O futebol nas arenas olímpicas

Brasileiros mostraram a paixão pelos clubes nas competições

Bandeira do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto, deixada na Arena do Futuro (foto: Diane Dias)

Ê lê lê ô. Lê lê ô. Lê lê ô. Brasil!” Esse, assim como outros tradicionais gritos brasileiros, era o que mais se ouvia nas arquibancadas durante as Olimpíadas Rio 2016. Em qualquer modalidade, a torcida brasileira apareceu e chamou a atenção do mundo inteiro pela sua empolgação, barulho e carinho com os competidores, principalmente com as crias da casa.

O amor dos torcedores brasileiros pelo futebol e por seus clubes do coração ficou estampado nas arquibancadas, com bandeiras de diversos clubes espalhadas pela torcida, às vezes mais presente que a própria bandeira do país. E não só nos jogos de futebol. Os torcedores levaram as bandeiras para as competições de todas as modalidades.

A torcida brasileira também ficou conhecida pela falta de silêncio durante competições importantes, o que foi duramente criticado pela imprensa internacional. Parte desta falta de silêncio praticada pela torcida brasileira se dá pela cultura do futebol, que é forte no país. Aqui, não é comum a prática de acompanhar modalidades como tênis, ginástica ou atletismo, em que o silêncio é fundamental para a concentração dos atletas ou para que possam ouvir o sinal que dá início à prova.

A cultura do futebol, esporte favorito da maioria dos brasileiros, é a do grito o jogo inteiro, a de músicas de apoio ao time e barulho vindo das arquibancadas. O torcedor que lotou as arenas e os estádios das Olimpíadas Rio 2016 levou os gritos das torcidas e a rivalidade entre clubes presentes nos campeonatos estaduais e no Brasileirão. Além, é claro, das camisas e bandeiras dos clubes do coração.

As arquibancadas da Arena do Futuro, no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, casa do handebol nas Olimpíadas Rio 2016, recebeu muitas bandeiras de clubes de futebol brasileiros. No dia 08, o lugar recebeu jogos da primeira fase do torneio feminino. Na parte da tarde, a então campeã olímpica Noruega (que acabou conquistando o bronze) enfrentou a Espanha e, em seguida, o Brasil recebeu a Romênia. Poucos espanhóis e alguns grupos de noruegueses dividiam o espaço com o mar brasileiro. A sua maioria, claro, com a camisa e a bandeira do Brasil, mas várias bandeiras de clube estavam penduradas nas arquibancadas, assim como torcedores vestindo suas camisas.

Foi lá que Marcos Ricarte, de 41 anos, pendurou a bandeira do Ceará na arquibancada. O professor veio com a esposa de Fortaleza para as Olimpíadas, e acompanhou disputas de várias modalidades, sempre com a bandeira do time do coração. “O cearense é muito apaixonado pelo futebol e a gente veio mostrar um pouco da nossa paixão para todo o mundo, para que as pessoas de fora também entendam essa paixão do brasileiro pelo futebol”, disse Marcos.

A ideia do cearense é representar e mostrar um pouco do seu estado e divulgar sua paixão pelo estado e pelo clube Ceará. “Poucas pessoas trazem a bandeira do Ceará para os jogos, ao contrário da do Brasil. As pessoas se identificam, chamam a gente e acaba gerando uma identificação”, relatou. Mas, apesar da bandeira, a camisa amarela de Marcos revelava seu amor também pela seleção brasileira. “Eu torço primeiro pelo Brasil, mas no futebol, tem a paixão pelo clube”, completa.

Tufic Derzi, professor universitário, é taxativo quando foi perguntado sobre a camisa do Atlético Mineiro que vestia: “Como é que você vai em uma festa? Você coloca a sua melhor roupa”. O seu lema é “primeiro o Atlético, depois… depois”, e carrega uma — das quatro bandeiras que tem do clube mineiro — para qual jogo for. A ideia é mostrar o manto para todos os outros atleticanos: “É uma confraternização. Tem outras bandeiras aqui também”. Segundo ele, não estava ali representando o Galo, mas sim apenas sendo “um torcedor que o ama muito”.

Também na Arena do Futuro, ao final do jogo do Brasil, aconteceu o encontro inesperado entre torcedores do Treze Futebol Clube, time de Campina Grande, na Paraíba. O grupo em que estava Raphael Sobreira Mayer encontrou Alexandre Ribeiro Mayer, ambos com as camisas e a bandeiras do Treze.

Alexandre com a bandeira do Treze do Campina Grande: relação com o time começou na infância (foto: Diane Dias)

Raphael Sobreira Mayer, dono da bandeira, se orgulha também de sua cidade ser a dona do “maior São João do mundo.” Com ele, estava também Manoel Leonardo de Almeida, que ostentava a carteira de membro-conselheiro do clube.

O primo, Rodolpho, torce para o Campinense Clube e implica com o time de Raphael. “O Campinense é o único que representa o estado da Paraíba”. Ao que Raphael logo rebate, perguntando onde está a bandeira do Campinense.

“É o orgulho da gente, que a gente acompanha todo dia, está todo domingo no jogo”, diz Raphael sobre seu time de coração. “Nas Olimpíadas, vou um dia com a bandeira e camisa do Brasil e no outro com a do Treze, para divulgar a terra da gente”. Os jovens foram a competições de judô, de futebol e handebol, sempre com a bandeira do Treze de Campina Grande. “O Brasil já conhece o time, mas o mundo tem que conhecer”, diz o jovem.

Alexandre Mayer, de 48 anos, também estava com a camisa e a bandeira daquele que chama de “amor da vida”. “A gente anda todo o Brasil, indo a jogos e levando a bandeira. Sou nordestino e não desisto nunca. Meu time está crescendo e ele um dia vai ser grande. É uma paixão, uma coisa inexplicável. Tem coisas que só Deus explica”, diz. Alexandre acompanhou ainda partidas de futebol, vôlei de praia, sempre levando a bandeira do Treze. “Eu tenho treze camisas do Treze”, se orgulha.

As histórias de Alexandre com o Treze vêm desde a infância. Aos seis anos, ele, que morava no interior da Paraíba, foi à Campina Grande assistir a um desfile de sete de setembro e viu o fundador do Treze desfilando. “Aquilo me marcou demais e, daquele dia em diante, eu sabia que jamais me distanciaria desta agremiação”, diz, emocionado.

Bandeira do Atlético River Clube, do Piauí, deixada por dono na arena (foto: Diane Dias)

Destoando dos torcedores orgulhosos de suas bandeiras e que gostam de mostrar e de que vejam suas paixões, estão aqueles que querem somente que vejam seu time. No mesmo dia, na Arena do Futuro, as bandeiras do Botafogo Futebol Clube, de Ribeirão Preto e do River Atlético Clube, do Piauí, estavam penduradas desde o início das partidas. Os torcedores em volta não sabiam quem era o dono. Um afirmou que um homem pendurou e não voltou mais ali. Outro afirmou ainda que representantes da Força Nacional chegaram a tentar retirar a bandeira da área, mas desistiram. A vontade de mostrar o clube para o mundo é tamanha, que os donos não querem nem ser identificados. Basta colocar a bandeira e esperar que o mundo veja.

Por Clara Mayrink, Diane Dias e Luana Camará

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