, ainda não há sinalização em braile e alto-relevo nos lugares comuns de todos eles.

VLT é exemplo de transporte acessível, piso nivelado com plataforma, rampa, piso tátil, corrimão nas paradas

No Boulevard Olímpico, área de 219 mil metros quadrados formados pelo Porto Maravilha, na união da Praça Mauá com a Praça XV, no Centro, e pelo Parque Madureira, no bairro da Zona Norte, é possível observar uma estrutura destinada aos deficientes físicos, mas ainda há carência de infraestrutura que atenda os deficientes visuais e auditivos no entorno do Boulevard que permita a chegada dessas pessoas. Museus mais recentes como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio possuem banheiros adaptados, rampas, elevadores e áudio-guias. Transportes como o BRT e o VLT são mais acessíveis para pessoas com deficiência, mas a falta de sinalização sonora e luminosa, além da precária pavimentação das calçadas tanto no entorno do Porto Maravilha quando do Parque Madureira é alarmante.

Expectativas dos cariocas

“Eu não sei como as pessoas com deficiência visual ainda estão andando pela cidade”. Maria da Glória de Souza Almeida, de 68 anos, é cega e assessora da direção geral do Instituto Benjamin Constant (IBC), centro de excelência em atividades voltadas para o atendimento das necessidades acadêmicas, reabilitacionais, médicas, profissionais, culturais, esportivas e de lazer da pessoa cega e portadora de visão subnormal, localizado no bairro da Urca, Zona Sul do Rio de Janeiro. Seu questionamento diz respeito aos buracos, desníveis e falta de mecanismos de auxílio aos deficientes visuais, principalmente no centro da cidade. Maria da Glória revela ser cada vez mais complicado a questão da acessibilidade em todos os bairros e atenta para a necessidade de uma humanização da cidade. “Acessibilidade não é só para mim, que sou cega, é para todos”, diz a assessora.

Ela afirma, também, que a falta de incômodo da população e dos órgãos públicos faz muita coisa se perpetuar e que os problemas que a parcela cega da população enfrenta não é recente. A falta de planejamento e o crescimento desordenado são as principais causas da pouca importância dada à essa questão e é a solidariedade do povo carioca que permite o mínimo de acesso dos deficientes aos lugares públicos na cidade, na avaliação da assessora.

A assessora fala sobre a instalação do piso tátil nos entornos do Pão de Açúcar, na Urca, que afetam diretamente os alunos e funcionários do IBC, localizado no mesmo bairro. Segundo ela, a obra estava em desacordo com as normas exigidas e após o IBC enviar um documento exigindo reparações, a Secretaria de Obras respondeu que não podia resolver o problema. “Colocar uma rampa para o cadeirante e alguns metros de piso tátil para o cego não resolvem todos os problemas. Não adianta colocar uma placa em braile se eu não sei onde ela se encontra. É preciso pensar no todo, preparar a cidade em todos os âmbitos, preparar as pessoas para lidar com os deficientes”, diz.

Jorge Martins de Castro, de 46 anos, operador de telemarketing, cego e morador de Copacabana, Zona Sul do Rio, conta um caso que presenciou nas vésperas dos Jogos Olímpicos, na Rua Raul Pompéia, no bairro onde mora. “O piso tátil simplesmente acabava em uma parede”, conta ele. Jorge fala também da necessidade de sinais sonoros em toda a cidade e não só nos bairros vistos como “mais importantes”, na Zona Sul, com a chegada dos Jogos Paralímpicos. “Eu, sinceramente, não sei como os atletas vão conseguir se deslocar no Rio de Janeiro sem auxílio de outras pessoas. Vai ser um choque. Infelizmente, para a gente que já mora aqui, é a realidade de todos os dias”, revela.

Aconteceu durante os Jogos Olímpicos

A exposição Diálogo no Escuro, no Museu Histórico Nacional, no Centro do Rio, acontece desde o começo desse ano e recebeu grande público durante as Olimpíadas. O conceito da exposição é mostrar como é o mundo sem o sentido da visão. Os visitantes são conduzidos por guias deficientes visuais através de salas totalmente escuras e especialmente construídas, em que cheiro, som, vento, temperatura e textura apresentam as características de ambientes cotidianos como parques, ruas, comércios e praias. Há 25 anos em exposição em 140 cidades e 40 países, Diálogo no Escuro já recebeu oito milhões de visitantes e empregou sete mil deficientes. O passeio dura pouco mais de uma hora e tem como objetivo a mudança do olhar sobre a deficiência e o aumento da tolerância.

De acordo com o grupo “Movimento Down”, dezenas de pessoas com deficiência conduziram a tocha olímpica e reafirmaram seu papel ativo na sociedade. Alguns deles foram Breno Viola, judoca, ator e autodefensor do Movimento Down, Claudio Luciano Dusik, desenvolvedor de um software para facilitar a digitação de pessoas que como ele têm a mobilidade reduzida e o paratleta com deficiência visual Paulo Roberto Homem. Outra novidade em relação à deficiência é que pela primeira vez os Jogos Olímpicos tiveram um grupo de voluntários com deficiências intelectuais. O grupo de 50 pessoas foi responsável por trabalhos como recepção do público e acompanhamento das equipes de produção e continuará atuando durante as Paralimpíadas.

O legado

O Comitê Rio 2016, organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, é responsável por garantir que tudo aconteça como o previsto. Marcos Lima, 33 anos, ex-atleta de futebol para cinco (modalidade para deficientes visuais), trabalha na área de Integração Paralímpica do Comitê, que ajuda as outras áreas a entender o que são, as demandas e o legado dos Jogos Paralímpicos. “Eu trabalho mostrando a potencialidade das pessoas com deficiência, mostrando os jogos de uma forma positiva. O Comitê é o melhor lugar para se falar de pessoa com deficiência, o lugar que eu encontro menos resistência e uma plataforma que me permite chegar em muitos lugares que eu não chegaria”, conta.

Ao falar sobre a função e importância do esporte em sua vida, o ex-atleta revela o valor do esporte na vida de pessoas com deficiência, uma vez que dá a elas a oportunidade de fazer coisas que a sociedade não acha que são capazes. Para ele, o conhecimento corporal, perder, ganhar e o trabalho em equipe são grandes ensinamentos que o esporte proporciona. “A minha maior deficiência não é a visual, mas a falta de acessibilidade. Eu vivo em um mundo que é totalmente visual e tenho que correr muito atrás das coisas. O esporte é a minha grande injeção de ânimo”, diz.

Marcos fala sobre a falta de acessibilidade no Rio e responsabiliza não somente o governo, mas principalmente os cidadãos comuns — quem deixa o cachorrinho fazer cocô na rua, o motorista que estaciona onde não deve, o comerciante que deixa suas mesas na calçada. “Ainda falta muita consciência na forma com que as pessoas encaram a pessoa com deficiência e eu espero que os jogos ajudem a mudar isso”, diz ele. Na sua rotina atual, com a aproximação dos eventos, identifica uma maior presença de piso tátil tanto nas ruas quanto em relação ao esporte. O Parque Olímpico ganhou uma maquete tátil, da qual Marcos acompanhou o planejamento e a obra. Por outro lado, afirma que o piso não é tudo — apesar de ajudá-lo a andar com segurança, não mostra a sua direção, fazendo-o depender das pessoas para se locomover nos espaços públicos. Segundo ele, alguns problemas perpetuam o preconceito devido ao desconhecimento sobre a questão da deficiência, como o símbolo da acessibilidade ser uma cadeira de rodas, não incluindo a deficiência visual ou auditiva, por exemplo.

O legado dos Jogos Paralímpicos é destacado por Marcos como uma mudança no pensamento, uma consciência da população em geral e uma maior atenção dos órgãos públicos para a questão da acessibilidade, ainda que não torne a cidade cem por cento acessível. Acredita ser o legado físico importante, mas muito diluído no Rio de Janeiro. “Quando eu jogo futebol, em uma partida, aos poucos, a pessoa que assiste para de ver a deficiência e começa a ver o esporte. É essa a mensagem que os Jogos Paralímpicos querem passar — uma mensagem de igualdade”, afirma.

Por Larissa Bispo e Luana Camará