Rio $urreal 2016

Espaços olímpicos conquistaram cariocas e turistas, mas preços abusivos atrapalham os dias de lazer

Democrático, mas em termos. Essa é a melhor definição que turistas e cariocas encontraram para o Boulevard Olímpico, espaço público de lazer na Praça Mauá. O motivo são os preços praticados por foodtrucks, carrinhos de bebidas dos patrocinadores oficiais das Olimpíadas Rio 2016 e até vendedores ambulantes. O hambúrguer de R$ 20,00 e o algodão doce de R$ 10,00 não atrapalharam o número de público de quatro milhões que passaram pela Zona Portuária, mas gerou comentários negativos e hoje, cinco dias após o fim dos jogos, enfrenta a baixa de consumo.

Público consumindo no Boulevard: um dos fatores pelo baixo consumo após os jogos são os preços. Foto: Luana Camará

Uma pesquisa realizada pelo Ipetur-RJ (Instituto de Pesquisas e Estudos do Turismo do Rio de Janeiro) e pela Fundação Cesgranrio, com o apoio do Site Consultoria em Turismo e a Associação dos Embaixadores de Turismo do Rio de Janeiro, com 1300 turistas estrangeiros de 5 a 15 de agosto, revelou que 15% dos turistas estrangeiros consideraram a gastronomia como ponto alto de sua visita ao Rio. Em contrapartida, 14% criticaram os preços elevados. O gasto foi alto — 28% dos turistas gastaram mais de $330,00, 30% entre $170,00 e $320,00 e 42% entre $90,00 e $160,00. O Boulevard Olímpico, no Centro do Rio, área que integra a Praça Mauá e a Praça XV ofereceu shows gratuitos durante todo o período dos jogos, mas a contradição entre as atrações oferecidas de graça e os serviços de alimentação, com preços abusivos, foi alvo de reclamações.

O casal, Júlya Medeiros e Luiz Carlos Souza, sentados no foodtruck Food & Drink, comentaram o custo do local. “Eu já vim aqui duas vezes e não consumi aqui, justamente por isso”, afirma. Classificam como surreal uma lata de refrigerante custar R$ 7,00: “Está bem fora da realidade brasileira”. Só retornaram ao carrinho na terceira visita ao espaço porque ficaram “curiosos” pelo Burguer Carbonnade, de R$ 20,00. “Pagar caro e ainda comer em pé não dá, né? Hoje voltamos com calma, está muito mais tranquilo, podemos comer sentados”, finaliza Luiz.

Mariana Duarte, que trabalha no carrinho Pão de Mel na Gema, disse que apesar do ótimo movimento durante os Jogos Olímpicos, ouviu queixas, principalmente dos cariocas: “Nós vendemos o nosso sorvete artesanal por R$ 10,00 e as pessoas reclamaram: “não somos gringos, nós somos cariocas”. As vendas, no entanto, foram um sucesso durante os jogos. Na primeira semana após o encerramento, a vendedora sente a diferença: “Hoje o movimento não está mais caótico como antes, as pessoas podem pegar o VLT tranquilamente e ir tomar um sundae”. Mariana justifica o preço salgado às altas taxas de permanência de estabelecimentos comerciais na área cobradas pela prefeitura.

Léia com a sua barraca de comidas típicas: era para ter ficado no Boulevard durante os jogos, mas a prefeitura não cumpriu o acordo. Foto: Luana Camará

Acarajé, carne seca com abóbora, arroz de camarão, tapioca e outras iguarias tipicamente brasileiras são vendidas, desde a última terça-feira, 23, em barracas no decorrer do Boulevard. A presença das quituteiras da Associação Gastronômica Sabores do Porto era para ter sido marca registrada do espaço público, mas devido aos patrocinadores da Rio 2016 e o acordo da prefeitura com empresas privadas, as barracas foram transferidas para o Largo de São Francisco. Rosane de Lago e Léia Alves, donas de duas barracas, atribuíram à isenção da taxa de permanência que os vendedores têm, por fazerem parte de uma associação, ao serem preteridos pelo governo municipal. Aponta prejuízos não apenas por ter deixado de trabalhar quando o movimento foi mais intenso, mas também pelas exigências da prefeitura: ter recipientes e uniformes novos. “Investi em panelas, em roupas, em comida — porque ficaríamos aqui durante os jogos, mas eles nos tiraram”, afirma Léia.

Foodtruck da lanchonete Hareburger vai até 16 de setembro. Foto: Luana Camará

A lógica faz sentido quando temos conhecimento sobre os números que o foodtruck da lanchonete Hareburger pagou à prefeitura. Segundo o funcionário da casa, Fábio Azevedo, a empresa de hambúrguer vegetariano desembolsou R$ 600,00 para estar no espaço. O custo não para por aí: ainda é cobrado uma porcentagem sobre cada venda, algo em torno de 20%, segundo o caixa. O investimento, é claro, refletiu no preço final do produto: “Um hambúrguer nosso na loja são R$ 15,00. Aqui são R$ 20,00”. O público reclamou, “mas compravam porque não tinham outra opção”. Se ainda é vantajoso manter um foodtruck no Boulevard depois do término dos jogos, Fábio responde que é melhor o carrinho estar na rua do que na garagem, mas enfatiza a queda vertiginosa das vendas: “O faturamento caiu mais de 50%”. O Hareburger pretende permanecer na Zona Portuária até o dia 16 de setembro.

Por Larissa Bispo e Luana Camará

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