A fila da diversão

Cariocas enfrentam com bom humor mais de quatro horas de filas no Boulevard Olímpico

O Rio de Janeiro sediou pela primeira vez uma edição dos Jogos Olímpicos na América do Sul. Além das competições, a cidade recebeu o inédito Boulevard Olímpico, já considerado o maior de todas as edições. Localizado no Píer Mauá, o espaço contou com atrações como shows, telões com as competições e casas como a da NBA e a Parada Coca-Cola, todos com muitas horas de fila.

O Boulevard Olímpico atraiu cariocas durante dos os dias dos Jogos. Foto: Clara Mayrink

Durante as Olimpíadas, as filas iam desde uma ida ao banheiro até às atrações. Além dos shows e dos telões com a transmissão das competições, os locais mais concorridos foram a Parada Coca-Cola e a Casa da NBA. No dia 18, feriado na cidade, as filas ficaram ainda maiores, mas não foram problema para a maioria das pessoas, que preferiram enfrentar até quatro horas de espera para entrar nos espaços.

A jovem Juliane, 23, foi uma das que não se importou com as filas. Fã da NBA, saiu de Santa Cruz, na Zona Oeste, e ficou mais de quatro horas na fila para conhecer a casa da liga de basquete americana. “Trabalho em um prédio aqui perto, acompanhei toda a obra e estava bem caótico aqui. Normalmente não tenho tempo de vir por causa do trabalho, agora aproveitei para vir conhecer”, disse. Ela afirmou que, em um dia comum de feriado estaria em casa dormindo, mas ainda assim, preferiu enfrentar a fila no Boulevard Olímpico.

Fila para a Parada Coca-Cola chegou a durar quatro horas. Foto: Clara Mayrink
As amigas Fernanda e Marcela aproveitaram o feriado para conhecer o Boulevard Olímpico. Foto: Clara Mayrink

Mas nem todo mundo teve disposição para esperar tanto. A advogada Marcela Cunha e a funcionária pública Fernanda Gomes, moradoras da Barra da Tijuca, decidiram não encarar as filas. Fãs de praia, trilhas e de passeios ao ar livre, as amigas aproveitaram o feriado para fazer algo diferente e conhecer o novo espaço. “Estamos acostumadas com o centro da cidade só pela rotina do dia-a-dia e hoje as coisas estão diferentes, tem novidades”, disse a funcionária pública. Marcela conta que as filas estão maiores do que esperava gerando um desanimo. Elas desistiram de entrar nas casas da Coca-Cola e da NBA, mas mesmo assim gostaram do passeio. “Eu esperava a fila, mas está maior que eu imaginava, realmente muito grande. Desanima. Tem outras atrações, queremos passear ainda. Mas só o passeio já vale a pena, está tudo lindo”, opinou a advogada.

Também moradora da Barra da Tijuca, Doraci Soares de Deus , 55, se diz a “rainha da fila” e não se importa de ficar o tempo que for para conhecer todas as atrações. Ela diz ter acordado 6h da manhã e ido até o local “feliz da vida” com o afilhado Caio Vítor, de 9 anos.

“Vou amarradona em todas as filas de todas as casas. Ontem fiquei duas horas na fila da casa da Suíça num sol de quase 40º. Fui também na casa da NBA e na de Portugal”, disse a manicure. Ela adora uma fila e faz até amizades enquanto espera. “Já peguei até o contato de pessoas que vieram de Belém do Pará e conheci na fila. Não tem uma fila que eu não faça um amigo. Não fico com a boca fechada um minuto”, brinca.

Doraci aproveitou a época dos jogos para fazer todos os programas gratuitos que estavam sendo oferecidos e foi ao Boulevard vários dias. “Se não tivesse o Boulevard, eu estaria chorando dentro de casa. Sou voluntária, mas não me chamaram, então estou todos os dias aproveitando”, revelou. “Eu acho falta lazer para o carioca. Poderia ter mais shows, mas iniciação a esporte, por exemplo.”

Fila para a Parada Coca-Cola chegou a durar quatro horas. Foto: Clara Mayrink

Segundo a cientista política Aline Lopes, a falta de espaços culturais e ambientes de lazer ao ar livre, principalmente nas Zonas Norte e Oeste, poderiam explicar o tamanho das filas e o interesse das pessoas com as atrações do Boulevard Olímpico. “A cidade, de uma maneira geral, tem passado por um processo de expansão e integração. Exemplos disso são o Parque Madureira e áreas na zona oeste no mesmo estilo, que segue o conceito de área aberta, para a população local. Mesmo assim, a zona norte e a zona oeste principalmente ainda são carentes destes espaços. São áreas subaproveitadas, porque têm um movimento cultural forte em vários bairros, que poderiam estar ocupando estes espaços”, disse Aline. Ela acredita que o momento olímpico contagiou as pessoas a irem conhecer o espaço do Boulevard Olímpico, mas a diversidade de espaços abertos que oferecem uma proposta diferente é mínima, e as pessoas acabam indo mais a shoppings.

É o que acontece com Thayane Cristina, de 16 anos e Matheus Amorim, de 15. O jovem casal mora no Méier e enfrentou duas horas de fila para a casa da NBA e quatro para a Parada Coca-Cola, em seu segundo dia visitando o Boulevard. “Para gente que é menor de idade, não tem muita coisa para fazer na cidade. Em dia de feriado, acabamos indo ao shopping mesmo”, contaram.

Legado para o carioca

A revitalização da Zona Portuária, com a renovação da Praça Mauá e a criação do Boulevard trouxeram uma nova cara ao centro e também levantou a discussão sobre espaços da cidade que continuam abandonados. O Campo de Santana e o Passeio Público, por exemplo, são lugares de referências históricas na cidade, que por si só já têm uma carga e contexto histórico e político muito grande.

“Deixar estes lugares abandonados é como deixar abandonada também a história da cidade. Mais importante do que revitalizar esteticamente é também promover o lugar, aproveitando a cultura do bairro e da cidade através dos movimentos culturais que já existem na cidade, como o samba, passinho, funk, hip hop”, disse a cientista política Aline Lopes. “São coisas que são características da cultura da cidade, do carioca e poder explorar estes movimentos em espaços que estão sendo revitalizados e que têm muito da identidade da cidade é fundamental. Ou seja, não só a revitalização do espaço da cidade em si, mas que as pessoas, que são as que carregam a história da cidade, podem fazer parte desta ocupação.”

Sem dúvidas o Boulevard Olímpico foi o diferencial da cidade nas Olimpíadas Rio 2016. O painel pintado pelo grafiteiro Eduardo Kobra foi considerado pelo Guiness Book como o maior do mundo e é um dos grande atrativos do espaço. Os painéis grafitados serviram de pano de fundo para muitas fotos dos visitantes, que faziam até fila, disputando um espacinho no muro para conseguir a melhor foto. O sucesso foi tanto, que o período de algumas atividades foi estendido, como a Casa Brasil, que irá funcionar no Armazém 2 até o início das Paralimpíadas. Por enquanto, o Boulevard tem sido um espaço aproveitado para as Olimpíadas e uma área turística, mas, caso se torne um legado, com a estrutura de segurança, iluminação e ocupação, tem potencial para se tornar uma área de encontro da população e de movimentos culturais.

Por Clara Mayrink e Diane Dias

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.