Batalhas
Eu tenho uma ótima memória, infelizmente. Guardo detalhes dos melhores e piores dias do ano. Onde eu estive, com quem falei, o que fiz. Deve ser por isso que evito os lugares que me trazem ocorridos ruins à memória. Só que hoje eu descobri que isso também vale para o oposto. Já tinha passado por isso antes, mas achei que era devido ao calor do momento. Como um lugar onde eu passei em um dia feliz pode me causar desconforto? Era culpa do lugar; eu pensei que, depois de adentrá-lo, me veio à tona cada momento do dia no qual ele foi um dos cenários.
Hoje andei por ruas para as quais não tinha voltado desde o pré-Carnaval. E por cada loja que eu passei e reconheci, o sentimento de desconforto surgiu. E elas não foram cenários de dias felizes e tampouco tristes, só estava tudo bem naquele dia. Estava. Tudo. Bem. Até que, daquele dia, eu puxei a semana: aquela semana foi ótima. Em todos os sentidos. Estive com quem eu gosto, abracei pessoas que amo, comemorei mais uma volta ao Sol de uma amiga querida, comprei a birken que eu tanto desejava, recebi a bolsa de monitoria retroativa, comi comida japonesa.
Quando minha memória terminou mais uma das suas brilhantes performances, eu entendi. Eu entendi não só o que eu estava sentindo, mas o que eu senti naquele outro lugarzinho que eu parei de passagem, apenas para comprar um brownie e ir para casa. Culpa. A culpa não é da cafeteria ou de algumas calçadas. A culpa, se não é minha, está em mim. Na semana em que eu estive naquelas lojas, estava tudo ótimo, e por minhas atitudes, ela não se repete mais. “Quando você veio aqui estava tudo bem, e agora…”, foi o que eu escutei, gritando, dentro de mim.
Até aí, nenhuma novidade. Carrego várias culpas. E mesmo guardando – mais uma vez: uma memória dessas, bicho – uma frase de uma amiga da escola no Ensino Fundamental, em que dizia “eu não fico pensando demais nos meus erros, porque só vou me sentir mais culpada”, é algo que eu não conseguia evitar, até ser obrigada. Não por livre e espontânea vontade, mas pelas responsabilidades do auge dos 23 anos que me fazem ter que produzir e a olhar para o mundo quando eu apenas queria deitar em posição fetal e ficar em mim.
Com a culpa e os erros, travei uma guerra fria. Eles estão aqui, alocados e vivos, no espaço em que reservei para eles. Uma amiga me disse recentemente: “não se proíba de sentir, sinta o que for necessário para não sentir mais nada”. Mas essa intensidade aquariana dela, livre e desapegada, é diferente da minha. Pessoinhas com Peixes, Câncer e Escorpião fortes no mapa não sabem sentir e sorrir amarelo. É dilúvio, transborda.
Delimitei territórios. Raramente os visito. “A única pessoa que está no seu caminho é você mesmo.” Das batalhas diárias que travo comigo mesma, posso dizer que estou ganhando fôlego. E da rebelião repentina de hoje, que quase me fez perder as rédeas do dia, aprendi que devemos nos manter vigilantes sobre os nossos demônios a todo instante – ainda mais se você tiver uma memória de alta performance.
Eram três horas da tarde. Eu estava em pleno Saara. Acompanhada. Resolvendo os últimos preparativos para ser madrinha de casamento, a 48h da cerimônia. Não podia me perder ali. Não me privo do caos, mas aquela não era a hora. Não ali. “Quando chegar em casa a gente conversa” disse para mim mesma. Olhei para a caixa da loja, sorri e informei que seria no débito. Insurreição controlada. A batalha de hoje foi desleal, mas eu venci.
E você? Que batalha venceu hoje?