Desagrado
O frio fazia os olhos arderem, assim como a bebida e a maquiagem borrada. Carolina não costumava beber. Bebia apenas em situações socialmente difíceis de suportar, pois algumas pessoas só lhe passavam pela garganta quando empurradas pelo líquido amargo e gelado.
Uma humilhação como aquela não seria fácil de deglutir e digerir. As palavras voltavam em um refluxo contínuo, despertando nojo e aflição. Subiam com força, ávidas pela vingança, por encontrar o rosto do traidor.
Pediu mais uma dose e sentou-se no meio-fio. Botas pretas, uma calça jeans escura e um casaco fino a protegiam do frio. Deitou-se na calçada sem se importar com o que pensariam. Estava vazia de sentido, vazia de si mesma. Toda sua alma fora embora naquele jantar. Os longos cabelos pretos se espalharam na calçada formando um tapete semelhante àqueles que se fazem com o pelo do animal caçado. Seu pelo e sua pele foram abatidos pelo voraz e impiedoso caçador. Faltava apenas exibirem sua cabeça na sala de jantar. No cenário do absurdo.
Fernando e Carolina conheceram-se ainda na faculdade. O interesse mútuo não foi instantâneo e espontâneo. Aconteceu depois de dois anos de insistência dos amigos em comum. Vocês combinam. Um drink. Vocês combinam. Uma noite fria e barata. Vocês combinam. Gestos ensaiados, um acordo sem palavras. Vocês foram feitos um para o outro. Vocês combinam.
Carolina era a encarnação de um sentimento sem nome. Tinha a beleza nostálgica, forte, sensual. Seu olhar era firme e escondia uma tristeza sem motivo, que só sente quem entende o sentido da vida. Quem entende que não tem sentido viver, que é apenas um acidente de percurso. Sofria de uma dor intensa e poética. Melancolicamente bela.
Fernando não era um mau rapaz. Bonzinho, não falava alto, não fazia gestos bruscos, engraçado. Omisso. Nunca agrediu Carolina, mas nunca a elogiou. Não a atacava, mas também não conseguia defendê-la. Não entendia nada de dores. Fora criado sem senti-las. Remédios, chás, afagos, proteção, elogios, colo, conivência, fugas.
A imagem do jantar ainda pulsava na lembrança. Como ele teve coragem de fazer isso? Logo ele e logo com ela? Não era de se admirar, um fraco, não suportaria enfrentar nada por ela.
O frio preenchia os pulmões. Instalava-se duro nas narinas. Ela deitada na calçada. Humilhada, fragilizada, exposta. Se Fernando arrancasse toda a roupa dela e a deixasse nua na frente de todas aquelas pessoas não seria tão ultrajada.
Sentia vontade de explodir em um choro derradeiro e convulsivo que sacudisse a sua alma e o fizesse enxergar o que fez. Queria apagar a sensação. Observou sem muito interesse um casal que se beijava do outro lado da rua. Pensou por um momento se aquela mocinha sentiria um dia o que ela sentiu.
A roda de amigos era antiga. Costumavam reunir-se uma vez por mês para beber, contar as novidades da vida adulta, falar mal dos amigos que não estavam presentes. Carolina já estava enojada há muito tempo da conveniência social. Agora tinha um motivo forte para desejar fugir: Lúcio. Convidado especial de Fernando. Todos sabiam de tudo, qual era a necessidade de ressuscitar essa história?
O Lúcio é meu amigo, Carolina. Relaxa. Fernando, e eu sou sua esposa. Carolina, e daí? Qual é o problema? Problema, Fernando? Você sabe qual é o problema. Carol, isso é passado. Passado pra você, seu idiota.
A última palavra a obrigou correr até o banheiro. Nojo dele, de si mesma, de todos daquela sala.
Carolina, você continua a mesma, né? Silêncio. Heim, Carol. Não me chama assim. Eu te chamo como eu quiser, preciso te lembrar disso? Silêncio e lágrimas discretas. Fernando observando omisso. Carolina buscando a cumplicidade do marido em um último fio de esperança. Todos fingindo normalidade. O ar poderia ser cortado com uma faca.
Todos sentados à mesa. Carolina encarando Lúcio já bêbado. Fernando sentado na cadeira ao lado da esposa. Um abismo entre eles.
A moça aperta as têmporas e bebe mais um gole. Olha o pulso roxo e o vômito a obriga a abaixar a cabeça entre as pernas na calçada.
Um amigo do marido tocou na ferida. Carolina, e aquela história do emprego? Resolveu? Um olhar para o marido. Omisso, engraçado, amigo de todos, evitava conflitos. Todos se entreolharam. Lúcio olhou com deboche. Era impossível respirar, o ar pesava como chumbo. Resolvi.
Não resolveu, não, Paulinho. Cala a boca, Lúcio. Calma, Carol. Estamos ainda tentando nos livrar do processo que essa louca abriu. Assédio, acredita? Há-há. Até parece mesmo que eu vou querer alguma coisa com ela. Tenho o maior respeito pelo Fernando. Um brinde a nossa amizade!
As lágrimas molharam o prato. Todos os olhares se voltaram para ela. Julia quis defender, sabia o tipo de pessoa que Lúcio era. Tinha cedido algumas vezes aos caprichos dele para se manter no emprego. Precisava, ajudava a mãezinha e a irmãzinha. Favores, silêncios, noites. Carolina não aceitou. Julia desejava ter essa coragem, ter gritado, denunciado, mas tinha a mãezinha, a irmãzinha, o dinheiro, a vergonha, o casamento, a culpa…
Fernando, como você deixa sua mulher fazer isso comigo, cara? Riram. Fernando riu. O marido ria dela, omisso. Carolina é exagerada mesmo. Vamos resolver isso de outro jeito, não é mesmo, amor? Humilhada, exposta, abandonada pelo próprio marido para ser fustigada por quem quisesse. Carolina, me passa o vinho? O copo, a garrafa, os pratos, talhares. Tudo no chão. De uma só vez.
Carolina correndo.
- Faz favor, o que o senhor tiver de mais forte.