eu comia meleca

Lembro perfeitamente do dia em que ma arrependi de comer meleca. Estava sentada na cama de um tio que ainda morava com a minha avó. A gente tinha o hábito de, quando criança, ficar por lá. Era o quarto mais legal da casa e que deixou de existir ha algum tempo. Mas isso não é sobre o quarto . Não é sobre ser criança na casa da avó. Não é. É sobre algumas memórias estranhas que tenho e que, vez ou outra, voltam com alguma mensagem mais estranha ainda. Não sei porque vivo fazendo conexões com fatos antigos.

Voltando à meleca. Como disse, comia meleca constantemente. Sempre ouvia alguém falando que era errado, que era porco. Mas eu gostava, sabe? Só que, de algum modo, aquilo começou a me incomodar. Primeiro, comecei percebendo que poucas pessoas faziam aquilo (claro, né… quem admite que come meleca assim, fácil?), depois vi que eu tinha que esconder também, e não me agradava fazer alguma coisa escondido mesmo achando que não tinha nada demais. Logo em seguida, percebi que não poderia continuar fazendo uma coisa errada só porque eu gostava. E aí, veio o arrependimento.

Voltando ao quarto: eu estava na cama, quase dormindo… e veio uma vontade grande de comer meleca. Na mesma hora um sentimento de culpa. Pedi a Deus (olha, eu era criança. Uns 6 anos ou mais, talvez) que me ajudasse a parar de comer meleca, porque sabia que me fazia mal, que me prejudicaria e que, cara, aquilo era nojento. E assim foi… Não comi meleca naquele dia, não comi meleca nunca mais.

O que espero dizer com esse depoimento constrangedor? Não sei ao certo. Só que, desde pequenos, começamos a construir com a ajuda de todo mundo que nos influencia de alguma forma, certos tipos de comportamentos (nessa caso, não estou falando da meleca). Talvez eu queria dizer também que em tempos de tanta ignorância, nós desprezamos o fato de que aprendemos a desenvolver um senso crítico desde muito cedo, infantilizando tudo e todo mundo. Talvez, e só talvez, eu queria dizer que vale muito a pena ser exemplo na vida de alguém. Talvez eu ouse dizer que a meleca que eu decidi não comer na minha infância, tenha me livrado de muitas outras melecas ao longo dos meus 31 anos. Talvez.

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